Por Eça de Queirós (1900)
Era a "prima" Maria Mendonça, mulher de José Mendonça, condiscípulo do Barrolo em Amarante, agora capitão do Regimento de Cavalaria estacionado em Oliveira. Filha dum certo D. Antônio, senhor (hoje Visconde) dos Paços de Severim, devorada pela preocupação de parentescos fidalgos, de origens fidalgas, ligava sempre sorrateiramente o vago solar de Severim a todas as casas nobres de Portugal - sobretudo, mais gulosamente, à grande Casa de Ramires; e, desde que o regimento se aquartelara em Oliveira, tratara logo Gracinha por "tu" e Gonçalo por "primo", com a intimidade especial, que convém a sangues superiores. Todavia mantinha amizades muito seguidas e ativas com brasileiras ricas de Oliveira - até com a viúva Pinho, dona da loja de panos, que (segundo se murmurava) lhe fornecia os dois filhos ainda pequenos de calções e de jalecas. Também convivia intimamente, já na cidade, já na Feitosa, com D. Ana Lucena. Gonçalo gostava da sua graça, da sua agudeza, da vivacidade maliciosa que a agitava numa linda crepitação de galho, ardendo com alegria. E quando, ao rumor da janela perra, ela levantou os olhos luzidios e espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:
- Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janela...
- E para mim, primo Gonçalo, que o não via desde a sua volta de Lisboa!... Pois está mais lindo,assim de bigode...
- Dizem que estou lindíssimo, absolutamente irresistível! Até aconselho à prima Maria que senão aproxime muito de mim, para se não incendiar.
Ela deixou pender desoladamente nos braços o seu pesado molho de rosas:
- Ai Jesus, então estou perdida, que ainda agora prometi à prima Graça jantar cá esta tarde!... Oh Gracinha, por quem és, põe um biombo entre os dois!
Gonçalo gritou, pendurado da varanda, já deliciado com os chistes da prima Maria:
- Não! enfio eu um abat-jour pela cabeça para atenuar o meu brilho!... E o maridinho, os pequenos? Como vai o nobre rancho?
- Vivendo, com algum pão e muita graça de Deus... Então até logo, primo Gonçalo! E sejamisericordioso!
E ainda ele ria, encantado - já a prima Maria, depois de cochichar e de estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, desaparecera pela porta envidraçada da sala com a sua elegância esgalgada. Gracinha, lentamente, subiu os três degraus de mármore do jardim. Da varanda, Gonçalo ainda avistou através da ramaria leve, entre as sebes de buxo, o penteador branco, os fartos cabelos caídos, reluzindo no sol como uma cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas, desapareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.
Mas Gonçalo não se arredou de entre as janelas, limando vagamente as unhas, espreitando pelas cortinas, numa desconfiança, quase num terror que o Cavaleiro de novo surgisse na pileca - agora que Gracinha se embrenhara para os lados desse cômodo Mirante, construção do século XVIII, imitando um Templozinho do Amor, que rematava o longo terraço do jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a calçada permanecia silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do Palacete e do Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da espionagem - certo que a irmã não se mostraria ao Cavaleiro na varandinha do Mirante, assim com os cabelos em desalinho, por cima dum penteador.
E cerrava a porta, quando se encontrou diante dos braços do Padre Soeiro, que o prenderam pela cinta com afago e respeito.
- Oh! meu ingratíssimo Padre Soeiro! - exclamava Gonçalo, batendo ternamente nas gordascostas do capelão. - Então que feia ação foi esta? Mais de um mês sem aparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre Soeiro já não há Gonçalinho, há só Gracinha...
Enternecido, quase com uma lágrima a bailar nos mansos olhos miúdos, que mais negrejavam entre a frescura rósea da face roliça e a cabecinha branca como algodão - Padre Soeiro sorria, fechando as mãos sobre o peito da batina de alpaca, donde surgia a ponta de um lenço de quadrados vermelhos. E não lhe escasseara certamente o desejo de ir à Torre. Mas aquele trabalhinho na Biblioteca do Paço do Bispo... Depois o seu reumatismozito... Enfim a Sra. D. Graça sempre esperando S. Exa., um dia, outro dia...
- Bem, bem! - acudiu alegremente Gonçalo, contanto que o coração não se esquecesse da
Torre...
- Ah! esse! - murmurou Padre Soeiro com comovida gravidade.
E pelo corredor de paredes azuis, adornadas com gravuras coloridas das batalhas de Napoleão, Gonçalo resumiu as novidades da Torre:
- Como o Padre Soeiro sabe, rebentou aquele escândalo do Relho... E ainda bem, porque concluí um negócio esplêndido. Imagine! Arrendei há dias a quinta ao Pereira Brasileiro, ao Pereira da Riosa, por um conto cento e cinqüenta mil réis...
O capelão suspendeu a pitada, que colhera numa caixa de prata dourada, pasmado para o Fidalgo:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.