Por Eça de Queirós (1900)
- Ora aí está como as coisas se inventam! Pois por cá constou que V Exa. tratara com o JoséCasco, o José Casco dos Bravais. Até no domingo, ao almoço, a Sra. D. Graça...
- Sim - interrompeu o Fidalgo com uma fugidia cor na face fina.
- Efetivamente o Casco veio à Torre, conversamos. Primeiramente quis, depois não quis.Aquelas coisas do Casco! Enfim, uma maçada... Não ficou nada
E ainda ele ria, encantado - já a prima Maria, depois de cochichar e de estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, desaparecera pela porta envidraçada da sala com a sua elegância esgalgada. Gracinha, lentamente, subiu os três degraus de mármore do jardim. Da varanda, Gonçalo ainda avistou através da ramaria leve, entre as sebes de buxo, o penteador branco, os fartos cabelos caídos, reluzindo no sol como uma cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas, desapareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.
Mas Gonçalo não se arredou de entre as janelas, limando vagamente as unhas, espreitando pelas cortinas, numa desconfiança, quase num terror que o Cavaleiro de novo surgisse na pileca - agora que Gracinha se embrenhara para os lados desse cômodo Mirante, construção do século XVIII, imitando um Templozinho do Amor, que rematava o longo terraço do jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a calçada permanecia silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do Palacete e do Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da espionagem - certo que a irmã não se mostraria ao Cavaleiro na varandinha do Mirante, assim com os cabelos em desalinho, por cima dum penteador.
E cerrava a porta, quando se encontrou diante dos braços do Padre Soeiro, que o prenderam pela cinta com afago e respeito.
- Oh! meu ingratíssimo Padre Soeiro! - exclamava Gonçalo, batendo ternamente nas gordascostas do capelão. - Então que feia ação foi esta? Mais de um mês sem aparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre Soeiro já não há Gonçalinho, há só Gracinha...
Enternecido, quase com uma lágrima a bailar nos mansos olhos miúdos, que mais negrejavam entre a frescura rósea da face roliça e a cabecinha branca como algodão - Padre Soeiro sorria, fechando as mãos sobre o peito da batina de alpaca, donde surgia a ponta de um lenço de quadrados vermelhos. E não lhe escasseara certamente o desejo de ir à Torre. Mas aquele trabalhinho na Biblioteca do Paço do Bispo... Depois o seu reumatismozito... Enfim a Sra. D. Graça sempre esperando S. Exa., um dia, outro dia...
- Bem, bem! - acudiu alegremente Gonçalo, contanto que o coração não se esquecesse da
Torre...
- Ah! esse! - murmurou Padre Soeiro com comovida gravidade.
E pelo corredor de paredes azuis, adornadas com gravuras coloridas das batalhas de Napoleão, Gonçalo resumiu as novidades da Torre:
- Como o Padre Soeiro sabe, rebentou aquele escândalo do Relho... E ainda bem, porque concluí um negócio esplêndido. Imagine! Arrendei há dias a quinta ao Pereira Brasileiro, ao Pereira da Riosa, por um conto cento e cinqüenta mil réis...
O capelão suspendeu a pitada, que colhera numa caixa de prata dourada, pasmado para o Fidalgo:
- Ora aí está como as coisas se inventam! Pois por cá constou que V Exa. tratara com o JoséCasco, o José Casco dos Bravais. Até no domingo, ao almoço, a Sra. D. Graça...
- Sim - interrompeu o Fidalgo com uma fugidia cor na face fina.
- Efetivamente o Casco veio à Torre, conversamos. Primeiramente quis, depois não quis.Aquelas coisas do Casco! Enfim, uma maçada... Não ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma bela manhã, me apareceu com a proposta, eu, inteiramente desligado, aceitei, e com que alvoroço!... Imagine! Um aumento soberbo de renda, o Pereira como rendeiro... O Padre Soeiro conhece bem o Pereira...
- Homem entendido - concordou o capelão coçando embaraçadamente o queixo. - Não hádúvida. E homem de bem... Depois não havendo palavra dada ao Cas...
- Pois o Pereira para a semana vem à cidade - atalhou apressadamente Gonçalo. - O PadreSoeiro previne o Tabelião Guedes, e assinamos essa bela escritura. São as condições costumadas. Creio que há uma reserva a respeito da hortaliça e do porco... Enfim o Padre Soeiro deve receber carta do Pereira.
E imediatamente, descendo a escada, passando o lenço perfumado pelo bigode, gracejou com o capelão sobre o famoso Fado dos Ramires em que ele colaborava com o Videirinha. Oh! Padre Soeiro fornecera lendas sublimes! Mas aquela de Santa Aldonça, realmente, fora ataviada com exageração... Quatro Reis a levarem a Santa aos ombros!
- São Reis demais, Padre Soeiro!
O bom capelão protestou, logo interessado e sério, no amor daquela obra que glorificava a Casa:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.