Por Bernardo Guimarães (1869)
Ditas estas palavras, Oriçanga dirige-se à porta da cabana, e aí apresentase em pé e desarmado aos olhos dos sediciosos. À vista do vulto grave e venerável daquele antigo e ilustre chefe, que outrora tantas vezes no campo da peleja os tinha conduzido à vitória, e que tanto lustre e poderio tinha dado à nação com seus feitos valorosos, os revoltosos sentiram-se possuídos de respeito, e suspenderam suas vozerias tumultuosas. Então o cacique erguendo a voz, em breves, mais enérgicas palavras, exprobrou-lhes a ação indigna e feia que praticavam, de que nunca houvera exemplo naquela valente e generosa nação; ponderou-lhes que no seu tempo os Chavantes folgavam de alardear seu valor em defesa dos seus no campo das pelejas combatendo as hordas inimigas; que os de hoje porém só sabem perturbar a concórdia e paz doméstica voltando suas armas uns contra os outros, e mostram-se ferozes e arrogantes diante da taba indefesa de seu chefe, onde só se acham alguns velhos inermes, uma fraca virgem, e um estrangeiro foragido, violando, sem pejo, o que há no mundo de mais sagrado e digno de respeito, a autoridade, a velhice, a inocência e a hospitalidade. Mas que para defender todas aquelas coisas veneráveis e santas, ele ali estava, ele só, velho, enfermo e desarmado; que para penetrar em sua habitação, teriam de calcar aos pés o seu cadáver.
Os selvagens, como as crianças, passam com extrema facilidade de um sentimento a outro, da coragem ao desânimo, da mais violenta e arrogante insubordinação à mais humilde submissão. As severas e enérgicas palavras do cacique retumbaram naquelas almas exaltadas como os trovões da cólera celeste. Confusos e envergonhados de seus excessos, os revoltosos deixaram cair aos pés as suas armas, e curvados com as mãos cruzadas nos peitos pareciam implorar perdão ao exasperado cacique.
Então Oriçanga, aproveitando o ensejo e a boa disposição dos ânimos, anuncia-lhes que, por deliberação do conselho dos pajés, acabara de resolver-se a levar a guerra a dois inimigos audazes que de longo tempo os ameaçam, e põem em perigo a tranqüilidade, a liberdade e a vida dos Chavantes; que é tempo de vingar pelas armas antigas injúrias, e conjurar futuras e iminentes calamidades; que em vez de procurarem matar-se uns aos outros no seio de suas habitações será mais nobre que arrisquem a vida e vertam o sangue pela causa da nação a que pertencem. Ele enfermo e acabrunhado sob o peso da idade e dos trabalhos sente profundo pesar por não lhe ser mais possível ir em pessoa guiá-los ao campo dos combates, afrontar os mesmos riscos e fadigas e partilhar as mesmas glórias; mas terão à sua testa dois valentes e ilustres chefes, ainda em todo o viço e rigor da idade, que os conduzirão com segurança ao mais completo e glorioso triunfo.
Adverte-lhes, enfim, que se armem e preparem a fim de que em poucos dias estejam prontos a partir para a guerra.
Esta fala acabou de produzir a mais salutar diversão nos belicosos ânimos dos Chavantes. Vivas e estrondosas aclamações ecoaram por longo tempo pelas ribanceiras do Tocantins; os diversos grupos se dispersaram, e todos se retiraram para suas tabas contentes e pressurosos a tratar cada um de se prover de aviamentos para a campanha que ia começar.
CAPÍTULO II
AS DUAS EXPEDIÇÕES
Dentro em quinze dias estavam concluídos os preparativos para essas duas expedições, que tinham de partir para lados diversos a fim de combaterem dois inimigos de origem e costumes inteiramente diferentes. As margens do grande rio estavam coalhadas de canoas bem providas de armamentos, apetrechos e provisões para uma longa campanha. No dia seguinte as duas expedições, composta cada uma de algumas centenas de guerreiros escolhidos dentre a flor da nação, deviam partir daquelas praias para levar a guerra a países longínquos; a atividade e o movimento reinavam ao longo das margens; a alegria e o entusiasmo reluziam no semblante de todos os guerreiros. Itajiba, à testa de quatrocentos a quinhentos combatentes por ele próprio escolhidos, tinha de partir em canoas e singrar águas acima até onde a natureza do rio o permitisse, e depois abandonando as canoas em lugar seguro penetrar pelas terras do inimigo, procurar os brancos e hostilizá-los sempre em qualquer parte que os encontrasse, devastar e saquear suas fazendas, ir ao encontro das bandeiras que porventura saíssem de Goiás, batê-las e rechaçá-las, se possível fosse, até as portas de Vila Boa. Esta ousada e árdua empresa, cujo plano o próprio Itajiba concebera e propusera, devia durar por tempo indeterminado, enquanto achasse inimigos para a combater.
Inimá, tendo às suas ordens outros tantos guerreiros igualmente de sua escolha, devia transpor o rio, penetrar pelas florestas que lhe ficam ao nascente, e levar guerra crua e desapiedada às hordas errantes dos Caiapós, e rechaçá-los para o mais longe que pudesse das vizinhanças do grande rio.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.