Por Lima Barreto (1921)
Julgo tudo isso prático, porque, morando em pequena chácara, em Todos os Santos e tendo o porão da casa cheio de formigueiros, não os extermino por dois motivos: 1º) não as sei matar e não conheço quem saiba; 2 ª) mesmo que soubesse matar saúvas muito humanamente, em face da lei dúbia, estava disposto a empurrar a bucha para o proprietário que pode mais do que eu. Eis aí.
Lanterna, Rio, 4-5-1918.
O FRANCO
O ninho de malvados açambarcadores que é a Associação Comercial do Rio de Janeiro, acaba, pela voz de um senhor Franco, sócio da firma Zamith, Meireles & Cia, de atacar de modo desabrido não só o Alto Comissariado de Alimentação Pública, como todos aqueles que não se querem enriquecer com a miséria dos outros.
Para este Franco, todo aquele que se não entregar ao “alívio” do açúcar, isto é, vender para a República Argentina, para a Itália ou para o México, esse produto por menos da metade do que ele e seus sócios vendem aqui, é mandrião, vagabundo ou coisa que valha.
A sua ironia de “açucareiro” sem cultura vai ao ponto de chamar todos os que se opõem à ladroeira de semelhantes salteadores da pobreza do Brasil, desse modo.
Esse senhor Franco, em vez de estar pensando em enriquecer de apodrecer, devia imaginar que enquanto a nossa sociedade atual, pedir serviços, como os do médico, os do advogado, os do motorneiro, os de empregados públicos, todos eles não são vagabundos, todos eles trabalham a seu modo para a manutenção dessa própria sociedade.
Mesmo aqueles que o senhor Franco julga que são vadios, os poetas, os escritores, os filósofos, eles são úteis.
Se não fossem eles, o senhor Franco estaria na gleba de Portugal ou alhures e eu na escravidão.
A vida não é feita nem constituída de negócio de açúcar, como pensa o sócio do Pereira Lima, agente por demais sabido de vários trusts açucareiros.
A vida é complexa, pede muitas atividades, pede muito pensamento.
Se o senhor enriquece ou enriqueceu com açúcar, não sabe quanta dor, quanto sofrimento, quanto sangue, custaram os maquinismos com que o açúcar é fabricado nas suas usinas.
Se não fossem semelhantes vagabundos que tinham em vista unicamente o bem da humanidade, o senhor não falaria com essa empáfia na Associação Comercial do Rio de Janeiro.
As firmas de São Paulo, Matarazzo e outros, Martinelli, aqui, e várias mais que eu não quero citar, têm tido lucros fabulosos, sem que isso tenha vindo em melhoria dos operários que a elas servem.
Diz esse senhor Franco que, se houver a regulamentação da exportação, dezenas de milhares de indivíduos, irão para a miséria. Pergunto eu agora; o que eles têm lucrado com os dividendos fabulosos que vocês têm tido?
Os salários não aumentaram, enquanto todas as utilidades necessárias à vida sobem sempre de preço.
Se o Franco da Associação Comercial conhecesse alguma coisa, tivesse estudos, eu discutiria com ele a questão da propriedade.
Mas, ao que parece, Franco só conhece a propriedade do açúcar; e eu ainda não sou “judeu” do açúcar.
Franco fala mal de Leroy-Beaulieu; mas, se o tivesse lido, e também o Bastiat , todos os dois iriam a seu favor.
Eu não quero ensinar coisas a Franco que me quer matar à fome, nem mesmo ao Pereira Lima, que quase é meu colega.
Desejo simplesmente dizer-lhes que tomem cuidado; que não é possível estar a abusar da paciência de nós todos, não é só dos operários aos quais não adulo, mas dos pequenos burgueses como eu, que receberam mais instrução do que todos os “francos” e não admitem esses insultos de tirano, tirano do comércio, da agiotagem, da pirataria com que vocês querem saquear o mundo.
Brás Cubas, Rio, 4-7-1918.
O CLUBE DE ENGENHARIA
Quem passa na Avenida, à tarde, ali, no canto dela com a Rua Sete de Setembro, encontra um portão largo, que, em arquitetura, tem um nome especial e duro, cheio de velhos gamenhos , derretidos em sorrisos para as mulheres que passam. Esses velhos aos quais se juntam alguns moços, ainda mais gamenhos, são engenheiros ou coisa parecida, e o lugar, a casa, o portão – tudo isso é o Clube de Engenharia.
É uma instituição ainda pior do que a Associação Comercial. E nela que se fazem, se ultimam, se homologam as maiores vergonhas administrativas do Brasil.
Não há judeu, cavador internacional que não lhe receba o patrocínio. Têm eles sempre a seu dispor o prestígio do clube para dizer que a concessão que pedem, é maravilhosa, para o progresso do Brasil; que o nosso país vai ganhar muito com isto e que nós devemos fomentar a indústria particular. Mas, os favores que recebem, os privilégios, as apólices de juro-ouro, tudo o que pode onerar à totalidade da nação, não diz o clube. Precisamos recompensar o capital do... proteger os judeus.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.