Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
De súbito, e como de plano, mas sem que o tivessem consertado, pronunciou-se, de 1821 a 1822, a hégira das modistas francesas para a Rua do Ouvidor. Quem foi a primeira a ir tomar ali seu posto?... Não sei ao certo; creio, porém, que foi Mlle Joséphine, de quem me ocuparei oportunamente.
O fato é que no fim de três ou quatro anos quem queria entender-se com alguma modista francesa ia à Rua do Ouvidor; que entrou em sua época de florescimento, de encantamento, de espavento e de esbanjamento, marcada pela hégira, como a era de Maomé, o inventor das houris e do paraíso endemoninhado por todas as tentações imagináveis.
Que razão levou as modistas francesas a desertar, a fugir (hégira) da Rua Direita, então a principal e mais rica do comércio, e da dos Ourives, nesse tempo e ainda muitos anos além toda de prata, de ouro, de esmeraldas e de brilhantes, para a Rua do Ouvidor ainda relativamente obscura?...
Que o expliquem os sábios da escritura: eu não o sei, e apenas tenho para mim que foi mesmo predestinação.
E após as modistas, à sombra das francesas vieram quase logo franceses abrir, na mesma Rua do Ouvidor; lojas de fazendas e de objetos de modas, para senhoras e homens, de perfumarias, de cabeleireiros, etc.
Fato curioso, observação positiva, e que faz vontade de rir: os negociantes portugueses que havia na Rua do Ouvidor não se incomodavam com a invasão francesa; os ingleses, porém (aliás muito poucos), foram desertando, de modo que, no fim de seis anos, a poderosa Albion não teve mais ali um único representante.
Asseveram que o antagonismo internacional fora a causa principal da retirada dos ingleses.
Falando-me sobre esta pelo menos aparente ou suspeitosa repugnância inglesa à vizinhança dos franceses, um amigo, crônica viva daqueles tempos, contou-me o seguinte caso, que eu não dou por averiguado, e que somente reproduzo para mitigar a monotonia deste capítulo.
Diz o meu informante que o primeiro súdito de S. M. Britânica que se mudou ou fugiu da Rua do Ouvidor fora um negociante que ali tinha loja ou depósito de calçado exclusivamente inglês.
O verdadeiro nome deste homem não ficou lembrado. Chama-lo-ei Williams.
Mr. (mister) Williams já qüinquagenário era alto, magro, ossudo, de rosto branco e um pouco pálido, de cabelos ruivos usados muito curtos, e de barba sempre diária, total e perfeitamente feita: e, o que mais importa, era honrado, muito grave, celibatário, de costumes severos, inglês antifrancês até à medula dos ossos, e original.
Desde que se pronunciou a invasão francesa, Williams fez sentir aos patrícios o seu aborrecimento àquela gente vil e insolente; vil, porque comia mais verduras do que batatas, e insolente, porque multiplicava em suas lojas retratos e bustos de Napoleão, sem apresentar um só busto, nem um só retrato do Duque de Wellington.
A zanga britânica de Williams aumentou com o estabelecimento de uma loja de modista francesa defronte da sua, causando-lhe, sobretudo, horripilações e revoltas do ânimo honestíssimo Mlle Lucy, jovem parisiense e costureira da loja, de procedimento leviano, travesso, e provocador de namoradas liberdades.
Williams detestava Mlle Lucy, e Mlle Lucy, que o percebeu, vingava-se, sorrindo marotinha para ele, de cada vez que podia encontrar-lhe os olhos.
E era certo um sobrolho cerrado, ou algum gesto de reprovação e de desprezo, em resposta ao sorriso da jovem costureira, a quem isso mesmo divertia.
Um dia entrou na loja de calçado um homem de sério exterior, e disse a Williams com o mais simples e inocente modo:
- Monsieur; quero escolher sapatos.
Eram de uso os sapatos abotinados ingleses; mas o irrefletido comprador, entrando em loja de rua já afrancesada, tratara Williams por monsieur.
Williams impertigou-se e respondeu de mau modo:
- Monsieur é tratamento de francês; eu ser inglês, que se trata mister; tu vem enganada... sapato francês não entra nesta casa. Vai adiante.
E voltou as costas ao homem que viera comprar calçado e saiu ressentido da injusta descalçadeira.
Infelizmente para Williams, Mlle Lucy, que então passava, observou a cena, e em parte por vingança de francesa, em parte por gosto de zombaria, determinou atormentar o inglês.
E logo no mesmo dia e nos cinco ou seis seguintes Mlle Lucy, sempre que sala da loja onde trabalhava ou para ela vinha, passava pela frente da loja do inglês, e dizia alto com sua voz argentina, e sorrindo com agrado malicioso:
- Bon jour, Mr. Williams!
- Bon soir, Mr. Williams!
E isso, mas só isso repetidas vezes em cada dia.
Williams encolerizava-se; franzia as sobrancelhas; mas, grave inglês que era, não podendo maltratar com palavras uma mulher, não respondia nunca à jovem costureira francesa.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.