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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Quem salvaria os homens? E Cristóvão caminhava cheio de dor, por não os poder salvar. De que lhe servia a força dos seus grande braços, toda a vontade do seu coração!? Alargando os passo, atirando os olhos ao longe, ele só procurava um meio de servir aos homens – e mesmo por vezes lhe vinha a idéia de reunir alguns miseráveis, e dar-lhes a sua própria carne a comer.

Um dia que assim pensava, chegou a uma terra onde viu homens cavando o torrão, outros arando, outros semeando. Um troço de besteiros vigiava aqueles homens, que a fome emagrecera: - e um, monge, com um tinteiro metido no cinto de corda, lia um rol de nomes. Eram os abades dos mosteiros, os bispos em concílio, que assim arregimentavam os mais fortes das aldeias, e por uma ração de pão os obrigavam a trabalhar, para que as terras não ficassem incultas e não fosse maior o tormento da fome. As mulheres, os filhos, vinham com eles para partilhar da magra ração de pão. Cristóvão pediu uma enxada; e tendo admirado a força dos seus braços, o monge indicou-lhe um campo a limpar do pedregulho e do tojo. Com que paixão ele se lançou ao trabalho! Era como se já estivesse saciando todas as fomes futuras. O tojo arrancado fazia montes junto aos seus grossos pés nus: - e ainda por vezes acudia a ajudar os mais fracos, que tropeçavam sob um carreto de pedras, ou, exaustos, deixavam fugir a enxada das mãos. Em torno as mulheres, sentadas, imóveis, com os filhos em redor, esperavam que os homens trouxessem ao fim da tarde a ração de pão, junta num cesto que os besteiros guardavam: mas a sua fome era tanta, que se precipitavam sobre os semeadores, quando, mergulhando a mão na sacola, atiravam, com um gesto lento, um punhado de grãos. Os besteiros tinham de correr, repelir as crianças que gritavam.

Os olhos de Cristóvão estavam cheios de lágrimas. Por vezes, cavando a terra, dizia baixo: “Oh terra, dá depressa o pão! Oh terra, tem piedade!” E então os seus golpes de enxada tornavam-se mais doces, quase tímidos, como se receasse magoar aquela que implorava. Quando se distribuía o pão, ele tomava apenas uma côdea, e fazia partes iguais que dava às escondidas às crianças. Todos os olhos das mães se voltavam para ele. Os homens murmuravam pensativamente: “Tu és o melhor...” De noite ele seguia o bando dos cavadores, que iam dormir em largos alpendres, à orla da floresta. Mas raros eram os que se atiravam para cima dos molhos de palha. Uma grande velha, descarnada e esguedelhada, cujos olhos rebrilhavam como brasas, vinha rondar em torno dos casebres apoiada a uma forte vassoura. Ao encarar a sua sombra negra passando no luar, os homens soltavam um suspiro, outros murmuravam: “É a sina!” As mulheres, à pressa, adormentavam as crianças, procuravam entre a palha vassouras, ou pequenas cabaças, ou um pedaço de véu branco. E todos, uns depois dos outros, em silêncio, desapareciam sob o arvoredo. Uma noite uma forte criatura, de olhos ardentes, disse a Cristóvão: “Vem”. E ele, na sua simplicidade, tomou o bordão e partiu. Por toda a floresta, por baixo de toda a folha, se sentia o roçar de gente que caminhava em silêncio. Por vezes um grito prolongado cortava o grande silêncio. E, mais rápidas, as formas perpassavam sob a folhagem que rumorejava. Assim, Cristóvão chegou a uma clareira, cercada de velhos e altos carvalhos, onde a Lua mal penetrava. Uma multidão já a atulhava, trazendo candeias, ou alguma tocha fumarenta que bailava entre os ramos. Uma vasta mesa de pedra alvejava no meio, e um raio de luar, caindo em cima, alumiava um alguidar de ferro, junto com uma tripeça, coberta por uma pele de chibo. Uma impaciência parecia agitar toda aquela negra turba, onde por vezes um olhar reluzia, como o de uma fera na espessura. Uma voz, ao longe, gania: “Voa, voa!” E, umas após outras, vozes lamentosas e dolentes murmuravam:

“Voa!”

Então a grande velha descarnada avançou, escarranchada sobre a vassoura. Outra correu atrás dela, com os grossos cabelos ao vento; e outra ainda – até que uma longa cauda de mulheres esguedelhadas, com o peito nu, grande cendal branco voando ao vento, começou a girar em torno da mesa, lamentável com um mover de braços abertos semelhantes a um bater de asas cansadas. Deram assim uma volta lenta – até que, parando diante da tripeça vazia, a grande velha estacou, e erguendo os braços lançou uma invocação:

S. Marcos te amarque,

S. Manços te amanse,

A Graça te fique,

A Hóstia te pique!

Sempre que me vires

Em mim te remires,

E quanto me não vires

Contra mim suspires!

E soturnamente toda a turba gemeu, com a cadência de um martelo que cai na bigorna:

S. Marcos te amarque,

S. Manços te amanse!



(continua...)

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