Por Gregório de Matos (1696)
Eu Pedro Cabra da Índia,
que me sinto morrer já
de uma doença, que Deus
foi servido de me dar:
Não sabendo a hora certa,
em que Deus me levará,
se é possível, que Deus leve
um feiticeiro infernal:
Posto à gineta na cama
se é cama uma cama tal
feita de tábua, e tabua
uma dura, outra molar:
Em meu perfeito juízo,
que Deus me deu tal, ou qual
faço este meu testamento
solene de se contar.
Primeiramente declaro,
que sou Cabra oriental
filho da Igreja Romana
por cerimônia não mais.
Creio na Trindade Santa,
porém creio muito mais
na trindade das Mulatas
de Dona Marta Sobral:
Nas quais espero salvar-me
principalmente na Irmã
mais velha, que chamam Quita,
que é jangada universal.
Deixo muito encomendado
ao Vigário do lugar,
que não me enterre em sagrado,
que interdito ficará.
Não porque vá excomungado
por bula alguma papal,
pois sempre vivi faminto
de papas, e cardeais.
Não mais quero, que me enterrem
na Igreja paroquial,
porque fico muito perto
da quatrinca cavalar.
E temo, que à meia-noite
me venham desenterrar
este miserável corpo
com unhas, e com queixais.
Este miserável corpo,
que sendo tão natural,
querem, que seja feitiço,
e feitiço há de ficar.
Com que uma, e mil vezes peço
ao Cura, que é tão sagaz,
pois hão de fazê-lo em caldos,
que o mande lançar ao mar.
Lá o comam caranguejos,
que ver será menos mal
um homem nos caranguejos,
que os homens caranguejar.
E se enfeitiçar os peixes,
comendo o meu rosalgar,
com peixes enfeitiçados
que mal às Quitas irá.
Ao primeiro piscar de olho
os mandará Quita entrar,
e o que não deitar consigo
ao menos o escamará.
A casa se verá farta,
e de sorte abundará,
que descanse a Cajaíba,
e as negras de mariscar.
Irá crescendo nas honras
Mandu caraça, que já
se jacta de ter cunhado
tão fidalgo, e tão galã.
Porque me dizem, que diz,
muito devo à minha Irmã,
que se dorme cum fidalgo
só por mais me autorizar.
Não serei vil pescador,
ninguém me verá jamais
sobre a proa em ceroulinhas
desonrando tais Irmãs.
Mil honras devo a Marana,
que se veio amancebar
no segundo ano de puta
cum fidalgo principal.
Outro tanto devo a Quita,
que lhe soube aconselhar,
ensinando-lhe os maneios,
de que é mestra, e capataz.
E a boa da rapariga
(muito pode o natural)
sendo um ranho, uma criança
saiu puta singular.
Tal conta se tem consigo
que sabe as noites contar,
em que Ihe falta a ração,
e um pleito por ela faz.
Mete lhe a mão na barguilha
ao mano, que dorme já,
e quer queira, quer não queira,
a tamina há de pagar.
Sobre isto há muita galhofa,
que (bendito Deus) tem já,
Marana tanta gracinha,
que aos mortos enfadará.
Mas tornando ao testamento,
que me importa já acabar,
porque anda a morte de ronda
com mil demônios atrás:
Quero herdeiro instituir,
pois sei, que não valerá
sem instituição de herdeiro,
conforme o Maranta o traz.
Instituo a Quita enfim
por herdeiro universal
dos móveis e das raízes,
que ganhei com Satanás.
O meu cabaço das ervas
cumbuca de carimá,
a tigela dos angus,
o tacho de aferventar.
O surrão de pele d'Onça,
que tudo cheio achará
de cousas mil importantes
para ventura ganhar.
O braço de um enforcado,
dous dentes, quatro queixais,
buço de Lobo marinho,
sangue de Pomba trocás:
Um olho de galo preto,
cabo de touro negral,
as enxúndias da raposa,
a caquinha de um rapaz,
Mijo de velha roupeira,
ramela do lagrimal
de Negro torto, e cambaio,
Tinharós, e Mangará.
Que tudo isso val um Reino,
se o souber aferventar
nas noites de São João
por adros, e por quintais:
Na forma, que Ihe ensinei,
quando me vinha chupar
a pica todas as noites,
té que vinha arrebentar.
Quando a pica me chupava,
e Antonica por detrás
nos companheiros pegava
para o cano endireitar,
Marana se punha a rir,
mas tratava de ajudar
a Antonica, se cansava
co peso dos dous quintais.
