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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Depois, memorava os dias de amor, desabrochado já o seio em plena florescência, com os seus desejos balbuciados em frases todas alma e enleio, dulcíssima linguagem, que era ainda a das quimeras pueris, mal desvanecidas no trajecto da infância à adolescência. Poesia ainda, flor sempre lustrosa e verdejante, porque a sua tige está continuo a medrar em lágrimas, de onde paixão nenhuma hedionda dos vindouros tempos lhe há-de extirpar a raiz.

Seguia-se o recordar as dores atrozes do abandono dela, quando o moço, em Lisboa e Ruivães, duas vezes se atirara aos braços da morte, aceitando o Inferno, se o lembrar-se o condenado da mulher que amou na Terra não era já o máximo tormento.

Afinal, após os queixumes, subiu-lhe do coração aos olhos numa lágrima o perdão. Perdão e amor: que não há aí, em alma humana, perdoar ingratidões sem beijar a mão que nos alanceou. Esquecer, sim; mas esquecer é desprezo, não é perdão.

Escrita e fechada a carta, sobresteve Afonso no remetê-la. Acaso iria ela, sem desvio, às mãos de Teodora? As injustas suspeitas não poderiam ter Eleutério desobreaviso? E, demais, reatadas as ligações de estima, iria Afonso, contra a vontade de sua mãe, para casa, e sustentaria ali o cortejo à mulher casada?

Estes quesitos falavam à razão; porém, a pobrezinha da razão estava já escondida na consciência, e a consciência ensurdecera com a guizalhada do baile carnavalesco em que seu dono a mandara estudar os costumes do seu tempo.

Foi a carta com direcção a Braga. Era dia de feira quando ela chegou ao correio: estava ali o marido de Teodora vendendo cereais. Foi à lista postal ver se seu pai tinha carta de parentes do Brasil; e, como não se entendia bem com os nomes maiores de três sílabas, pediu que lhe lessem a lista inteira. Quando o obsequioso leitor chegou a Teodora Palmira Vilar de Sonsa, exclamou Eleutério:

- É a minha mulher! Há-de ser cana do livreiro.

Convém saber que a morgada se entendia directamente com os seus livreiros fornecedores.

Eleutério foi tirar a cana, e deu-lhe nos olhos, afora o lustre do sobrescrito, O lacre azul fechado com armas e, mais que tudo, a marca de Lisboa.

Não me atrevo a compor o solilóquio de Eleutério Romão. Sei que ele andava com a carta às voltas, entre mãos, e às vezes esfregava entre dois dedos o papel, como se pelo tacto pudesse inferir do conteúdo. Estava com ele o regedor da sua freguesia, o mesmo que lera a lista, e lhe lia na alma agora.

- Que estás a malucar, Eleutério? - disse ele. - A modo que esta cana te deu no goto!...

- A falar a verdade - respondeu o marido de Teodora -, esta letra não na conheço, nem estas armas reais!... Minha mulher não conhece ninguém em Lisboa, e estas letras, compadre, parece que rezam Lisboa.

- E como diz: Lisboa sem tirar nem pôr. E então?... achas que ela...

- Estão-me a dar guinadas de abrir isto!... Que dizes tu, compadre?

- Eu cá, se fosse comigo, já a cana estava aberta. Mulher minha a ter canas, sem eu saber de quem!...Deus me defenda!

Palavras mal eram ditas, que Eleutério quebrou o lacre, e passou a carta ao regedor, dizendo:

- Lê lá... ela é tamanha!, parece uma sentença!... Vamos ver isso, que eu já me não sinto escorreito.

O regedor tomou o manuscrito de oito páginas entre as mãos, pôs-se em atitude abrindo as pernas em circunflexo, tossiu, tomou fôlego, deu crena de saliva aos beiços, e leu engasgadamente: "De onde vem esta celestial harmonia, que a minha alma ouviu, quando o Céu me bafejava a infância, e as delícias todas da existência me eram pronunciadas nos sonhos?..."

O regedor revirou os olhos pasmados a Eleutério e disse:

- Tu percebes isto, compadre?

- Assim me Deus salve, que não percebi palavra-respondeu Eleutério Romão esbugalhando os olhos sobre a escrita cabalística.

- Português acho que é! - tornou o regedor, consultando a opinião do compadre. - Isso é, lá português é... Ora torna a dizer.

O leitor repetiu e disse.

- Fala aqui em alma, e sonhos, e delicias. Sabes que mais? Isto, seja lá o que for, não me cheira bem!... Aqui, Deus me perdoe, há maroteira daquela casta!... Deixa-me ver mais um bocado a ver se pesco alguma coisa.

E continuando, leu:

"Sonhos de anjo, alumiados pela imagem lúcida da filha da minha alma!, volvei, volvei, orvalhai a flor requeimada, dai uma lufada de Primavera ao meu coração regelado pelos frios desta infinda noite... Oh, minhas donairosíssimas quimeras!..."

- E agora entendeste? -voltou o regedor. - Eu estou como a Felícia de Abrantes, pior que dantes. Isto, se não é latim, é o diabo por ele!

- Queres tu que se pergunte a alguém?! - acudiu Eleutério. -A gente há-de achar quem lhe explique isto cá em Braga... Fala-se aí a um padre que eu conheço, ao capelão das Ursulinas.

- Dizes bem... Tu não hás-de ir para casa sem tirar isto a limpo... Queres tu ver que aí vem o homem que nos explica o negócio?

- perguntou o magistrado administrativo. - E meu compadre Fernão de Fonte Boa.

Era Fernão de Teive, conhecido por de Fonte Boa por ser lá o seu morgadio. Com o velho fidalgo vinha Mafalda, apoiada no braço dele com doentio aspecto.

(continua...)

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