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#Romances#Literatura Brasileira

Ressurreição

Por Machado de Assis (1872)

Adiantaram-se os preparativos do casamento. Lívia pediu ao médico a supressão de todo aparato, para não ferir o coração de Raquel, pensava ela. A publicidade seria apenas a necessária. Não contava com o irmão, que se encarregou de dar ao consórcio proporções de acontecimento.

A noticia foi referida por ele na Rua do Ouvidor, esquina da Rua Direita. Daí a dez minutos chegara à Rua da Quitanda. Tão depressa correu que um quarto de hora depois era assunto de conversa na esquina da Rua dos Ourives. Uma hora bastou para percorrer toda a extensão da nossa principal via pública. Dali espalhou-se em toda a cidade.

Foi geral o espanto. Ninguém acreditava que Félix se determinasse ao casamento. Falava-se, é verdade, no namoro; mas, além de ser boato sem importância nem generalidade, alguns não atribuíam ao médico mais do que a intenção de um passatempo, ao passo que outros davam às relações entre ele e a viúva um caráter absolutamente íntimo, sem nenhuma aspiração de legalidade.

A convicção entrou enfim no espírito público. Moreirinha atribuía o caso a um desconcerto cerebral do médico. O Dr. Luís Batista não deu opinião; parecia-lhe indiferente o casamento da viúva.

Raquel recebeu a notícia sem admiração, mas com mágoa. Esperanças não as tinha já; o mal que nos não espanta não nos dói contudo menos por isso. Quem lhe deu a notícia foi Meneses, que a recebeu com filosófica resignação. O amor deste tinha-se convertido numa espécie de adoração religiosa. Achava na mulher amada todas as qualidades que podiam seduzir um homem como ele. Havia, além disso, aquele vínculo simpático de duas criaturas que viviam mais da imaginação que da vida prática. A recusa de Lívia não rompera, transformara as cadeias que o prendiam a ela.

Não acontecia o mesmo a Raquel, e esta circunstancia não escapou ao rapaz, que habilmente a interrogou, e adivinhou tudo. Meneses sacudiu lentamente a cabeça, mas não lhe disse palavra. Apenas pensou consigo que, se o acaso ou a providência houvesse disposto as cousas de outro modo, ambos eles podiam ser felizes.

Meneses repeliu a idéia de fazer confidências à filha do coronel; tanto, porém, lhe falou da viúva, que a outra alguma coisa desconfiou Sabedores, enfim, do que padeciam interiormente, a comum desventura os vinculou de algum modo. Como as relações eram antes corteses que familiares nenhum deles falou com a efusão que lhes pedia o sentimento; adivinharam-se, o que era muito, e apiedavam-se um do outro, o que era quase tudo.

CAPÍTULO XIX / A PORTA DO CÉU

Dous DIAS Antes do casamento, Lívia foi jantar à casa do coronel, a convite deste que reunira algumas pessoas de amizade. Félix não compareceu, apesar de instantemente chamado cedera a um sentimento de delicadeza, não querendo mortificar com a sua presença a filho do coronel, nem perturbar de algum modo o espírito da viúva.

A primeira idéia de Lívia foi não aceder ao convite, a fim de não afrontar a dor de Raquel. Instaram tanto os pais da moça que lhe foi impossível recusar.

As duas moças encararam-se comovidas; a diferença era que Raquel pôde ocultar melhor o seu abalo do que a viúva. Essa vitória da donzela sobre si mesma fez redobrar a admiração da rival. Entendeu-lhe a delicada intenção, e agradeceu-lha na primeira ocasião que se lhe deparou.

— Sei tudo, acrescentou Lívia; sei da tua carta, que foi a chave com que de novo se me abriram as portas da fortuna. Eu não sei se poderia ser tão heróica como tu. Separa-nos o destino; deixa-me beijar-te as mãos.

O gesto acompanhou estas palavras: Raquel recusou ceder ao desejo da viúva.

— Seja feliz! murmurou ela.

Tais foram as últimas palavras que houve entre ambas. Quando a viúva saiu trocaram um beijo, a que não se podiam recusar, e que da parte de Raquel foi muito menos espontâneo que da outra. Lívia o sentiu e sinceramente lho perdoou. Ao entrar no carro, com o irmão, a viúva ia desconsolada e triste. Seu coração sabia amar, e a idéia de que a sua felicidade custaria lágrimas a alguém fundamente lhe doía. "Por que razão, pensava ela, me há de lançar a Providência esta gota amarga na taça das minhas delícias? Se eu ao menos o ignorasse... a minha felicidade não seria travada de remorsos... Felicidade? continuou ela dirigindo o pensamento a uma nova ordem de idéias; será deveras felicidade? O sonho, tantas vezes dissipado, realizar-se-á, enfim?... Há quase um ano que eu pus toda a minha existência nesta vaga probabilidade; está próximo o termo, não sei que sorte avessa me repele para longe. Não a mereço talvez, ou então ambiciono demais... Chamam-me bela, devia talvez contentar-me com ser admirada..."

(continua...)

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