Por Camilo Castelo Branco (1862)
Empenhei a minha casa para sustentar a gazeta, que três vezes foi condenada na multa e custas. A final, quando me vi exaurido de recursos e cansado de lutar com a indiferença pública, achei em mim terrível analogia de destino com todos os redentores intempestivos da humanidade, e bebi o meu cálice até às fezes, as quais fezes eram pagar à fábrica de papel as últimas cinquenta resmas, que eu fizera gratuitamente distribuir por esta raça de ingratos portugueses que, de três em três meses, mandavam vender o jornal às tendas.
Compenetrei-me da estolidez das minhas aspirações a desencharcar da lama um povo aviltado e cego de sua estupidez. Foi uma terrível decepção esta que me deu à cabeça os tratos que as mulheres de Lisboa me tinham infligido ao coração. Vi que o homem grande, neste país, no mesmo ponto em que hasteia o estandarte da redenção, aí, de força, há-de amargurar as torturas do seu Gólgota. Achei-me extemporâneo neste século e cobri com as mãos o rosto envergonhado, como os mártires da liberdade romana, que velavam com a túnica o rosto e diziam aos pretorianos: “Matai, escravos!”
Após alguns meses de devorantes cogitações sobre o futuro desta terra, fui à minha aldeia vender uma tapada, e o milho de três colheitas, e tornei para o Porto, elaborando projectos que já não tinham que ver com o bem da sociedade. O egoísmo da cabeça, mil vezes mais odioso que o do coração, esporeava-me a falsificar os mais sagrados sentimentos, mascarando-os de modo que a sociedade me desse a desforra das agonias com que remunerara a minha dedicação e o custeamento do jornal, um ano e tantos meses.
O meu pensamento era casar-me rico e fechar os olhos temporariamente ao horizonte onde o desejo via uma pasta de ministro e onde a realidade me mostrava aquela terrível coisíssima nenhuma do Sr. Júlio Gomes da Silva Sanches, admirável em seus dizeres.
PÁGINAS SÉRIAS DA MINHA VIDA
I
Vi no baile do barão de Bouças as três herdeiras mais ricas da sociedade portuense. Das três , a mais velha e rica era viúva e regularmente feia. A mais nova tinha uns longes sedutores: mas, examinada ao pé, era uma cara sem vida, coisa muito parecida com a alvura de leite, encarnada nas maçãs do rosto, como as bonecas de olhos de vidro, e beiços purpurinos de malagueta. A terceira era uma verdadeira mulher, trigueira como as predilectas de toda a gente.
Consultei a minha cabeça, e a cabeça me disse que requestasse a viúva. Senti que o coração punha embargos; mas a veleidade foi de momentos. Caiu-lhe em cima a cabeça com todo peso da razão; e o pobrezinho, que já não servia para mais que centro das funções sanguíneas, gemeu, contorceu-se e amuou.
À roda da viúva giravam os mais graúdos paraltas do Porto, sujeitos que andavam sempre de esporas e que se frisavam todas as manhãs para irem passar as tardes em casa do seu alfaiate, discutindo as belezas de uma lapela de fraque e a lista mais ou menos enflorada das pantalonas.
Eram estes os terríveis açambarcadores das almas das senhoras do Porto; mas com almas se comentavam, como convinha a pessoas puramente espirituais.
Pedi que me apresentassem à viúva. O elegante de quem solicitei este favor, antes de me apresentar, disse-me:
- Fala-lhe de mim, a ver o que ela te diz.
- Vê-se que a amas... - atalhei eu.
-Amo deveras; mas não lhe amo a fortuna.
- A fortuna é galicismo - interrompi com azedume. - Diz antes os haveres. Morra o homem de paixão, sendo necessário, mas salve-se a língua dos Lucenas, dos Sousas e dos Bernardes.
Este meu amigo incorrecto foi depois dizer a outro que eu era tolo. A ignorância é muito atrevida!
Falei com D. Justina Mendes, e para logo adivinhei que dentro daquele peito não havia senão membranas, tecidos adiposos e ossos com as respectivas cartilagens. Fez-me doer a cabeça com três palermas respostas que me deu. Perguntando-lhe eu se tinha saudades do seu tempo de casada, respondeu-me:
- O boi solto lambe-se todo.
Devia dizer vaca, se gostava do anexim.
Perguntei-lhe se amava os bailes. Resposta:
- Bons bailes é cada um em sua casa. A terceira pergunta:
- Que juízo faz Vossa Excelência do cavalheiro a quem eu devo o favor de lhe ser apresentado? - Não é feio; mas eu não gosto - respondeu.
- Então de quem gosta, minha senhora?
- De ninguém: tomara eu que me deixem.
- Vossa Excelência há-de necessariamente gostar de caldo de repolho com feijão branco - repliquei.
Esta facécia de mau gosto foi ouvida, repetida e lançada à circulação por duas senhoras que nos ouviam atentas.
D. Justina envesgou-me os olhos e murmurou:
- Não acho graça nenhuma ao seu atrevimento. - E, voltando a cara, sentou-se de esguelha.
Tornando ao apresentante, disse-lhe que a viúva o achava bonito.
Pedi que me apresentassem à mulher trigueira, e logo me disseram que não gastasse o meu tempo com um coração rendido aos encantos de Josino.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.