Por Eça de Queirós (1940)
Novidades literárias ou teatrais, zero. A Inglaterra intelectual ou dorme ou trabalha em silêncio. A costumada produção de novelas, sim, essa continua regular como a fabricação do pão, para manter vibrantes os nervos das misses e das ladies.
Notícias comerciais tristes: uma estagnação total dos negócios: uma pausa terrível na estrutura industrial.
Este Inverno vem carrancudo: que nos reserva ele? Por toda a parte inquietações, apreensões, necessidades...
Fez excelente efeito aqui a maneira inteligente e delicada por que Stanley, ao fim da sua épica viagem através de África, foi recebido pelos Portugueses. Tudo se passou com excelente gosto. Não era natural realmente que o recebessem à paulada; mas era de recear, com a indiferença nacional, que ele passasse despercebido ou que o incomodassem, pedindo-lhe o passaporte. Felizmente, a recepção foi digna e honrosa para nós. Ainda há portugueses em Portugal!
IX
Londres, 10 de Dezembro [de 1877]
É impossível começar uma correspondência – é quase impossível começar uma carta particular – sem falar da França. A questão do Oriente está no último plano: apenas a gente se lembra que há algures um país assolado pela guerra, milhares de homens que morrem, guarnições esfomeadas, generais heróicos, cidades tomadas, um czar impossível e um sultão absurdo! O que lembra é a França. Quais são as notícias de França, hoje? – é a pergunta inglesa de antes de almoço.
É da França que se ocupam os literatos políticos nos seus artigos de fundo, os caricaturistas nos seus desenhos, os sacerdotes nos seus sermões e os autores de cançonetas nas suas rimas. Falemos, pois, da França. E em primeiro lugar façamos justiça ao marechal Mac Mahon. Este excelente homem não é culpado em coisa alguma do que se passa, do que se tem passado em França desde 16 de Maio: velho, um pouco reumático, entendendo alguma coisa de soldados e muito de jardinagem, ocupando-se imensamente das suas rosas e dos seus lilases e quase nada do seu país, um pouco apertado de dívidas e cheio de um humor condescendente e amável – o presidente da República não é um carácter, é um cabide.
Um grupo intrigante, fanático, egoísta, glutão de poder imoral, ridículo – se não fosse trágico –, serve-se dele como de um aparelho de pau onde dependura decisões e as suas frases.
Este grupo, que se compõe de padres astutos, de devotos elegantes, de doutrinários de salão, de alguns caducos aristocratas de outras eras e de ajudantes-de-campo crivados de dívidas, cheios de galões e abundantes de facécias, este grupo tem uma ambição decente: possuir a França – para seu uso, em primeiro lugar, e um pouco para uso do papa também. Possuir a França, dispor do seu exército, das suas finanças, de tantos empregos a dar, representá-la diante do mundo, fazer as honras da casa por ocasião da Exposição, ocupar os seus palácios, tratar de mano a mano imperadores e rainhas, entrar na história, ainda que seja com uma chave falsa – é realmente, devemos confessá-lo, muito agradável. E o marechal Mac Mahon, ou antes, o grupo que o inspira e que lhe puxa os cordéis – tem realmente toda a razão em querer guardar aposta.
Somente há uma certa entidade que se opõe a esta amável combinação e que se chama a França republicana: é quase nada: são apenas dez milhões de eleitores. Esta entidade tem a loucura de querer que a França não pertença a um grupo equívoco de batinas, e de saias, mas que se pertença a si mesma. Esta entidade é portanto considerada – no Palácio do Eliseu – como perfeitamente plebeia, impertinente, grosseira e perigosa para os interesses dos bispos e das duquesas.
Que se há-de fazer portanto a esta entidade? Esmagá-la. Como? Dar-lhe um nome feio, chamar-lhe radical, atribuir-lhe intenções criminosas e usar por isso todos os meios de a repelir – pelas eleições ao princípio, pelos tiros depois. Tentou-se primeiro a eleição: a intriga falhou: a entidade temida, a França republicana, voltou mais ameaçadora e mais forte. Que resta portanto? Tentar o tiro. E vamos ter tiros, verão.
Aqui ninguém duvida que o marechal vai obter uma segunda dissolução; a câmara dos deputados é natural recusar-se a obedecer, e constitui-se em convenção: o marechal manda contra a câmara alguns regimentos: que fará então o povo? Que farão então os soldados?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.