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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Esta última questão é grave: qual será a atitude do exército? Terá a obediência passiva e estúpida dos primeiros tempos do império – ou mais educado, mais saido do seio do povo, tendo simpatias republicanas, recusar-se-á a tentar a destruição da república? Esta é a questão: todas as tentativas de compromisso são efémeras: são episódios: o fundo da discussão é este – a França republicana quer que o marechal saia e o marechal não quer sair. Não quer sair porque se acha bem: a marechala quer fazer aos reis e aos príncipes as honras da Exposição: os padres que o cercam não querem que o triunfo da república inaugure uma política antipapal; o visconde de Harcourt, alma danada (ao que dizem) desta intriga, não quer perder os salões do Eliseu, onde triunfa e onde é leão; o duque de Broglie não quer abdicar da sua influência, oculta ou clara, no Governo da França: ninguém quer sair, todos se acham confortáveis no poder. E, como não podem coabitar com a república, hão-de fazer tudo para que a república saia. Para isso contam com uma espingarda: resta saber se a espingarda lhes rebentará nas mãos.

Os negócios da Turquia vão mal. Os generais a que o sultão concedera o título sonoro de Vitoriosos – começam regularmente a ser vencidos. Muktar Paxá, na Ásia, viu o seu exército destruído; e Osman Paxá, na Europa, teve de entregar Plevna, render-se sem condições, depois de uma luta heróica em que ele foi gravemente ferido. Faltam detalhes deste desastre, mas as suas consequências são terríveis: os Russos podem agora arremessar contra Suleiman, ou contra Mehemet-Ali, o grosso dos exércitos que cercavam Plevna. E aqueles generais acham-se diante dos números superiores de tropas exaltadas pela vitória, com boas comunicações asseguradas, e tendo ganho, numa campanha de cinco ou seis meses, uma experiência militar onde os erros se tornam mais raros. Plevna fez, no entanto, uma defesa admirável: parece que (ao contrário do que diziam os jornais amigos da Turquia, afirmando que as provisões abundavam dentro da cidade) o exército de Osman Paxá morria de fome: o primeiro grito dos soldados rendidos foi pedir pão! Compreende-se que Osman Paxá quisesse fazer uma surtida desesperada: e colhido pela frente e pela retaguarda, sucumbisse numa luta desigual. Quase cem mil homens cercavam Plevna: os reforços aglomerados ultimamente elevavam este número a cento e cinquenta mil. Osman Paxá não devia ter mais do que trinta e cinco a quarenta mil soldados, que as privações, a fome, o desalento, tornavam de pouco uso perante forças bem providas. Agora o caminho para Andrinopla está aberto, ou, pelo menos, os exércitos turcos em campanha não são bastante fortes para se oporem ao grosso do exército russo, logo que ele tenha esse objectivo. Andrinopla pode oferecer uma resistência prolongada: mas os Russos não se demorariam nas operações difíceis de um cerco de Inverno, nem quereriam renovar os assaltos mortíferos que dizimaram as suas forças nas primeiras tentativas contra Plevna: e, portanto, o mais natural é que deixem diante de Andrinopla uma força de observação, que torneiem a cidade e se dirijam a Constantinopla. E aí é que começa uma nova fase da guerra: ou campanha diplomática, ou conflito geral, ou então, a paz! É agora que se vai ver quais são as verdadeiras intenções da Rússia. Se fez a guerra com um fim puramente cristão e libertador, está já, pelas vitórias ganhas, no direito de propor a paz, impondo à Turquia condições que garantam a felicidade das populações eslavas: se porém a virem avançar para Constantinopla, então ela descobre a garra conquistadora, e resta saber o que dirão a Inglaterra e a Áustria.

O acontecimento mais notável da última quinzena, em Londres, foi o casamento do duque de Norfolk, o primeiro fidalgo de Inglaterra, conde-marechal do reino, chefe do partido católico. Toda a alta aristocracia papista assistiu à cerimónia, que foi celebrada na capela dos padres do Oratório, em Brompton, com um esplendor romano. A noiva é Lady Flora Hastings, filha da condessa de London, novamente convertida ao catolicismo; os presentes que recebeu são de uma prodigalidade e de um luxo incomparáveis: entre a profusão de jóias, colares de diamantes, colecções de rubis sem igual, adereços de safiras que levaram anos a coleccionar, montes de pérolas inigualáveis, apareceram dois presentes notáveis: um é uma relíquia de um santo, 5. Tomás de Aquino, creio eu; outro é um colar de diamantes e rubis que pertencia a Maria Stuart, e que entrará por herança nas jóias da Casa de Norfolk. A rainha que, nestes casamentos aristocráticos, faz, segundo a antiga tradição, um presente à noiva, desta vez absteve-se. Daqui, grande escândalo. Ordinariamente o presente da rainha é um rico xaile de caxemira: e são tantos os que distribui que parece que em Windsor ou no Palácio de S. James deve haver armazéns subterrâneos atulhados daquele vistoso artigo. Os jornais alegres perguntam todos, com grandes facécias, porque é que no casamento do primeiro nobre de Inglaterra, de um parente de reis, que na corte tem lugar antes dos príncipes, sua majestade não deu ao menos o xaile. Que dê o xaile! Que não se fique com o xaile! – grita a imprensa satírica. Porque é um erro continental supor que a rainha de Inglaterra é cercada de uma tal veneração que a pilhéria não se atreva a transpor as portas do paço. Não: a rainha, como outra qualquer mortal, é (quando isso é justo) criticada, epigramatizada e caricaturada; e nesta ocasião a ocorrência do xaile tem sido objecto da muito grossa jovialidade saxónia.

(continua...)

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