Por Camilo Castelo Branco (1862)
Acabo de demonstrar que é débil, se não impossível, armar romance com as meninas do Porto. Pode ser que este aranzel de coisas nunca faça gemer os prelos do meu país; porém, quem me diz a mim que eu não tenha o póstumo regalo de ser impresso e lido? Nesta hipótese, com que a vaidade se incha, quisera eu vestir a nudez dos meus contos, enfeitá-los com as jóias do estilo, que dão realce aos assuntos frívolos, e recompor mais literalmente com embelecos de imaginação as securas da verdade, dura de engolir neste tempo, se o engenho não a arrebica de pechisbeques e desvarios da natureza.
A viúva, bem aproveitada, podia dar alguns capítulos. Tolice tinha ela de mais saciar o espírito público, sempre faminto de ver em letra redonda as tolices próprias às costas alheias. Se eu tivesse sido mais moderado na minha linguagem, a criatura dava um livro; mas a minha razão, inconciliável com as parvoiçadas da milionária, saiu com aquela pergunta do caldo de repolho, mais para castigar os seus admiradores que para chasquear a tola. Bem pode ser que esta senhora, se fosse pobre, tivesse o siso comum, que o dinheiro produz milagres de variados feitios: a certas pessoas pule-as, espiritualiza-as, dá-lhes estilo sentencioso e inspiração para falarem de tudo com público aplauso; a outras pessoas despoetiza-as, materializa-as e embrutece-as. Conheço exemplos de tudo, e o leitor também.
A viúva, segundo me consta, antes de casar, era uma menina como são todas as meninas. Tinha os seus namoros, a quem respondia com bonita letra, e pensamentos, se não engenhosos, pudibundos. Casou com u riquíssimo velho por escolha de seus pais e condescendência sua. Fez as delícias do esposo, e as próprias, comendo e dormindo para ter sempre as faculdades do coração em torpor. Enviuvou ao sétimo ano de casada, quando de sua primeira natureza já não tinha vislumbres. Soube então que era riquíssima e requerida pelos homens notáveis da terra, e continuou a comer e a dormir. Porém, como os pés lhe inchassem por falta de exercício, e os médicos a mandassem passear e agitar-se, a viúva apareceu de repente nos passeios, nos bailes e nos teatros, onde adormecia do segundo acto em diante. Dispararam-lhe à queima-roupa as mais incendiárias declarações, e ela ouviu-as a dormir, enquanto a não incomodaram. Depois, como a pusessem em cerco e não a deixassem tomar fôlego, a mulher despegou em despropósitos e rusticárias, que a tornaram mais amável aos concorrentes. Aqui está o que era a viúva.
Assestei o fito à terceira, à menina que tinha aspecto de serafim de tribuna de igreja. Disseram-me logo que o Dr. Anselmo Sanches a requestava traiçoeiramente. Ora, o Dr. Anselmo Sanches era um homem honesto.
Convém saber que em toda a parte do mundo sublunar a honestidade soa como hipocrisia velhaca.
O homem honesto dali é o que logra embair a opinião pública; recatar a impudência com o exterior sisudo da catadura; acentuar a expressão no tom sentencioso do preceito; contar com a mobilidade do globo visual para o revirar ao céu, quando o ânimo afecta confrangir-se com a notícia dum escândalo; franzir os beiços e avincar a testa, se é forçoso chancelar com voto cominativo a pena de alguma imoralidade a retalho.
Conheci alguns homens honestos no Porto. Custou-me muito. Venci, para vê-los ao pé, estorvos desanimadores. Fez-me mister iniciar-me nos arcanos da desonestidade para entrar no segredo de certas existências que, dantes, me pareciam bem fadadas da virtude, ou dotadas de compleição refractária ao vício. Quando me avistei com eles na mesma zona, senti-me corrompido, escorria-me do coração o pus tábido das chagas; dei como impossível o regenerar-me diante do meu próprio senso íntimo; estava ou devia estar perdido, porque julguei necessária à vida a hipocrisia cínica.
É que, sem ter descido as escaleiras todas da protérvia e do opróbrio, não se devassa o latíbulo em que se encovam os homens honestos.
A corrupção periódica das almas, empestadas pelo exemplo, ou impelidas pelo instinto, não tem que ver com a corrupção por grosso, que o acaso ou o ardil vos depara no secreto viver dessa cabilda de beduínos, salteadores da honra alheia, e nojentíssimos farsistas da sua .
O mundo é péssimo; há, porém, providência nesta péssima organização.
A hora certa, dentre as flores da vida, cultivadas por mão ilesa de espinhos, salta a víbora, que a morde.
Não há felicidade completa para a verdadeira honra: menos a haverá para a falsa.
A virtude, conquanto escudada por si própria, é vulnerável, porque se dói aos golpes da injustiça.
Ora, a hipocrisia, estribada na manha e na fraudulência, há-de, em desaire da justiça de Deus, rebater os tiros da indignação? É impossível. Embora o látego não fira uma fibra sensível nas espáduas do fariseu abroquelado pela impostura; embora a sátira recue espavorida dessas almas impermeáveis à vergonha, é preciso que se escreva um livro, ou se delineiem os traços desse livro, o único, o urgente, o possível, o capitalíssimo para o Porto.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.