Por Gregório de Matos (1696)
Chega à casa o beberrica,
e com a espada se amaina,
lança mão da tarantaina,
para espeto cousa rica:
estava em casa Joanica,
e vendo-o isto fazer
lhe diz, tu podes morrer,
meu bem, com essa ferida,
e sem ti, que és minha vida,
como poderei viver?
Porém Pedro resoluto
não ouviu rogos de Joana,
porque com raiva inumana
saiu como um forte bruto:
o Sansão como era astuto,
foi-se sem ver o tal Cão,
e Pedro como asneirão
o que quer põe-se a dizer,
que um Sansão era em poder,
Pedro no ralho um Sansão.
O Adônis como temia,
se pôs de largo a escutar,
e se vamos a falar,
do canto fez a vigia:
e sem saber quem seria,
se ocultou, e claro é,
que não chegava, porque
o tal vulto ali estava,
e de muito não fiava
o primor do seu Guiné.
A Vênus, que da janela
tinha tudo bem notado
chorava o seu desgraçado
por largar aos pés a vela:
com pesares se arrepela
chora, geme, e se entristece,
e quanto mais se enfraquece
com dores pelo galante,
então deveras amante
com acidentes fenece.
Mas ao depois conhecendo
o Adônis o seu Guiné
em fé, que Sansão não é,
chega-se a ele, dizendo:
meu amigo, estou tremendo,
de Sansão estou ferido
de forças enfraquecido,
pois escapei-lhe fugindo,
e inda agora estou sentindo
daqui o ficar despido.
Careci de língua, e voz
para o caso referir,
que sendo digno de rir,
foi caso tremendo, e atroz:
porém peço, que entre nós
este sucesso feneça,
pois não quero se entristeça
a Dama com tais abalos
pois fizeram três cavalos
o seu jogo de trapeça.
COM CACHOPINHA DE GOSTO.
MOTE
As excelências do cono
é ser bem grande, e papudo
apertado, bordas grossas,
chupão, enxuto, e carnudo.
Com cachopinha de gosto
em cama de bom colchão,
nos peitinhos posta a mão,
e o pé no fincapé posto:
ajuntar rosto com rosto,
dormir um homem seu sono,
acordar, calcar-lhe o mono
já quase ao gorgolejar,
então é o ponderar
As excelências do cono.
Eu na minha opinião,
segundo o meu parecer,
digo, que não há foder,
senão cono de enchemão:
porque um homem com Sezão,
inda sendo caralhudo,
meterá culhões, e tudo,
e assim mostra a experiência,
que do cono a excelência
É ser bem grande, e papudo.
É também conveniente,
que não tenha o parrameiro
a nota de ser traseiro,
e que seja um tanto quente:
que às vezes mui facilmente
são tais as misérias nossas,
que havemos mister as moças
para regalo da pica
com cono de pouca crica,
Apertado, bordas grossas.
Mas a maior regalia,
que no cono se há de achar,
para que possa levar
dos conos a primazia
(este ponto me esquecia)
para ser perfeito em tudo,
é nunca se achar barbudo,
por dar bom gosto ao foder,
como também deve ser
Chupão, enxuto, e carnudo.
A CERTO HOMEM QUE ESTANDO COM HUMA DAMA À NÃO DORMIO, POR VlR
HUMA LUZ NESSA OCCASIÃO FICANDOSE COM HUM ANEL DA MESMA DAMA.
Amigo, a quem não conheço,
inda que amigo vos chame,
pois no desar, com que amo,
a vós tanto me pareço:
bem alcanço, e reconheço,
qual é a força do destino,
mas se o desar mais mofino
estorva a luz da razão,
como a luz de um lampião
perdeis da ventura o tino.
Não duvido, que sejais
avechucho de Noruega,
se mostrais, que a luz vos cega,
perdendo, o que à luz buscais:
ave noturna cortais
a sombra mais denegrida,
e à luz, que é vossa homicida,
perdeis (estranho rigor)
emprego, dama e favor,
esperança, amor, e vida?
Que Madama, ou que Senhora
tendes tão pouco brilhante,
se vemos, que todo o amante
sua Dama é sua aurora?
eu cuidava, que na hora,
que um amante a Dama via,
nessa hora Ihe amanhecia;
e a vossa Dama chegou,
mas nem tocar-se deixou,
por falta da luz do dia.
É verdade, que a candeia
rompeu da noite o capuz,
mas dai-vos ao demo a luz,
que estorva, e não alumeia:
dai ao demo a luz, que ateia
para o dano vos urdir;
a luz sirva de luzir,
e não sirva de estorvar,
luza para alumiar,
e não para descobrir.
E se a luz o véu noturno
rompeu por vos dar na treta,
de Vênus não foi cometa,
foi influxo de Saturno:
se de um Planeta diurno
raio de luz campeara,
nem gostos vos estorvara,
em, quem éreis, descobrira,
mas a Moça se enxerira,
e algo mais se beliscara.
E seu dono, que aguardava,
qua vigia sempiterna,
não vira à luz da lenterna,
se ela vinha, ou se ficava:
e enquanto se apolegava
essa pêra mal madura,
assim pela noite escura
ficara a Moça sincera
derretida como cera,
batida como costura.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.