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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

Mas vós sobre tanto anelo
ficastes em tal desdouro
com anel, que se era de ouro,
era anel do seu cabelo:
quis pagar-vos o desvelo
de perder aquela glória
tão breve, e tão transitória,
e porque lembre o sucesso
tão infausto, e tão avesso,
vo-lo deixou na memória.

Vós a prenda recebestes,
e vendo a perda tão clara
da Luz, que vos desgostara,
por ela vos esquecestes:
qual mercador vos houvestes,
e faltastes na verdade
do amor a sinceridade,
pois a Moça não lograstes,
e a memória Ihe tomastes
em desconto da vontade.

ASSUMPTO QUE HUMA DAMA MANDOU AO POETA.

Quisera, Senhor Doutor
uma informação, e é,
que me deram junto ao que
(do cu dissera melhor)
um golpe de tal rigor,
que passo mui maltratada
por me ver ali cortada:
quero me mande dizer
que remédio pode ter
junto do cu cutilada.
Anda aqui um Surgião
Fulano Lopes Monteiro,
que dizem para o traseiro
tem ele mui boa mão:
quisera saber então,
pois vivo tão desviada,
e como serei curada
por uma sua receita,
ficando sempre sujeita
a Dama da cutilada.

RESPOSTA DO POETA

Senhora Dona formosa
li a de vossa mercê
com a cutilada, que
a traz tanto desgostosa.
a ferida é mui danosa,
e não é para cheirada,
traga-a sempre abotoada,
que é, o que mais Ihe convém,
pois nunca curou ninguém
junto do cu cutilada.

Vi sarar dez mil feridas,
e muitas tão desestradas,
que por serem bem rasgadas,
Ihes chamavam desabridas:
sarar cabeças fendidas,
toda uma cara amassada,
rota uma perna, e escalada,
um braço, e outra cousa assi,
porém sarar nunca vi
junto do cu cutilada.

Causa grande admiração,
como em tal parte a cascou,
só se dormindo a apanhou,
ou estirada no chão:
esta é minha presunção,
que para ali ser cortada
devia estar estirada
com as pernas para o ar,
quando Ihe foram cascar
junto do cu cutilada.

Mas se estava conversando
zainamente, e par a par,
deviam de lha cascar
a barriga assovelhando:
que por juntas lhas meter
uma, e outra punhalada
teve a mão tão assentada,
que o contrário resvelando
de muitas veio a fazer
junto do cu cutilada.

Há feridas do diabo,
e de si muito nojentas,
porém as mais fedorentas
são, as que estão junto ao rabo:
eu tal ferida não gabo
por ser em parte arriscada,
que em que seja seringada,
como a parte é tão reimosa,
e sempre mui perigosa
junto do cu cutilada.

Algumas vezes curei
com ovos tão grandalhões,
que pareciam culhões,
mas debalde me cansei:
com mecha lhos encaixei,
que entrava tão ajustada,
que ia algum tanto apertada:
mas era cansar-me em vão,
porque ovos não curam não
junto do cu cutilada.

Toda a ferida se ajunta:
porém esta, que se afasta,
é ferida de má casta,
que mesmo se desconjunta:
o óleo, com que se unta,
tenho por cousa baldada,
que como não é ligada
a cura na parte bem,
não pode sarar também
junto do cu cutilada.

Para se poder curar,
hão de se as pernas abrir:
começando a dividir
como se pode soldar?
também devem reparar,
que vai dentro prefundada,
e se não for seringada,
também pode apodrecer:
pois que remédio há de ter
junto do cu cutilada?

Tenho dito em português,
que se não pode curar,
inda que se esgote amar
porque não falo francês:
a ferida que se fez,
é em tão má parte dada,
que toda a cura é baldada,
e assim digo em conclusão,
que não há, quem cure não
junto do cu cutilada.

Mas eu tenho para mim,
para que dela não morra,
que Ihe unte sebo de porra,
ou sumo de parati:
porque já enferma vi
com semelhante golpada
ficar muito consolada,
que a experiência mostrou,
que curar ninguém tratou
junto do cu cutilada.

RETRATO DO RICO FEYTIO DE HUM CELEBRE GREGORIO DE NEGREYROS, COM
QUEM GRACEJAVA O POETA, E EM QUEM MUYTAS VEZES FALLA.

(continua...)

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