Por Lima Barreto (1921)
O Teixeira Soares fala; o elegante Carlos Sampaio, que, de professor de Perspectiva e Sombras, passou a ser sabido no Renleaux da Mecánica Aplicada, deita um discurso com ares literários; o Galvão, um soneto bem idiota e o hebreu recebe a concessão e eles... nada.
Conheço bem esse pessoal de engenheiros. Eles são completamente indignos de semelhante titulo. São puros niveladores e levantadores de plantas – agrimensores.
O primeiro cuidado que têm os hábeis, é se fazerem antes da Escola Politécnica, disto ou daquilo. Há lá lugares para todos os gostos e a questão é escolher. Depois de lentes, com o prestígio que lhes dá a posição oficial, se mancomunam com a judiaria internacional e ei-los cheios de brilho, de dinheiro e de valor.
Um professor de Química Industrial, é logo feito diretor de banco e erra bravamente na comparação e frações ordinárias, quando se trata de saber se o cambio deve ficar mais baixo ou mais alto. Posso citar o nome...
Um outro de Zootecnia é feito presidente da companhia de obras de um porto de Mar de Espanha, e logo que vê um escafandro, assusta-se.
Mas eles todos, graças à Cabala crematística do clube, vão adquirindo fortuna, posições, sem que entendam nada daquilo que dirigem ou fingem presidir.
O clube, como todos os clubes, foi feito para isto; e não há idiota que se forme em engenharia e disponha de algum dinheiro que não entre para ele imediatamente.
A nossa época não é das grandes e fortes iniciativas individuais; a nossa época é das associações, dos clubes, dos títulos, das subscrições entre medíocres para se valorizarem.
Ninguém quer se fazer por si, ninguém quer se bater em pessoa; todos querem um ... Clube de Engenharia.
Se pudessem saber o mal que semelhante associação tem feito ao Brasil; se soubessem de quantos crimes de lesa-comunhão ela é responsável, todos iriam à porta daquele casarão e correriam aqueles velhos gamenhos à batata. Basta dizer que foi ela quem aconselhou o Governo a encampar a antiga “Melhoramentos”, hoje “Auxiliar”, por não sei quantos mil contos, sob o pretexto de que ia fazer concorrência à Central.
Há anos que ela é a Central; e, apesar de estarem sob a mesma direção, uma não auxilia em nada à outra. Não podia, portanto, fazer concorrência...
A “Central” continua a ser a Central; e a antiga “Melhoramentos”, uma estradinha muito vagabunda. Era-o mais quando o governo a encampou e há a esse respeito uma reportagem excelente, no Jornal do Comércio, que o senhor Frontin foi obrigado a contestar. Tenho as duas coisas.
Possuo no Clube de Engenharia, amigos; mas, sempre hei de protestar contra essa mania de clubes, de academias e associações, de inteligência. As opiniões sobre toda a matéria intelectual, não podem ser coletivas. A opinião é individual. É por isso que escrevo isto. E quando aqueles velhos gamenhos da porta do Clube de Engenharia, dessa engenharia de que eles fazem parte e com a qual conseguiram fazer desabar-lhes o edifício duas ou mais vezes, lerem isto e rirem-se, eu lhes direi que: Rira mieux qui rira le dernier.
N.B. – O autor atende todas as respostas.
Brás Cubas, Rio, 11-7-1918.
SOBRE O FOOTBALL
Nunca foi do meu gosto o que chamam sport, esporte ou desporto; mas quando passo longos dias em casa, dá-me na cisma, devido, certamente à reclusão a que me imponho voluntariamente, ler as notícias esportivas, pois leio os jornais de cabo a rabo.
Nestes últimos dias, todas as notícias sobre um encontro entre jogadores de football daqui e de São Paulo, não me escaparam. Em começo, quando toparam meus olhos com os títulos espalhafatosos, sorri de mim para mim, pensando: estes meninos fazem tanto barulho por tão pouca coisa? Much ado about nothing... Mas, logo ao começo da leitura tive o espanto de dar com este solene período:
“As acusações levantadas, então, por certa parte da imprensa paulista – manifestações que estamos já agora dispostos a esquecer, mas que não podemos deixar de rememorar – contra a competência e a honestidade do árbitro que serviu naquela partida, atribuindo à obra sua a vitória alcançada por nós, preparou o espírito popular na ânsia de uma prova provada de que, com este ou aquele juiz, os jogadores cariocas estão à altura dos seus valorosos êmulos paulistas e são capazes de vencê-los.”
Diabo! A coisa é assim tão séria? Pois um puro divertimento é capaz de inspirar um período tão gravemente apaixonado a um escritor?
Eu sabia, entretanto, pela leitura de Jules Huret, que o famoso match anual entre as universidades de Harvard e Yale, nos Estados Unidos, é uma verdadeira batalha, em que não faltam, no séquito das duas equipes, médicos e ambulâncias, tendo havido, por vezes, mortos, e, sempre, feridos. Sabia, porém, por sua vez, o que é o ginásio da primeira, verdadeiro sanatório de torturas físicas; que o jogo de lá é diferente do usado aqui, mais brutal, por exigir o temperamento já de si brutal do americano em divertimentos ainda mais brutais do que eles são. Mas nós?...
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.