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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

As audiências causaram a excitação de um drama, comovente: os depoimentos das testemunhas, as respostas dos réus, os discursos e réplicas dos advogados, as frases sempre notáveis do ilustre juiz Hawkins, eram devorados por todo o país com a sofreguidão de uma novela de sensação! O tribunal estava apinhado de celebridades, mesmo de ladies famosas, cujos lacaios traziam em cestos lanche e champanhe para sustentar as forças da dama delicada, nas fadigas daquelas longas audiências.

Desenhistas hábeis, postados em todos os cantos, esboçavam a atitude dos réus, os gestos de aflição, as convulsões da pobre amante (Alice Rhodes) – e estes desenhos eram vendidos nas ruas e encaixilhados em salões. Enfim, um verdadeiro processo de prazer.

A última audiência, de que pude surpreender, através da multidão, alguns episódios, foi trágica. Nunca ouvi nada tão poderoso como o discurso do juiz aos jurados, fazendo o sumário do processo. De pé, falou durante sete horas, com uma eloquência sombria e elevada que destilava a morte. Pareceu-me ter mais a paixão de um acusador do que a veracidade de um juiz. Mas como arte, era maravilhoso.

Quando o júri voltou com o veredicto, provando o crime, houve um momento de terrível impressão. O juiz ergueu-se, colocou sobre a cabeça um gorro negro e todo o mundo se pôs de pé, num silêncio ansioso.

Então leu, com voz lenta, a sentença de morte.

Os dois réus estavam como hirtos; mas as duas senhoras estavam sustentadas nos braços de dois comissários de polícia.

Quando o juiz Hawkins findou a leitura, ergueu o braço e disse:

– Que Deus tenha misericórdia das vossas almas.

Toda a audiência respondeu com a mesma voz lamentosa:

– Amen!

No dia seguinte um jornal, o Daily Telegraph creio eu, insinuou que lhe parecia bem pouco comprovado o crime, e bem severa a sentença. Outro jornal retomou o assunto, repetindo a mesma opinião; e depois outro, outro e outro. Imediatamente a opinião agita-se: os jornais começam a publicar cartas, que, numa argumentação cerrada e sagaz, provavam a falta de provas do homicídio; depois advogados escreveram, censurando a marcha do processo, cheio de nulidades; logo sacerdotes, membros do parlamento, mulheres, mães de família, de todas as partes de Inglaterra, cada um do seu ponto de vista, com os seus argumentos especiais, censuraram a condenação: e enfim, coisa grave, os médicos começaram a declarar que os sintomas apresentados no exame do cadáver não eram de morte por fome, mas de tubérculos no cérebro.

Imediatamente, instala-se em Canon Street Hotel uma comissão de pessoas importantes para obter da rainha a comutação da pena: fazem-se meetings, abrem-se petições à assinatura pública, e toda a Inglaterra, profundamente revolvida por esta agitação, pede o perdão para os réus! Em vista disto, o Governo perdoa!

Ao princípio foi um clamor de triunfo. Mas depois vem a reflexão. Que tinha feito a Inglaterra? Tinha destruído a sentença de um tribunal, com uma agitação popular. Mas então a lei, os códigos, a justiça, os magistrados, as fórmulas, tudo é inútil, só quem decide em último recurso é a imprensa e o público. Todo o mundo estava um pouco embaraçado com a vitória. E então francamente cada um começou a considerar que se tinha ido longe no movimento apaixonado da sensibilidade.

A rainha tinha-se talvez apressado de mais a perdoar. A administração da justiça passara, por um golpe de estado popular, das mãos da magistratura para as mãos do público; a instituição do júri é inútil; os processos ociosos; os crimes seriam condenados ou absolvidos segundo o bom ou mau humor da opinião.

Se basta fazer meetings para perdoar um réu, nada impede hoje uma absolvição permanente para o crime. E aqui têm este grande país que, depois de ter feito comutar uma pena por sentimentalismo, desejaria aqui vê-la aplicada por legalidade. Singular situação, não é verdade? E exclusivamente inglesa! Enquanto a mim penso que os réus não eram absolutamente culpados: houve negligência em tratar a pobre senhora, mas não houve intenção de a matar; por outro lado, parece-me que o exemplo é mau e que abala toda a constituição da Inglaterra esta obediência do Governo às impressões da multidão. Em todo o caso, aí dirão consigo, «antes tremelique a constituição que se enforquem quatro inocentes!»

E do Oriente? Depois de uma suspensão de hostilidades, imposta pela neve e pela chuva, os Turcos foram horrivelmente batidos na Ásia. Muktar Paxá perdeu dezenas de canhões, milhares de prisioneiros e fugiu para Kars derrotado. E um desastre, mas facilmente reparável. Em virtude da estação, os Russos não se podem aproveitar da sua vitória: vem tarde, se Muktar Paxá fugiu e não se lhe pode opor, lá está o Inverno para substituir o general vencido e pôr barreiras de gelo e de torrentes onde faltam as barreiras de homens. Kars, que Muktar Paxá protegia, fica em todo o caso protegida pelo mesmo, e não é nesta campanha que os Russos poderão ocupar aquela fortaleza, chave da Arménia.

De resto, no Danúbio, silêncio, expectativa, frio e doenças, nos exércitos ociosos.

(continua...)

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