Por Machado de Assis (1876)
Estácio levantou-se ao amanhecer. Uma vez pronto, quis surpreender a tia e a irmã com uma lembrança sua, e escreveu numa folha de papel estas simples palavras: “Até à volta; 6 horas da manhã.” Dobrou-a e foi pô-la sobre a mesa de costura de D. Úrsula. Dali passou à sala de jantar, depois à varanda. Aqui chegando, deu com os olhos em Helena, que o esperava ao pé da escada.
Silêncio! disse graciosamente a moça. Não faça espantos, que pode acordar titia.
Vim saber se você precisa de alguma coisa.
De nada, respondeu Estácio comovido. Mas que imprudência foi essa de se levantar tão cedo?
Cedo! O sol não tarda a cumprimentar-nos. Adeus! muitas recomendações a Eugênia. Não lhe falta nada, não é assim?
Nada.
Estácio recebeu a mão que Helena lhe estendera e ficou a olhar para ela.
Olhe que é tarde!
Dizendo isto, Helena apertou-lhe a mão e procurou retirar a sua; Estácio reteve-a.
Se soubesses como me custa ir!
São apenas alguns dias...
Valem por meses, Helena! Adeus, não te esqueças de mim. Escreve-me; eu escreverei logo que chegar. Não faças imprudências; não saias a passeio enquanto eu estiver ausente.
Adeus!
Adeus!
Estácio quis dar-lhe o abraço da despedida; mas a moça, menos ainda com a palavra que com o gesto, fê-lo recuar.
Não, disse ela afastando-se; as despedidas mais longas são as mais difíceis de suportar.
Recuou até à porta da sala de jantar, fez um gesto de despedida e entrou. Estácio desceu a custo as escadas. Helena viu-o descer e sair; depois subiu cautelosamente ao seu aposento. Ali sentou-se alguns minutos, pensativa e triste. Ergueu-se enfim, vestiu rapidamente as roupas de montar; colocou o chapelinho preto sobre os cabelos penteados à ligeira, e desceu. Na chácara esperava-a Vicente, com a égua ajaezada e pronta. Helena mon- tou sem demora; o pajem cavalgou uma das duas mulas que havia na cavalariça e os dois saíram a trote na direção da casa do alpendre e da bandeira azul.
A casa estava ainda silenciosa; porta e janelas conservavam-se hermeticamente fechadas. Helena apeou-se e bateu de mansinho; repetiu as pancadas progressivamente mais fortes. Ninguém lhe respondeu. Helena impaciente rodeou a casa; mas, parece que achou igualmente fechadas as portas do fundo, porque volveu logo. Colou o ouvido à porta e esperou. Quando lhe pareceu que era baldado o esforço, tirou da algibeira um lápis e um pedacinho de papel; colocou o pé no degrau de tijolo e sobre o joelho escreveu algumas palavras; dobrou depois o papel e introduziu-o por baixo da porta. Esperou ainda alguns minutos, caminhou para a égua, montou e regressou à casa.
Vinha triste e pensativa. A égua, a passo vagaroso, não sentia o esforço da cavaleira, que a deixava ir, frouxa a rédea, inútil o chicote. O pajem levava os olhos na moça com um ar de adoração visível; mas, ao mesmo tempo, com a liberdade que dá a confiança e a cumplicidade fumava um grosso charuto havanês, tirado às caixas do senhor.
D. Úrsula não estava ainda levantada; Helena não lhe ocultou o passeio. O dia correu triste e solitário, como os seguintes, sem embargo da companhia que iam fazer às duas senhoras as pessoas mais íntimas. Mendonça, a quem Estácio as recomendara, era ali pontual; conseguia disfarçar um pouco as saudades do moço ausente. O Padre Melchior prolongava visitas cotidianas. O mesmo sentimento ligava a todas as pessoas.
O mesmo era, e não único, porque outro e mais egoísta e pessoal veio ali viçar também. Mendonça sentiu que metade de seu destino estava acabado, e que a outra metade ia começar, mais circunspecta que a primeira. O relógio em que ele viu bater essa hora fatídica, foram os olhos de Helena. Mendonça começava a amar. Estouvado, e não corrupto, atravessara o delírio dos primeiros anos sem perder a flor dos castos afetos, sem sequer a haver colhido. Helena sentiu nascer e crescer essa adoração silenciosa, sem parecer que a descobrira. Não animou o mancebo nem o repeliu; redobrou de confiança, dessa confiança que só se dá aos simples familiares, e que mostra claramente a um namorado a inanidade de suas esperanças. Ao parecer de estranhos, a situação afigurava-se de perfeita concórdia. O coronel-major piscou um dia os olhos ao Dr. Matos; o Dr. Matos proferiu um latet anguis in herba6 — e ambos foram repartir o pão das conjeturas com a esposa do advogado, senhora muito perspicaz nos namoros de salão. A opinião dos três é que o casamento era coisa provável, e talvez certa. Um só obstáculo podia haver; eram os escrúpulos do pai de Mendonça. Esse mesmo obstáculo não existia, porquanto, além das qualidades estimáveis da moça, havia o reconhecimento legal e social, público e doméstico; acrescendo (observação do Dr. Matos) que duzentas e tantas apólices mereciam um cumprimento de chapéu e não davam lugar a cinco minutos de reflexão.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.