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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

E foi então, durante semanas, um suspirar quasi hysterico por Lisboa, — agora para elle duplamente maravilhosa : um paraizo da intelligencia e um paraizo da paixão — um anhelo permanente que o tomava sob as fórmas mais pueris —a ponto d'olhar com saudade as nuvens que o vento ia levando para o sul, para os lados de Lisboa, e d'invejar o recoveiro que todos os quinze dias vinha receber ordens á pharmacia e partia, choutando na sua egua, a tomar o comboio em Ovar. Ás vezes, sentia-se ridicu l o, ria ; mas o seu desejo não tardava a pungil-o de novo com uma persistencia morbida.

Lisboa ! — Concebia a vida que a enchia, violenta e grandiosa, como o mundo da Comedia Humana, de Balzac. Era de resto pelos romances francezes que reconstruia a sociedade de Lisboa: e não tinha uma idéa menos desproporcionada da sua edificação, imaginando-a de ruas enormes, sonora de trens e flammejante de gaz, assentando a sua pompa movimentada sobre a larga bahia azul, onde esquadras manobravam e salvavam as torres d'outros seculos ! Mas era sobretudo a existencia nocturna dc Lisboa que o fascinava : imaginava sentir, nos cafés, entre o ouro dos espelhos, balançar-se a sussurração das conversas litterarias ; via, á porta dos theatros, apinhar-se uma multidão sofrega d'arte, e em redor, nas pragas todas alumiadas, grupos discutirem com subtileza a esthetica dos poetas e a politica dos oradores, Depois, parecia-lhe avistar janellas embaciadas de restaurantes, onde artistas e cortezãs celebravam c:gias, poeticas como galas ; mais longe, distinguia os balcões dos salões aristo„ craticos, d'onde sahia uma claridade discreta tamisada pela sêda das bambinellas: ahi, idealisava a vida d'um mundo superior, em que as faces são pallidas da emoção contida dos sentimentos romanescos; a.hi, diplomatas, cujos sorrisos tinham a frieza da razão d'Estado trocavam ditos á Talleyrand; ahi, sentadas em moveis de velludo e setim, ideaes figuras de belleza patricia respiravam ramos de violetas, com olhares onde brilhava, sob um fluido, o ardor dos adulterios; ahi, vivia DIIa, a senhora. do vestido de xadrez . . . E em redor, no mysterio da vasta cidade, imaginava a existencia das personalidades atormentadas do romance ou do theatro — os Rastignacs, pungidos d'ambição, os Vautrins, fazendo temerosamente a caça aos mihões, os Camors scepticos, os Giboyers sublimes e os visionarios, que, n'um quinto andar, planeiam a destruição da sociedade,

Mas n'esta phantasmagoria, enthusiasmava-o sobretudo o mundo dos jornalistas : era um ruido incessante de machinas de impressão, salas de redacção resplandecentes de gaz, pennas que correm sobre o papel, derrubando ministerios ou edificando glorias, e ditos de folhetinistas, que têm a profundidade d'uma philosophia, na precisão d'um aphorismo ! Via-se lá, revendo provas, lendo o seu nome em cada joraal, fazendo civilisação !

Ás vezes, opprimido por estas imaginações, ia ao acaso, de noite, pela Villa, e aquellas ruas apagadas, onde só se sentia um chorar triste de creança nas casas terreas ou um som retardado de tamancos, mandava-lhe mais vivamente o pensamento para Lisboa, onde, áquella hora, os estribos dos trens se desdobravam no perystilo illuminado dos theatros, e nas salas as rabecas davam as primeiras arcadas Imaginava-se então n'uma 80irée, já ilustre. Fallava baixo, n'um vão de boudoir assetinado, á senhora do vestido de xadrez, que sorria, fanatizada pela doçura dos seus conceitos ; pediamlhe depois para recitar ; elle erguia-se devagar, pensativo; em redor murmurava-se : « é o Corve1105 ó um genio ! » E levado na illusão, declamava alto, na rua :

Emquanto dormes no atoan de sêda,

Olho-te o mimo d'esse lindo rosto

Assim as aves dormem n'alameda,

Dormem as aguas ao luar d'Agosto

A sua voz fazia estacar, sobresaltado, algum burguez que vinha da Assembleia, embrulhado no seu chale-manta . . . E Arthur recolhia, triste e fatigado como de)ois d'um excesso, desejando entrar poeticamente n'um convento, ou viver em Lisboa com um emprego d'um conto de réis !

Encontrava em casa o dormente serão em torno da mesa.

— D 'onde vens, menino ? Vens da cavaqueirinha do Vasco ?

—- Não . — exclamava elle, irritado de que lhe suspeitassem qualqu_er interesse pela,' palestras da botica.

Toda a face de Ricardina, então, com o seu longo nariz sobre a mesa, se cobria de severidade carrancuda : sabia que o menino frequentava a Corcovada, c a convivencia do Rabecaz, o bilhar, o tabaco, pareciam-lhe habitos funestos que lhe trariam a ruina da saude e a desconsideração da Villa.

— Nem sei que gosto se possa ter em semelhantes noitadas . — rosnava.

— Chut . — exclamava Albuquerquezinho, todo acceso com a sua paciencia.

Então, em torno da mesa, fazia-se uma mudez amiga.

Cá está ! exclamava elle em triumpho, —É a Imperial. Marque lá, Sabininha.

Sabina tomava•o caderno das paciencias felizes, fazia um traço a lapis.

— Quantas imperiaes, este mez, menina Quatorze, Albuquerquezinho. Bom mez . , .

Ella folheava o caderno, muito interessada :



(continua...)

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