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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Ora essa! Com perdão de V. Exa.... Perfeitissimamente exato. Lá o conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas Damas da Corte do Céu, livro precioso, livro raríssimo, que o Sr. José Barrolo tem na Livraria. Não especifica os Reis, mas diz quatro... "Aos ombros de quatro Reis e com acompanhamento de muitos Condes." Mas o nosso José Videira declarou que não podia meter os condes por causa da rima.

O Fidalgo ria, dependurando num cabide, ao fundo da escada, o chapéu de palha com que descera:

- Por causa da rima, pobres condes... Mas o fado está lindo. Eu trago uma cópia para a Gracinha cantar ao piano... E agora outra coisa, Padre Soeiro. O que se conta por aí do Governador Civil, desse Sr. André Cavaleiro?...

O capelão encolheu os ombros, desdobrando cautelosamente o seu vasto lenço de quadrados vermelhos:

- Eu, como V. Exa. sabe, não entendo de Política. Depois também não freqüento os cafés, ossítios onde se questiona Política... Mas parece que gostam.

No corredor um escudeiro gordo, de opulentas suíças ruivas, que Gonçalo não conhecia, badalou a sineta do almoço. Gonçalo reparou, avisou o homem que a Sra. D. Maria da Graça andava para o fundo do jardim...

- Entrou agora, Sr. D. Gonçalo! - acudiu o escudeiro. - E até manda perguntar se V. Exa. desejapara o almoço vinho verde de Amarante, de Vidainhos.

Sim, com certeza, vinho de Vidainhos. Depois sorrindo:

- Oh Padre Soeiro, previna este escudeiro novo que eu não tenho Dom. Sou simplesmente Gonçalo, graças a Deus!

O capelão murmurou que todavia, em documentos da Primeira Dinastia, apareciam Ramires com Dom. E, como Gonçalo parara diante do reposteiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas escrupulosas, reverentes cerimônias, para o Fidalgo passar.

- Então, Padre Soeiro, por quem é!

Mas ele, com apegado respeito:

- Depois de V. Exa., meu senhor...

Gonçalo afastou o reposteiro, empurrou docemente o capelão:

- Padre Soeiro, já nos documentos da Primeira Dinastia se estabeleceu que os Santos nuncaandam atrás dos Pecadores!

- V. Exa. manda, e sempre com que graça!

Depois dos anos de Gracinha, uma tarde, pelas três horas, Gonçalo, recolhendo com Padre Soeiro duma visita à Biblioteca do Paço do Bispo, sentiu logo da antecâmara o vozeirão do Titó, que rolava na sala azul em trovão lento. Franziu vivamente o reposteiro - e sacudiu o punho para o imenso homem que enchia um dos cadeirões dourados, estirando por sobre as flores do tapete umas botas novas de grossas tachas reluzentes:

- Oh infame!... Então noutro dia assim me larga, sem escrúpulo, depois de eu lhe preparar umcabrito estupendo, assado num espeto de cerejeira? E para quê?... Para uma orgia reles, com bolinhos de bacalhau e bichinhas de rabear!

Titó não desmanchou a sua conchegada beatitude:

- Impossibilíssimo. De tarde encontrei o João Gouveia no Chafariz. E só então nos lembramosde que eram os anos da D. Casimira. Dia sagrado!

Aquelas ceias de Vila-Clara, as tresnoitadas "pândegas" com violão, impressionavam sempre Barrolo, que as apetecia. E com o olho aguçado, do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente pacotes de tabaco dentro de uma terrina do Japão:

- Quem é a D. Casimira? Vocês em Vila-Clara descobrem uns tipos... Conta lá!

- Um monstro! - declarou Gonçalo. Uma matronaça bojuda como uma pipa, com um pêlonojento no queixo. Vive ao pé do Cemitério, num cacifro que tresanda a petróleo, onde este senhor e as autoridades vão jogar o quino, e derriçar com umas sirigaitas de casabeque vermelho e de farripas... Nem se pode decentemente contar diante do Sr. Padre Soeiro!

O capelão, que sem rumor se esbatera numa sombra discreta, entre os franjados cetins duma cortina e um pesado contador da Índia, moveu os ombros num consentimento risonho, como acostumado a todas as fealdades do Pecado. E, com pachorra, o Titó emendava o esboço burlesco do Fidalgo:

- A D. Casimira é gorda, mas muito asseada. Até me pediu para eu lhe comprar hoje, na cidade,uma bacia nova de assento. A casa não cheira a petróleo e fica por trás do convento de Santa Teresa. As sirigaitas são simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres que gostam de rir e de troçar... E o Sr. Padre Soeiro podia, sem medo...

- Bem, bem! - atalhou Gonçalo. - Gente deliciosa! Deixemos a D. Casimira, que tem bacia novapara os seus semicúpios... Vamos à outra infâmia do Sr. Antônio Vilalobos!

Mas Barrolo insistia, curioso:

- Não, não, conta lá, Titó... Noite de anos, patuscada rija, hem?

- Ceia pacata - contou o Titó com a seriedade que lhe merecia a festa das suas amigas. - A D.Casimira tinha uma bela frangalhada com ervilhas. O João Gouveia trouxe do Gago uma travessa de bolos de bacalhau que calharam... Depois, fogo de vistas na horta. O Videirinha tocou, as pequenas cantaram... Não se passou mal.

Gonçalo esperava - irresistivelmente interessado pela ceia das Casimiras:

- Acabou, bem?... Agora a outra infâmia, mais grave! Então o Sr. Antônio Vilalobos é íntimo doSanches Lucena, freqüenta todas as semanas a Feitosa, toma chá e torradas com a bela D.

(continua...)

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