E quando entrava Isabel,
como sentia cheirar
o fervedouro das ervas,
que no fogareiro está:
como é gulosa de tudo,
quanto aos outros vê mascar,
Ihe dava com seu remoque,
que belo, e que lindo está.
Como embruxado acabei,
chupado pelo canal,
sendo um cabra tão mirrado,
que não tinha, que chupar.
Mas eu Ihe perdôo a Quita,
porque me quero salvar,
e porque como aprendia,
chupava, que chuparás.
A minha benção Ihe deixo,
e a encomenda a Barrabás,
que a tenha na sua graça
para seu gozo alcançar.
Com isso tenho acabado
meu testamento, e me apraz,
que mo cumpra inteiramente
minha herdeira universal.
A DUAS IRMÃS TAMBEM PARDAS DE IGUAL FORMOSURA.
Altercaram-se em questão
Teresa com Mariquita
sobre qual é mais bonita,
se Teresa, se Assunção:
eu tomo por conclusão
nesta questão altercada,
que Assunção é mais rasgada,
e Teresa mais sisuda,
e se houver, quem a sacuda,
verá a conclusão provada.
Se Teresa é mui bonita
Mulata guapa, e bizarra,
com mui bom ar se desgarra
a mestiça Mariquita:
ninguém a uma, e outra quita
serem lindíssimas ambas,
e o Cupido, que d'entrambas
quiser escolher a sua,
escolha, vendo-as na rua,
que eu para mim quero ambas.
As Putas desta cidade,
ainda as que são mais belas,
não são nada diante delas,
são bazófia da beldade:
são patarata em verdade,
se já verdade em pataratas,
porque Brancas, e Mulatas,
Mestiças, Cabras, e Angolas
são azeviche em parolas,
e as duas são duas pratas.
Jamais amanhece o dia,
porque sai a Aurora bela,
senão porque na janela
se põem Teresa, e Maria:
uma manhã, em que ardia
o sol em luzes divinas,
pelas horas matutinas
eu vi Teresa assistir,
ensinando-a a luzir
como mestra de meninas.
FRETEI-ME CO'A TINTUREIRA.
MOTE
Duas horas o caralho
Fretei-me cota tintureira,
mas dizem os camaradas,
que peca pelas estradas,
porque é puta caminheira:
fui contudo à capoeira,
porque faminto do alho
quis dar de comer ao malho:
mas vi-lhe o cono tão mau,
que tive como mingau
Duas horas o caralho.
A HUMA PENDENCIA QUE TIVERAM DOUS AMANTES A VISTA DA DAMA JUNTO AO
CONVENTO DE S. FRANCISCO.
Dizem, que muito elevado
um amante se ostentava,
quando se considerava
ver-se de uma Flor amado:
eis que chega um disfarçado
com passo tão desumano,
ferra a gávea, larga o pano,
vem chegando sorrateiro,
vai-se ao patacho veleiro,
emprega nele seu dano.
Pego na escota co'a mão,
e bem fora de notar,
que na mão quis demostrar,
o quanto deve ao Sansão:
correu, é clara questão
este Adônis desdichado
e vendo o Sansão deixado
o posto, se retirou,
quando Sansão golpeou
o dedo do assinalado.
E vendo-se desta sorte
ferido o triste Zagal
não pôde executar mal,
porque teme o triste a morte:
chegando então Pedro forte
deixa o capote sem tento,
corre à popa sem ter vento,
porque no porto, claro é,
que lhe ficava um guiné
carregando mantimento.
Perico então se prepara
com pedras, que já trazia,
e cuidando o estendia,
ao Sansão pedras dispara:
as pedras Sansão repara,
e delas sendo livrado
em ira, e raiva abrasado
vem co'a espada o criolete
rompe-lhe o casco ao casquete,
rompe o frisão ao frisado.
O Adônis, que no seu posto
deixou vigia de espaço
correu com grande trespasso,
e co'a vergonha no rosto:
o guiné com seu desgosto
vendo-se tão assombrado,
das pedras desamparado,
e o companheiro ferido
mostra estar arrependido
por se ver bem castigado.
Já perdido, e envergonhado
corre com tal ligeireza
dizendo, que com presteza
ia buscar o traçado:
porém bem considerado
era medo tudo isto,
porque a morte tinha visto
naquela espada tão feia,
cuidando por não ter ceia,
iria cear com Cristo.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.