Por Camilo Castelo Branco (1862)
Este Josino, esta criatura que eu cantei em oitava rima, era um homem de biscuit, engelhado de refegos na cara como a frontaria da Batalha, velho dengoso, que tinha amado as mães das meninas casadoiras que requestava. Mas que terrível homem!... Era amado, e casou com ela.
Nota
Diz Silvestre que cantara Josino em oitava rima. O leitor decerto me agradece a reprodução do poema, que passou despressentido e sem assinatura num jornal literário daquele tempo. Foi ele escrito na véspera do matrimónio de Josino com a formosa trigueirinha. Não louvo semelhante desafogo de despeito, nem encareço o quilate da poesia. Reza assim a coisa, depois de ter resumido em estiradas oitavas o epitome da sua vida e a resolução de se casar:
Josino amigo meu, velho incontrito,
Há trinta anos conheço em cata duma,
Que tenha coração, e algum saquito
Daquilo com que a vida mais se arruma.
É velho o meu Josino; mas bonito,
E bem conservadinho; inda se apruma,
Quando vê na janela da vizinha
A travessa criada da cozinha.
Nos bailes, faz-me inveja o seu meneio,
E os trejeitos, que faz coa perna fina,
E o garbo, que lhe empresta o bom recheio
Do túmido algodão com que fascina.
Do cume de gravata, em doce enleio,
Contempla as graças da gentil menina,
Já neta duma avó, que foi deveras
Namoro de Josino em priscas eras.
Já tem um pouco os olhos desvidrados;
Porém, não sei que graça tem, se os pisca!
Eu, se fosse mulher... ai!, meus pecados!,
Caia neste anzol de antiga isca.
Há homens tão fatais e endiabrados,
Que mal sabe a mulher ao que se arrisca,
Se palestra lhes dá! Ai!, pobrezinha!
É a história do sapo e da doninha!
Mas que importa o poder que tens no peito
Das cândidas donzelas, velho audaz!
Tu consegues fazer com manha e jeito
O que a natureza pérfida desfaz.
Já consta por aí que tu és feito
De pródigo algodão, múmia falaz!
Suspeita-se também ser de algodão
A coisa a que tu chamas coração.
Josino, ainda assim, já mais fraqueia;
Ousa dar-se o valor duma antigalha,
Camafeu de Herculanum ou de Pompeia,
Que no mundo não tem mulher que o valha.
Isto diz muita vez, à boca cheia,
À criada Jacinta, quando ralha,
Porque a pobre, mulher de sã lisura,
Se ri quando ele encaixa a dentadura.
Josino tem caleche e tem cavalo,
Que aos triunfos d’amor lhe presta ajuda.
Quando silva da pita o agudo estalo
Donzelinha não há que não sacuda
A ceroula do pai, para espreitá-lo,
Tingida do pudor, que o gesto muda;
Enquanto ele lhe mostra o dente amante,
Que outrora adorno foi dum elefante.
Nestes meses de Inverno, o reumatismo
Costuma apoquentá-lo; e ele afecta
Que está numa razão de cepticismo,
E rebate do amor a doce seia.
Diz que o seu coração é fundo abismo,
Onde entesoura imagem predilecta
Da mulher que há-de vir; e, à vista disto,
Presume-se que vem co Anticristo.
Mas, apenas repinta a Primavera
Espargindo matiz de lindas flores,
Josino sai da cama, onde gemera,
E remoça nutrindo outros amores.
Ludibrio miserando da quimera,
Que o mangara no leito d’agras dores,
Ei-lo, de novo, em coração repoisa
De menina, que pese alguma coisa.
Não cuida que perdeu do seu quilate
Enquanto pode as rugas rebocar.
Diz sempre que lá dentro inda lhe bate
O quer que seja, que precisa amar.
Assim, como quem diz um disparate,
Pergunta se será néscio em casar:
Conta os logros, que fez, nunca sabidos,
E teme a previdência dos maridos.
Sem embargo, porém, deste palpite
Josino vai pedir a mão de esposa
A formosa menina, das do élite,
Que a detracção abocanhar não ousa.
Assente o pai ao digno convite,
Que é pássaro bisnau, velha raposa,
E vira um vulto de homem presumível
Sair do quarto dela(ó vista horrível)5
Josino, alfim, casou, e partiu logo
(Ah!, que não sei de nojo como o conte!)
Todo ânsia, paixão, ardor e fogo,
Com ela para o Bom Jesus do Monte.
Ai!, que lua-de-mel, que desafogo
De cadente paixão ao pé da fonte,
Que trépida repete em magno anelo
As falas que murmura o Esganarello6
Esganarello... sim!... (Se saber quer
Alguém, que o não conhece, aquele herói,
Procure-o, que há-de achá-lo em Molière,
Ou lá na vizinhança.) O caso foi
Que, extinta a Lua incasta do prazer,
A esposa diz que já n’alma lhe dói
Saudades do teatro italiano,
E do primo doutor... grande magano .
II
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.