Por Eça de Queirós (1912)
Subitamente a grande fila de mulheres largou numa correria, onde os cabelos se misturavam, as saias meio rotas se espedaçavam, clamando, uivando. desesperadamente:
Sempre que me vires
Em mim te remires,
Quando me não vires
Contra mim suspires.
Cada vez mais rápida girava a grande ronda, com pulos enormes, que atiravam as fraldas brancas pela cabeça, misturavam as grenhas, faziam entrechocar no ar as vassouras e rocas . Já de entre a turba, que olhava em volta, partiam grandes brados.
Aqui e além um braço erguia-se, sacudindo furiosamente uma tocha. Pulos furiosos mostravam uma saia esvoaçando no ar. Havia uivos de lobisomens. E entre as pernas de Cristóvão, aterrado, grandes figuras, como cães, fugiam com as mãos galopando na terra. Mas mais alta que todos os clamores, uma buzina de corno ressoou. Então houve um silêncio tão grande, que se sentia as folhas mover-se ao vento lento da noite.
De novo a grande velha estava diante da tripeça, agitando a sua grande vassoura. E, lentamente, baixo, numa súplica humilde, começou:
Eu te encanto e recanto
E ainda te sobrecanto,
E por um sino-saimão
Metido num coração,
E por fel d’excomungado,
E por bode pintado,
E pela asa do morcego,
E pelo seixo do rego
E pelo sangue do drago,
E por tudo o que te trago,
Vem!
Um imenso apelo ressoou: “Vem!” Todos os braços se erguiam desesperadamente para a tripeça vazia. E a velha, como possuída do delírio, bradava em apelos agudos que varavam o ar:
— Vem contra o Senhor! Vem contra o Bispo! Vem contra o Letrado! Vem contra o Rico!
E cada vez a turba clamava mais ansiosamente: “Vem! Vem!”
Uma grande restolhada cortou a espessura – e soprou sobre a mesa, escarranchado, apareceu um homem enorme, de longa barba preta, todo coberto de pelo preto, que o assemelhava a um bode. Uma aclamação soou, um delírio arrebatou a todos. As mulheres pulavam, os homens sacudiam os barretes – enquanto a criatura negra, imóvel, dardejava em silêncio os seus olhos coruscantes. Depois, quando se fez de novo um silêncio, a criatura, estendendo o pé, gritou numa voz rouca:
— Adorai!
Todos lhe beijaram o pé, que desaparecia sob os felpos longos do pelo.
Mas então um homem, envolto num grande lençol branco arranjado como uma dalmática de bispo, e com uma mitra negra na cabeça, veio caminhando a coxear para o altar, a ler um livro que segurava nas mãos. Cristóvão conhecia-o. Era o coxo que trabalhava ao lado dele, rosnando palavras ininteligíveis.
Tendo o posto o livro sobre o altar, o homem abriu os braços, e começou a celebração de um rito, que, com horror, parecia a Cristóvão, semelhante à missa de sua aldeia. Curvado sobre o livro, com a mãos postas, ele resmungava uma leitura; erguendo os braços, saudava a criatura felpuda; e quando, voltando-se para a turba, lançava uma benção, todos se curvavam, e risos bestiais estalavam com amargura. Imóvel, a criatura, com as mãos pousadas nos joelhos, recebia o culto, Um acólito, lindo como um pajem, misturava um líquido negro num vaso. E dos grandes carvalhos em redor caía uma sombra negra, que a Lua, aqui e ali, cortava de manchas lívidas.
Como na missa, uma campainha ressoou. O homem mitrado encheu o vaso, fez uma invocação, derramou um gota sobre os pés juntos da criatura negra, bebeu o resto – e tendo limpado os beiços à ponta de sua dalmática, subiu a uma tripeça, e ficou recolhido, como um pregador que vai lançar o seu texto. Um silêncio caiu, tão fundo, que se sentia o rumor das folhas. Um raio de Lua batia a face barbuda do coxo, que começou a pregar.
Erguendo os braços, perguntou onde se encontraria a felicidade para o pobre? A
terra era para ele um lugar de desolação. E desde que nascia até que o levavam para a vala, ele não fazia mais que gemer na escravidão. Da alvorada à noite, trabalhava. E
para quem ia todo o fruto do seu trabalho? Para o Senhor, para o Bispo, para o Intendente que vinha com os arqueiros. Para que o Senhor tivesse armas, ele não tinha lume, e tremia de frio. Para que o Bispo tivesse banquete, ele não tinha pão, e empalidecia de fome. Para que o Intendente vivesse em casas cobertas, ele vivia em tocas que as suas mãos cavavam na terra.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.