Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Mlle Lucy, encorajada pela paciência do inglês, entrou na loja de calçado, sentou-se semcerimônia em uma cadeira baixa, e disse, como costumava:
- Bon jour, monsieur Williams!
O inglês, severo e pudico, respondeu pela primeira vez, corando fortemente, e com voz trêmula pela ira:
- Non compreende nada francês...
Mlle Lucy, fingindo não perceber a indignação do inglês, avançou um dos pés, mostrou-o todo, e continuou dizendo, ou antes, perguntou em português mal-pronunciado:
- Monsieur Williams, tem na sua loja sapatinho para meu pé?
O inglês, instintivamente, ou por hábito de oficio, fitou os olhos no pé que estava exposto; mas imediatamente voltou-se e exclamou, retirando-se para o fundo da loja:
- Non! procura calçado francês! deixa minha casa!
Mlle Lucy saiu a rir, dizendo somente ao retirar-se:
- Bon jour, monsieur Williams!...
O inglês estava furioso; mas apesar da fúria, na lembrança lhe ficara o pé de Mlle. Lucy.
Não era pé verdadeiramente francês, era-o antes de espanhola, ou melhor, de brasileira: pé delgado, pequenino e de suaves proporções.
Realmente Williams não tinha sapatinhos para aquele pé mimoso na sua loja de calçado inglês.
E a convicção de que não havia miss, nem lady, que não havia, enfim, inglesa que tivesse pés como aquele que Mlle Lucy mostrara, exacerbava a cólera de Williams.
Mas o lindo pé da costureira francesa ficara perfeitamente medido na memória, e encantadora e infelizmente representado nu, branco, delgado, pequenino e delicadíssimo na imaginação do severo e pudico inglês, que aborreceu muito mais Mlle Lucy por ser possuidora daquele tesouro, que nenhuma inglesa poderia ostentar.
E a travessa francesa continuou a entreter-se, repetindo por vezes cada dia as suas doces e zombeteiras saudações Bonjour e Bon soir, monsieur Williams!
Na tarde de um domingo, em que safra a passear, Mlle Lucy, achando Williams a meditar, sentado em um dos bancos da bela varanda do Passeio Público, tomou, sem que fosse sentida, assento junto dele, e arrancou-o à meditação, murmurando-lhe ao ouvido:
- Monsieur Williams sonha com Mlle Lucy...
Williams levantou-se rápido, como a um choque elétrico, e retirou-se logo, e gravemente, sem voltar os olhos para a zombeteira francesa.
Mlle Lucy tinha quase adivinhado.
O severo inglês estava, com efeito, pensando, não nela, mas no lindo pé que ela tinha mostrado a pedir um sapatinho.
A costureira era bonitinha de rosto e graciosa de figura; Williams, porém, não lhe achava nem boniteza nem graça, tinha-a em reprovação por leviana, em aborrecimento pela insistente zombaria das saudações em francês, e todavia a lembrança do pezinho ia aos poucos atordoando-o.
Mlle Lucy, esperta e hábil, percebeu alguma alteração nos modos do inglês, e, ou por cálculo, ou em requinte de abusiva mofa, desfez-se em requebros, fingindo-se amorosa; mas perdeu uma semana sem conseguir o mais leve sinal de afeição.
A francesa empregava em vão o seu francês e não compreendia o inglês.
Veio-lhe a luz em um dia de chuva.
Durante a noite e madrugada chovera a cântaros: a Rua do Ouvidor; intransitável até às sete horas da manhã, ainda estava mais ou menos encharcada às oito horas, em que Mlle Lucy pôde incomodamente acudir ao seu trabalho na loja da modista.
A costureira vinha andando cuidadosa, e para poupar o mais possível os vestidos, arregaçavaos um pouco, deixando completamente expostos os pés, e, vendo Williams à porta de sua loja de calçado, disse-lhe, como já de costume o fazia:
- Bon jour, monsieur Williams!...
O enfezado inglês não respondeu, e voltou o rosto carrancudo; Mlle Lucy, porém, notou que, ainda voltando o rosto, Williams cravara, embebera olhos ardentes, cobiçosos, atônitos em seus pés mignons.
- Eureka!... disse consigo a maliciosa e endemoninhadinha francesa.
E desde então, de cada vez que vinha para a loja, ou saía, Mlle Lucy, dizendo
- Bon jour ou bon soir; monsieur Williams!..., com suas mãos brancas e pequeninas arregaçava os vestidos tanto quanto era preciso para deixar ver os pés.
Williams perdeu de todo a cabeça.
Paixão original, excêntrica, desassisada embora, Williams ardeu em paixão pelos pés de Mlle Lucy, a quem aborrecia, e julgava leviana e até feia, principalmente por ser francesa.
Uma noite o severo inglês chegou a carregar uma pistola para suicidar-se, mas não se matou, porque não achava então meio prático de cair e expirar abraçando os pés de Mile Lucy.
No outro dia, obedecendo a melhor conselho, alugou casa em rua muito apartada da do Ouvidor e na manhã seguinte achava-se mudado.
Foi este o primeiro negociante inglês que desertou da Rua do Ouvidor; invadida por franceses.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.