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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

- Depois, quando V. Exª esteve em Ruivães uma temporada, e Teodora saia para aqueles lados, já todo o bicho-careta dizia que o adultério estava provado por todos os artigos do código e por mais alguns que esqueceram aos corpos legisladores-Aqui deu o representante de Braga uma segunda risada, expressiva de agudeza muito mais faceta.

Afonso sorriu-se e deixou-o esvaziar a pojadura da verbosidade chula.

- Não se fala por lá demais ninguém que eu saiba-tornou o deputado. -Mas o marido!, aquele palerma, que não lhe vai à mão, e a deixa andar em filistrias de cavalo e lacaio, faz-me pena, sinceramente lho digo, porque houve alguém que me afirmou que a mulher, quando está fechada na livraria, não o admite à sua presença, e até me disseram que ela passa toda a noite a consultar os seus livros! Logo: aquele marido está numa posição critica, matrimonialmente falando. Parece-lhe isso, Sr. Afonso? Aqui expediu o sujeito terceira risada, que tinha ideia oculta a meu ver, inconciliável com o comedimento desejável numa pessoa grave... de mais a mais deputado a cortes!

- Como está ela? - perguntou Afonso. - Ainda é bonita?

- Agora é que ela está completa. Encheu muito de ombros, e tudo à proporção.

Está muito alta, e esbelta, que parece uma inglesa. E o garbo com que ela sacode um cavalo... V. Exª está a mangar comigo? -perguntou de súbito o deputado, após um instante de reflexivo silêncio.

- Se estou a mangar com V. Exª?! Que pergunta!

- Sim! pois o Sr. Afonso vem-me perguntar a mim se ela está bonita?! Quem sabe melhor que V. Exª como ela está?!... Ora, meu amigo, vá contar essas histórias aos da Lourinhã. Cá para mim vem barrado!

- Dou-lhe palavra de honra - redarguiu Afonso - que a minha pergunta foi sincera. Eu vi Teodora; mas tão de relance que não pude reparar-lhe nas feições.

- A sua palavra de honra tem para mim o peso de um Evangelho – tornou gravemente o cavalheiro de Braga. - Pois, senhor, o mundo está enganado. A voz geral dá V. Exª como amante de Teodora. Eu não me atrevia a dizer-lho tanto às escáncaras; porém, chegadas as coisas a este ponto, fique sabendo que ninguém acredita na sua inocência, excepto o Eleutério, que é muito bom homem.

E escusado dizer que o indivíduo riu de novo, esfregou as mãos e exclamou abruptamente aguilhoado pelo instinto oratório:

- Ainda há quem case! Ainda há vítimas que espontaneamente se ofereçam no altar das mulheres! Chegamos a um tempo em que ninguém pode sinceramente dizer que conhece seu pai. Os assentos dos baptismos estão todos falsificados. Os mandamentos da lei de Deus, o nono sobre todos, vai ser tirado do catecismo. Vem aí um tempo em que o artigo da lei santa há-de ser assim reformado: "Não desejarás a tua mulher para não incomodar os direitos do próximo!" Onde irá isto assim parar, Sr. Afonso de Teive?

O deputado, entre sério e risonho, prolongou por três quartos de hora, em estilo declamativo, um aranzel de lugares-comuns, entreamado de pilhérias, com referência à degeneração da sociedade, no capítulo casamento. Afonso achava picante de grosso sal a iracúndia cómica do legislador, e estimulava-lhe a veia. Afinal o deputado, contente.

de si, foi para S. Bento, mais que muito persuadido de ser ele o predestinado para

levantar voz no Parlamento decretando a moralização das famílias.

Afonso ficou pensativo. As revelações lisonjeavam-no. O odioso do carácter de Teodora desvaneceu-lhe a impressão já majestosa, já condolente, do viver da morgada.

"Uma sublime desgraçada!", dizia ele consigo. "Uma sublime desgraçada, que, ligada a mim, seria a mais sublime das criaturas!"

E trabalhado por esta ideia, que pertinazmente lhe martelou no ânimo, Afonso de Teive arrependeu-se de ter queimado a carta recebida na manhã daquele dia. Queria relê-la, metê-la a beijos na retentiva do coração!

À noite foi ao teatro, e entreteve-se largo tempo com D. José de Noronha. Versou a prática sobre o aceitar benignamente os acometimentos de Teodora. D. José mostrava-se já enfastiado da imbecilidade moral do seu amigo, e, portanto, lhe pedia que de todo em todo esquecesse a mulher, se portasse como rapaz de cena ordem; ou obedecesse ao coração, aceitando a felicidade das mãos fosse de quem fosse.

Nesta mesma noite, o moço, vencido afinal pela irresistível necessidade de ser semelhante a todos os homens, escreveu uma estirada carta. Principiava nas recordações da infância de ambos: devia de ser alta e amorável poesia, como o coração a trasborda, se de um ponto negro da vida os olhos rompem as trevas, e vão lá ao longe remergulhar-se no pélago da luz, que mais não há-de raiar em nossos dias. Tristeza mais que todas magoativa!

(continua...)

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