Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Mr. F. B. trouxe consigo para a capital do Brasil Mlle ou Mme Aran... a qual pretendia com inconfessável orgulho que o grande homem (então cativo em S. Helena) a achava encantadora, quando em campanha andava longe dos olhos da Imperatriz Maria Luíza; e também Mr. F. B. com orgulho igual dava testemunho do glorioso encantamento durante as campanhas.
Dizem-me septuagenários e octogenários informantes que Mlle ou Mme Aran... era realmente linda, e que atestava o bom-gosto de Napoleão.
Mr. F. B. morava com a sua bela tutelada ou protegida não na casa de comércio, mas em chácara fora da cidade, e zelava-a menos como sultão, do que como eunuco especulador.
Correram meses, e passou mais de um, quase dois anos...
Mr. F. B. empenhava-se em vender todos os seus ricos vasos ornamentais e finas porcelanas...
Mas... o Rei D. João VI era velho, e só amava o luxo, e os ornamentos na igreja...
O Príncipe D. Pedro era noivo, morava no palácio do rei, e ainda não comprava objetos de luxo.
Mr. F. B. desapontou com o caso, desesperou, e um dia disse em bom francês à Mme ou Mlle Aran...
- Não há Napoleão no Brasil! Voltemos para a nossa Paris.
Mme ou Mlle Aran... sorriu-se maliciosa e respondeu:
- Oh! Napoleão só um... mas Bonapartes encontram-se...
E como sonhadora parisiense acrescentou:
- Voltemos para a nossa bela Paris.
E o casal de andorinhas que não fizera na capital do Brasil e da monarquia portuguesa o verão calculado bateu as asas... e foi-se.
Mas, Mme ou Mlle Aran... a primeira francesa que teve nomeada na cidade do Rio de Janeiro não morou, nem deixou penas de suas asas de graciosa andorinha na Rua do Ouvidor.
O apêndice extramuros termina aqui.
CAPÍTULO 10
Como depois de se provar com a história a antiga predileção dos franceses pelo Rio de Janeiro, vem a reconhecer-se que somente entrando à sombra das francesas podiam firmar se aí. Como, desde 1817, havia no Rio de Janeiro franceses negociantes, e francesas modistas e nenhum e nenhuma na Rua do Ouvidor; para a qual de súbito e com aparente mas não verdadeiro acordo, fogem todas as modistas, e à sombra das francesas logo negociantes franceses. Como a época de florescimento e de glória da Rua do Ouvidor é marcada pela hégira das modistas francesas, que espantaram e fizeram mudar se da mesma rua os negociantes ingleses; refere-se a tradição (não bem averiguada) de Mr. (mister!...) Williams e de Mlle Lucy. Como, enfim, a rainha - moda de
Paris - entroniza-se na Rua do Ouvidor, que se alinda e resplende e encanta a sociedade fluminense com o prestígio das vidraças, cuja importância se demonstra. A Rua do Ouvidor entra nos grandiosos horizontes do seu império da moda.
Os franceses tiveram sempre manifesta predileção pelo Rio de Janeiro.
Em 1555 ocuparam a grandiosa baía de Niterói, fundaram colônia, projetaram a Henry-ville; sonharam com a sua França Antártica; mas depois de muito brigar foram em 1567 lançados pela barra afora pelos portugueses.
Em 1710, capitaneados por Duclerc em atrevida expedição, desembarcaram na Guaratiba e avançaram por terra a conquistar a cidade; mas, combatidos e atropelados por estudantes e populares (porque o Governador Francisco de Castro Moraes se conservava no quartel da saúde) meteram-se, enfim, no trapiche da cidade, onde se entregaram todos prisioneiros, ou foram todos apreendidos, como fazenda de contrabando.
Em 1711, comandados por Duguay-Trouin, forçaram com poderosa esquadra a barra do Rio de Janeiro, e graças à incapacidade e covardia daquele mesmo governador ocuparam no fim de poucos dias a cidade, que as tropas, e atrás delas todos os habitantes, em uma noite abandonaram; mas, depois de saque geral dos conventos, das igrejas e das casas, desconfiando, com razão, de subseqüente fortuna contrária, restituíram a Sebastianópolis a preço de contado por desbriosa (não para eles) transação que se chamou resgate, e puseramse ao fresco, antes que os despedissem a fogo.
Um século e cinco anos mais tarde, em 1816, vieram os artistas franceses; creio, porém, que M. Le Breton com eles nunca chegaria a plantar predominante influência francesa no Rio de Janeiro, como não conseguiram Willegaignon e Bois-lo-Conte de 1555 a 1557, nem Duclerc em 1710, nem Duguay-Trouin em 1711.
O fato veio demonstrar que os franceses só podiam firmar-se na cidade do Rio de Janeiro entrando nela à sombra das francesas.
E as francesas começaram a chegar e a estabelecer-se com a dominação de modistas nas Ruas Direita, dos Ourives, do Cano (hoje Sete de Setembro) em 1818, 1819 e 1820.
Caso célebre!... nenhuma na Rua do Ouvidor!... e com certeza nenhum francês nessa mesma rua, que aliás lá tinha casas inglesas.
As francesas eram modistas; falava-se com louvor de uma ou de outra; elas, porém, viviam separadas, não tinham autonomia, eram elementos dispersos, emigrantes de Paris, sem colônia organizada, parisienses sem Paris, enfim.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.