Por Eça de Queirós (1912)
E era só necessidades que sofria? Não. Era espancado, arremessado para o fundo das prisões, morria ente os tormentos... Se a sua mulher era bela, vinham homens de armas que a levavam. Se a sua cabra dava bom leite, vinha o senescal do convento que a confiscava. Tinha que pagar para nascer, tinha de pagar para morrer. Nos homens, para ele, não havia piedade. E havia-a porventura no Céu? O Céu mandava as fomes, mandava as pestes. Quem salvaria o pobre?... Amo forte, que o protegesse, só lhe restava Aquele que vive debaixo da terra e que tem todos os poderes. Ele reunia os seus filhos, ali, onde eram livres e onde não chegava a lança do Senhor, nem o báculo do Abade. Ele ensinava os remédios que livram a peste. Ele fazia achar os tesouros. Ele fazia reflorir a terra. Ele dava do seu corpo o comer aos que têm fome, do seu sangue a beber aos que têm sede. Glória a ele nas trevas! E a multidão gritava: “Glória a ele nas trevas!” Então, saltando da tripeça, o coxo gritou:
— É a hora! Vinde comer e beber, amai a quem vos ame, e sede homens livres no fundo da noite livre!...
Subitamente, dois homens apareceram, trazendo um grande carneiro assado que, com facas, começaram a retalhar. Outros colocaram na mesa de pedra uma pipa de vinho. Com um clamor bestial, toda a turba se arremessou para o feiticeiro. A criatura negra bradava; “Comei do meu corpo, bebei do meu sangue!” Os pedaços sangrentos da rês desapareciam nas bocas vorazes. Em malgas de louça, em vasos de buxo, o vinho negro espumava. Alguns fugiam com sua ração para a devorar em silêncio. Outros lutavam entre si, como cães disputando um osso. As mulheres empinavam as malgas de vinho, que lhes escorria nos peitos. Havia outros que, na alegria do comer, dançavam, brandindo um osso esburgado. Sob a mesa, havia braços descarnados lutando pelos restos. Já uma embriaguez aquecia as almas. Gritos roucos partiam das bocas das mulheres. E de pé, o grande bruxo, intimava a Lua a que se escondesse, para que os homens fossem mais livres, no fundo da noite livre. Cristóvão, imóvel, olhava, encostado a um tronco, a cabeça escondida na ramagem ligeira. Por vezes, um pastor, agarrando uma das mulheres, arrebatava-a para a escuridão. Gemidos de pecado contente soavam na negra espessura. As feiticeiras rasgavam os últimos trapos, e nuas, hediondas, galopavam escarranchadas sobre as vassouras. A grande mulher trigueira arrebatou e enlaçou Cristóvão, com olhos que o devoravam, murmurando: “Vem!”
Ele suavemente empurrou a criatura – e só, triste, de uma tristeza infinita, começou a caminhar através do mato espesso. O seu coração sangrava. Aquela gente clamorosa não era amiga do Senhor. Perdidas estavam as suas almas. Mas por que sofriam eles tanto? O coxo dissera a verdade. Para o pobre só havia a miséria. O Senhor vinha com sua grande lança, depois o Bispo com o seu duro báculo. E quando nada restava ao pobre, uma mulher branca surgia, encostada a uma vara branca – que era a Peste. Pobres homens! Pobres criaturas! Por que não vinha o Senhor?
XIII
Assim pensando, caminhava Cristóvão. Todo o dia caminhou. Desde a véspera
não tivera pão, nem água: - e ao fim do dia, sentado numa pedra à beira do caminho, ele pensava onde encontraria o pão dessa ceia. O sítio em torno era deserto e triste. Nenhum caminho conduzia a moradas humanas. Ao lado, estendia-se uma grande lagoa dourada. Altos canaviais erguiam as suas maçarocas negras. E a água parecia dourada, tocada do sol que descia. Um bando de patos bravos voava no alto. E o silêncio era triste e profundo.
Cristóvão ia seguir, marchar, quando o rumor de uma cavalgada ressoou ao longe, e uma comitiva apareceu, caminhando com lentidão. Dois besteiros a pé, marchavam na frente. Um servo trazia molhos de archotes, para a primeira escuridão da noite. E logo atrás caminhava uma vasta liteira, com cortinas de couro vermelho e topes de plumas aos cantos. Duas damas, ao lado, montavam mulas brancas. Em roda vinham cavaleiros com lanças. E as arcas das bagagens carregavam duas fortes mulas, emplumadas de vermelho.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.