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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Os espíritos divididos se irritavam, e a noite, que se passou quase toda sem dormir em roda das fogueiras em calorosas altercações, parecia pressagiar para o dia seguinte graves e temerosos acontecimentos.

POUSO TERCEIRO

OS RIVAIS

CAPÍTULO I

O CONSELHO DOS PAJÉS

Oriçanga, cujo espírito inquieto E atribulado não pudera durante aquela penosa noite gozar um instante do lenitivo do sono, aguardava com impaciência o alvorecer do dia para acabar com a cruel perplexidade que o atormentava a respeito do destino da sua filha. Apenas pois ouviu os primeiros pios das aves pelas florestas, ergue-se e apressa-se em mandar convocar os anciãos da tribo e os venerandos pajés, para que com seus sábios alvitres lhe iluminem o espírito e o guiem em tão difícil e delicada conjuntura.

Estes pajés, que eram sempre homens respeitáveis por sua avançada idade e longa experiência, e venerados entre os selvagens como sacerdotes ou profetas, passavam vida austera e retirada no seio das brenhas em espeluncas solitárias, onde se reputava que tinham comunicação com os espíritos celestes, e eram intérpretes da vontade de Tupá. Eles interpretavam os sonhos, pressagiavam o futuro, decidiam dos bons ou maus agouros, e eram uma espécie de oráculos constantemente consultados, não só em negócios particulares, como também sobre questões de interesse geral dessas hordas, sobre cujo governo exerciam considerável influência. Conhecedores das virtudes das plantas e de outros símplices da natureza, eram eles também que administravam remédios e socorros aos feridos e enfermos, e eram assim também, além de sacerdotes, os únicos médicos dessas tribos.

Os pajés acudiram prontamente ao chamado do cacique, e reunidos na sala a mais profunda e retraída da cabana deliberavam secretamente. Oriçanga informa-os por miúdo de todo o ocorrido, e expõe-lhes sem rebuço a causa de todas as suas hesitações e ansiedades.

A maior parte dos pajés se pronunciavam abertamente contra Itajiba e contra o amor de Guaraciaba, que qualificavam de louco e pueril. Diziam que a quebra das promessas solenes feitas a Inimá, descendente de uma antiga e ilustre raça de caciques e oriundo da mesma nação, em favor de um estrangeiro, vindo sabe o céu de onde, lançaria uma nódoa eterna sobre o nome de Oriçanga; que a efetuar-se a união de Guaraciaba com esse estrangeiro, viria este a ser o sucessor de Oriçanga e chefe natural da nação, o que seria mais que ignominioso e aviltante para a nação dos Chavantes; dir-se-ia que entre tantos jovens guerreiros um só não se achava na tribo digno de desposar a filha do cacique e suceder a este no comando a tribo; enfim que seria uma imprudência só própria de loucos confiar o governo e direção de uma nação inteira a um estranho, que poderia bem não ser mais que um astuto e pérfido aventureiro, um inimigo da nação, só para satisfazer a paixão caprichosa e pueril de uma criança.

Outros, menos exaltados contra Itajiba, opinavam que sem inconveniente algum poderia este tomar Guaraciaba por mulher, uma vez que Inimá desistisse de sua união com ela e desobrigasse Oriçanga de suas promessas; que nesse caso, sendo adotado entre os Chavantes, se lhe daria um lugar distinto entre os chefes; que por esse modo não teria Oriçanga de contrariar os naturais afetos de sua filha, nem teria que sofrer em seu coração de pai; mas quanto à sucessão do comando, devia esta ser devolvida a Inimá, considerando-se extinta por morte de Oriçanga a sua descendência.

Falou por último Andiara, o mais venerável e o mais autorizado dos pajés. Defendeu com calor a causa de Guaraciaba, a quem votava paternal afeição, e de Itajiba, cujo valor e nobres qualidades admirava, a quem o prendia uma natural simpatia, e a quem reputava enviado por Tupá para elevar a nação dos Chavantes ao mais alto grau de esplendor e poderio.

— Não vejo motivo, dizia ele, para se votar tanto ódio a esse estrangeiro, e fazer-se-lhe um crime pelo fato tão natural de ser ele amado pela gentil e nobre filha de nosso chefe. Esse estrangeiro, que sem fundamento algum supondes um inimigo astuto e pérfido, pode ser bem ao contrário um herói, que Tupá nos envia para regenerar a nação dos Chavantes, a qual, com bastante mágoa o digo, vejo bem decaída de seus antigos brios, depois que a idade começou a vergar os ombros e a enfraquecer o ânimo de nosso bravo e glorioso chefe.

(continua...)

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