Por Camilo Castelo Branco (1864)
Este capítulo não dispensa uma nota ilustrativa, respondendo temporariamente à critica ilustrada que me perguntar como pude eu pôr em traslado uma carta queimada à luz do castiçal, minutos depois que Afonso a lera. É porque o rascunho desta carta, escrita com entrelinhas, emendas e borrões, escrita por Teodora, estava ainda em poder de Afonso de Teive em Dezembro do ano próximo passado. Oportunamente se dirá como Afonso de Teive se apossou do rascunho. Então a crítica verá que poucas coisas sucedem na vida tão naturalmente.
Relevem-me essas demasias de escrúpulo: que eu dificilmente consentirei que a má-fé me apanhe em flagrante inverosimilhança.
Assim é que eu quisera que se escrevesse a história pátria com este timbre e rigor de verdade. Por mingua de desvelos análogos na averiguação dos factos históricos é que nós ainda não sabemos bem quantos filhos bastardos fizeram os nossos monarcas; falha que desluz algum tanto o panegírico das virtudes dos reis portugueses. Aprendam os historiadores.
XIV
No mesmo dia, um deputado chegado do Minho entregou a Afonso uma carta de sua mãe, incluindo outra de Mafalda. A senhora de Ruivães felicitava o filho por saber que ele procurava os passatempos da capital, admoestando-o a que procedesse honradamente no gozo dos prazeres, para que eles se não derrancassem em flagelos da consciência e infâmia. Mafalda, em poucas linhas, pedia-lhe que se não esquecesse dela e fosse fiel à promessa de estimá-la como irmã.
O deputado bracarense era sujeito que sabia as coisas para as dizer e saltava a quatro pés por cima disto que chamam delicadeza em assuntos de coração. Pelo que o expansivo deputado falou assim a Afonso:
- Ainda me lembro de V. Exª, quando rapazola estudava Retórica em Braga. Está certo de ser agarrado pelo regedor quando foi às Ursulinas atacar as freiras? Pois fui eu quem, a pedido de sua mãe, lhe vali no processo instaurado.
- Não sabia - atalhou Afonso. - Aproveito a oportunidade para agradecer a V. Exª...
- Não tem de quê. Mas com efeito -volveu o deputado, a rir de esperto - olhe V.
Exª o que fazem mulheres... ou mulherinhas... porque afinal a morgadinha da Fervença acanalhou-se até ir casar com um bruto de Tibães... Soube isto V. Exª?
- Perfeitamente. Era impossível que eu o não soubesse... - respondeu atentamente Afonso.
- Eu conheço Eleutério Romão dos Santos - continuou o informador. -O homem torce as grandes orelhas que tem, porque ela tem-lhe feito dar a água pela barbela. V. Ex.
há-de saber isto...
- Não sei senão que Teodora é mulher de Eleutério.
- Então eu Lhe conto. A rapariga tem fígados e ninguém o dirá vendo aquela lesma, que parece feita de manjar branco. Assim que entrou em casa, e se viu com o sogro Romão e com a sogra Eleutéria, deu ao diabo a cardada, pôs-se nas suas tamancas, e mobilou as suas salas e os seus quartos à moderna. O Eleutério quis reguingar-lhe; mas ela, às primeiras testilhas, falou em divórcio, ou coisa pior ainda, que era, pelos modos, fugir de casa, e procurar V. Exª. O marido pôs as mãos na cabeça quando ouviu falar em divórcio. A fortuna ali é quase toda de Teodora. Se ela se levantasse com o seu casal, o velhaco do tio, que preparou semelhante desgraça de casamento, dava um estouro. Começaram a fazer-lhe todas as vontades à moça. Para que lhe há-de ela dar? Imagine V. Exª para que lhe deu na veneta?
- Eu sei cá... - disse anelante de curiosidade Afonso.
- Fez-se doutora!... Mandou comprar dois carros de livros ao Porto; fechou-se no seu escritório, que parecia uma livraria de convento, e começou a ler de noite e de dia. Lá de dia passe; mas de noite, dava isso que pensar a Eleutério, casado à face da Igreja e dono da mulher pelos seus justos cabais. Passado tempo, deu-lhe outra mania; fez-se cavaleira, e rompia a galope pelo campo de Sant'Ana em Braga, a levantar poeira que parecia um esquadrão de cavalaria! Não parou ainda aqui o desarranjo daquela cabeça!
Tomou lacaio, deu-lhe libré avivada de vermelho, e andava por essas estradas do Minho com o lacaio em correrias de doida. Uma hora viram-na em Landim, outra em Santo Tirso, depois em Leça da Palmeira... Que novidades lhe estou contando!... – concluiu sorrindo o narrador.
- E do procedimento dela que se dizia? - atalhou Afonso, vivamente empenhado nas revelações do chaníssimo legislador.
- Do procedimento dela a que respeito? -perguntou o deputado, com suspeitoso sorriso.
- Amantes, quero dizer se a opinião pública lhe dava amantes.
- Eu lhe digo: quando V. Exª estava em Leça com sua mãe, e a morgada lá foi com o marido, alguém disse que o marido era um simplório. Ora isto parece-me que alguma coisa queria dizer...
O deputado espirrou uma risada de finura velhaca e ajuntou:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.