Por Coelho Neto (1890)
Acima da padieira da porta envidraçada dois velhos de imensas barbas derramadas, nus, as pernas estiradas, encostados a ânforas que jorravam para um lado e outro golfões de água espumante. Eram dois rios mitológicos. Ruy Vaz apenas achou defeito no ventre de um dos patriarcas fluviais. Realmente era desmedido, e se não fossem as barbas copiosas da figura, bastava aquela monstruosa pança para designar-lhe o sexo. Mas Anselmo achou natural:
— Um rio deve ter barriga d'água.
Crebillon achou o "rio" indecoroso. O pintor, ao menos por decência, devia ter espalhado juncais que ocultassem aquela deformidade. Passaram adiante ganhando o corredor, onde a luz era escassa, e só viam portas abrindo para gabinetes e alcovas, mas, alcançando a sala de jantar, ficaram deslumbrados. Era imensa! Quatro janelas olhavam para o jardim, folhagens balouçavam-se, inclinando-se indiscretamente como se quisessem penetrar aquela basílica de regalo, aquele santuário do ventre, onde podia, à vontade, ser servido um banquete a cem pessoas em mesa extensa, florida e rútila de baixelas.
O teto era de madeira fosca, com entalhes preciosos. As paredes pintadas:
eram aves, enfiadas de peixes, lebres e pacas sangrando, pencas de frutas, racimos e açafates de flores sobre as quais pairavam borboletas.
O soalho era de mosaico de madeira e, encravado na parede, com uma carranca feroz de bochechas cheias como um Euro, havia um lavabo de mármore. O ar que bafejava a sala, cheirava suavemente a jasmim.
— Aqui pode a gente comer! — exclamou Anselmo. As próprias paredes encarregam-se de despertar o apetite. Que delícia e que aroma!
Crebillon avançou solene, mostrando com a bengala o grande braço do gás, com oito açucenas azuis.
— Isto é que não vai bem aqui; e ajuntou: A casa é boa, ainda assim precisa de certos retoques artísticos. Este gás, por exemplo, vai fora. Esta sala está a pedir um lustre para vinte ou trinta velas; vinte chegam, aqui ao centro. Agora vejam lá vocês se concordam: A mobília de canela ou de imbuía...
— Por que não há de ser de carvalho? — emendou Ruy Vaz.
— Aí vem você com o carvalho! Para que havemos de recorrer ao estrangeiro quando temos as mais belas madeiras do mundo? Que diabo! Vocês não são patriotas... É por estas e outras que nunca seremos autônomos, havemos de ser sempre um protetorado europeu. Carvalho... Não senhor: canela ou imbuía, estilo grego. Ou monta-se a casa com gosto ou então...
— Pois seja, concordou Ruy Vaz.
— Imbuía ou canela, continuou Crebillon. Aqui, o bufê... Ali, o guarda-prata...
Acolá, os trinchantes. Duas dúzias de cadeiras... Que acham?
— Sim, duas dúzias, concordou Anselmo.
— Nos cantos podem ficar uns cache— pots com palmeiras, dracenas. Eu detesto o encerado inglês, mas se vocês fazem questão...?
— Não, dispensa-se o encerado. Com um soalho como este é até profanação.
— Também acho. Então está pronta a sala de jantar. Ah! Sim, precisamos escolher uns panos claros para as janelas e portas. Isso vê-se depois. Vamos adiante.
Passaram à copa ladrilhada. Era vasta, com um armário e duas pias de mármore.
A cozinha lembrava a de um castelo feudal. No forno do fogão, novo e brunido, com os metais muito reluzentes, caberia um novilho inteiro. Era uma peça solene, digna de um comentário, com uma complicada rede de tubos amarelos e torneiras, bocas de todos os tamanhos, caldeiras, uma infinidade de minúcias que só poderiam ser entendidas por um mestre perito que, a ciência rara de queimar uma omelette au rhum, reunisse a sabedoria de mecânico.
João de Deus, depois de examinar detidamente o monstro, passeando em torno dele, abrindo e fechando torneiras, escancarando pesadíssimas portas que davam aos olhos a vertigem do abismo, confessou que não entendia "aquela geringonça". Mas Crebillon, sempre austero, avançou para mostrar ao negro como se operava. Olhou, deu volta e, de repente, lembrando-se de alguma coisa, saiu em passos ligeiros. Tornou, porém, logo depois e, abrindo, com muita convicção, uma torneira recuou encharcado e, certamente, a casa teria sido inundada se João de Deus, afrontando o esguicho, com risco de apanhar uma bronquite, não houvesse estancado o jorro.
De novo Crebillon investiu e foi distorcendo todos os registros que encontrou e, logo, um cheiro ativo de gás espalhou-se pela casa. Crebillon riscou um fósforo, atirou-o ao tubo, deu um pelo prudente e houve a explosão. O monstro ficou iluminado como um edifício público em dia de festa nacional. Os rapazes aplaudiram com entusiasmo e João de Deus, aterrado, recuou do fogão como de coisa satânica.
— Vêem vocês? Temos aqui o gás, que é a essência do coke. Não precisamos de carvão nem de lenha. Podemos cozinhar um boi com a maior brevidade e limpamente.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.