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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Foi um espanto para Arthur. Nunca vira o padrinho Guedes. Lembrava-se que em casa, em Ovar, lhe chamavam o carola ; mais tarde, durante umas ferias, seu pae, voltando do Porto, fallara dos escandalos que dava n'esse momento o Guedes . . . Era uma historia triste : o pobre carola, n'uma d'essas paixões brutaes que fazem irrupção, por vezes, n'uma existencia devota. anaixonara-se furiosamente por uma Lola, comparsa de zarzuella do Baquet, e teria de certo acabado por casar com ella, se Lola não tivesse já um marido, um bandido, que se installara na quinta do Guedes, lhe bebia o vinho, lhe vestia a roupa branca e lhe arrancava dinheiro com ameaças de suicidio. Desde então, não soubera mais do padrinho, o carola, o amante de Lola ! O que significaria esta ternura inesperada, esse desgosto tantas declamações lúgubres

Ricardina decidiu logo que o menino devia ir á estação d'Ora.r no cha•r-à-banas da carreira. Sabina lembrou que Arthurzinho lhe leva,sse um frango frio «para o homemzinho cear na jornada ».

O homemzinho menina ? — exelarnou Ricardina. —O «homemzinho » ? Boa ! É um dos cavalheiros mais ricos do Porto ! Tem trens, tem tudo !

E o Rabecaz, informado, concluiu com auctoridade :

— Deve ir a Ovar. E fazer-lhe tagatés. Se o sujeito tem uma pequena hespanhola, é homem de gosto, é cá dos nossos. E ouça cá, se a pequena vier com elle, não se me faga acanhado. É grande cortezia e dizer-lhe : Salero ! Viva Ia gracia ! Eu conheço as hespanholas, gastei d'isso t

Quando o char-à-bancs parou á porta de casa, de volta da estação, Ricardina, toda curiosa, estava no alto da escada :

— Então ?

Não, o padrinho não viera,

Foi um assombro para as senhoras. Tinha elle procurado bem no comboio

— Fui vêr até á terceira classe ! Nem signaes !

— Viu no porão — perguntou Albuquerquezinho, interessado.

— Vi no porão, snr. Almirante. Ninguem !

— Jesus ! -— disse Sabininha — coitadinho, succedeu-lhe alguma

— Ai, não me parece bem ! Não me parece bem !

— exclamou a Ricardina. — Depois de ter preveni-

do, d'obrigar á jornada e á despeza É um desproposito !

— Serviu-me de passeio — disse Arthur, accendendo o seu castiçal. —E a noite está linda,

Galgou os degraus, na impaciencia de recordar as sensações da tarde, de pensar n'aquella figurinha de vestido de xadrez, que já começava a ser : Elta. Foi logo ao espelho olhar-se, como para se certificar de que o seu rosto pallido e fino merecia aquella ternura curiosa d'urna senhora, vivendo em Lisboa, na maior elegancia. Nunca vira n'uma mulher um encanto tão captivante.• Adorava sobretudo o seu corpo, pequenino, de Venuszinha de jaspe, que cabia toda n*um abraço, podia trazer-se ao collo ; todos os seus movimentos tinham uma harmonia rythmica ; havia no seu seio uma graça virginal, como que urna provocação sábia, ingenua e coquette. Mas eram os seus olhos negros que acima de tudo o perturbavam : desejaria beijal-os, muito tempo, sentindo entre os labios as pestanas arqueadas e fortes.

Certo porém da sua sympathia, revelada nos dous olhares que lhe lançara, foi á Corcovada interrog•ar o Rabecaz, que talvez a reconhecesse pela descripção que d'ella lhe faria.

Mas quando o viu, de cachimbo na bocca, taco ao hombro, veio-lhe um pudor, uma repugna:ncia de fallar n:Falta, alli, n>aquelle cheiro fetido de petroleo, sob o halito de genebra do Rabecaz.

Então viu-os ? Que tal é a pequena — exclamou logo o outro, brandindo o giz.

vi, não vieram — disse Arthur.

Quando voltou para casa, fechou-se no quarto e escreveU ao Damião, que então vivia em Lisboa, urna carta em que depois de fallar, n'um lyrismo da tenebrosa solidão da sua alma », e das aspirações incessantes para um ideal maior pedia que averiguasse quem era a senhora de ve,$tido de xadrez, de quem fazin, uma deseripção mhnuciosa: queria saber onde morava, quaes as relações, os seus habitos, emfim faça-me soella um estudo á Balzac ». E começou a espe a resposta — pensando n'Ella. Era um estado muito novo para elle, muito doce.

Sob a influencia permanente da excitação poe o seu coração fôra até ahi como um altar vazio, em que tudo está preparado para a, adoração, toChfteiros, incenso, flores, e a que só falta a santa. A tita viera emfim, bem vestida, aristocratica.

tod,has as suas ternuras, os seus desejos, as ambições até alli erravam no vago, como aves inquietas dos ninhos, acharam um centro, ordenaram-se, perpetuamente em torno d'aquella imagem a sti'sussurração d'um culto.

Idealisava-ay como quem cobre um idolo de ca das d'ouro, tornando-a cada dia mais digna da sua poesia, extrahindo das menores cousas certezas

da sua perfeição : o seu chapelinho de pennas provava a fina originalidade do seu gosto ; o livro quo levava, Lamartine ou Musset, confirmava o requinte da sua intelligencia ; a promptidão em so interessar por elle era a garantia da sua constituição amorosa e dag impaciencias da sua alma ardente.

Mas era apenas um sentimento poetico e vago, e, como uma agua isolada e perdida que é absorvida ou se evapora, aquelle grande amor tendia por ve zes a sumir-se ; rotinha-o então anciosamente, para manter na sua vida mesquinha um interesse ideal,



(continua...)

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