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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Escutava o filho de Eulália o discurso de D. José, lardeado de facécias, e, por vezes, atendível por umas razões que se lhe cravavam fundas no espírito. As réplicas saíam-lhe frouxas e mesmo timoratas. Já ele se temia de responder coisa de fazer rir o amigo. Violentava sua condição para igualar na licença da ideia e, por vezes, no desbragado da frase. Sentia-se por dentro reabrir em nova primavera de alegrias para muitos amores, que se haviam de destruir uns aos outros, a bem do coração desprendido salutarmente de todos. A sua casa de Buenos Aires aborreceu-a por afastada do mundo, boa tão-somente para tolos infelizes que fiam do anjo da soledade o depenarem-se, chorando. Mudou residência para o centro de Lisboa, entre os salões e os teatros, entre o rebuliço dos botequins e concurso dos passeios. Entrou em tudo. As primeiras impressões enjoaramno; mas, à beira dele, estava D. José de Noronha, rodeado dos próceres da bizarria, todos porfiados em tosquiarem um dromedário provinciano que se escondera em Buenos Mies a delir em prantos uma paixão calosa, trazida lá das serranias minhotas. Ora, Afonso de Teive antes queria renegar da virtude, que já muito a medo lhe segredava os seus antigos ditames, que expor-se à irrisão de pessoas daquele quilate. E verdade que às vezes duas imagens lagrimosas se lhe antepunham: a mãe e Mafalda. Afonso desconstrangia-se das visões importunas, e a si se acusava de pueril visionário, não emancipado ainda das crendices do poeta inesperto da prosa necessária à vida.

Escrever, porém, a Teodora, não vingaram as sugestões de D. José. Porventura, outras mulheres superiormente belas, e agradecidas às suas contemplações, o traziam preocupado e algum tanto esquecido da morgada da Fervença. Mas, um dia, Afonso, numa roda de mancebos a quem dava de almoçar, recebeu esta carta de Teodora.

Compadeceu-se o senhor. Passou o furacão. Tenho a cabeça fria da beira da sepultura, de onde me ergui. Aqui estou em pé diante do mundo. Sinto o peso do coração morto no seio; mas vivo eu, Afonso. Meus lábios já não amaldiçoam, minhas mãos estão postas, meus olhos não choram. O meu cadáver ergueu-se na imobilidade da estátua do sepulcro. Agora não me temas, não me fujas. Pára aí onde estás, que as tuas alegrias devem ser muito falsas, se a voz de uma pobre mulher pode perturbá-las.

Olha... se eu hoje te visse, qual foste, ao pé de mim, anjo da minha infância, abraçavate.

Se me dissesses que a tua inocência se baqueara à voragem das paixões, repeliate.

Eu amo a criança de há cinco anos e detesto o homem de hoje.

Serena-te, pois. Esta carta que mal pode fazer-te, Afonso? Não me respondas: mas lê. À mulher perdida relanceou o Cristo um olhar de comiseração e ouviu-a. E eu, se visse passar o Cristo, rodeado de infelizes, havia de ajoelhar e dizer-lhe: "Senhor! Senhor" é uma desgraçada que vos ajoelha e não uma perdida. Infâmias uma, só não tenho que a justiça da Terra me condene. Estou acorrentada a um dever imoral, tenho querido espedaçá-lo, mas estou pura. Dever imoral... porque não, Senhor! Vós vistes que eu era inocente; minha mãe e meu pai estavam convosco.

Abafaram-me numa jaula; eu queria amar-vos fora dos violentos ferros, deixei-me matar diante da vossa imagem por um sacerdote do vosso culto. O vosso sacerdote, Senhor Deus da Justiça, praticou uma imoralidade, levantando sobre as faculdades desta alma esmagada o patíbulo do meu coração. Foi imoral o dever, que me legislaram em vosso nome, Senhor E eu, sem vociferar contra o mundo, que me arroxeia a gonilha no pescoço, a vós ajoelho, Deus dos réprobos das alegrias deste mundo, exorando-vos que me deis um amigo. "

E o que eu diria ao Deus da adúltera e da Madalena, Afonso. E o Senhor piedoso havia de ouvir-me, e de tua alma fulminada pela inspirativa misericórdia do Justo dos justos sairia um gemido piedoso por a mulher desamparada. SÊ MEU AMIGO!

Recusava-se Afonso a deixar ver a carta: era, porém, uma descortesia sonegá-la, entre moços, que francamente haviam ali relatado, à competência, as façanhas amorosas dos últimos quinze dias.

- Homem indigno da nossa estima! -exclamava D. José de Noronha.-Orande cínico!, podes tu negar aos teus amigos dois minutos do inocente prazer de ouvirem o estilo de uma Sevigné provinciana, que, para ser mulher da época, só lhe falta afeiçoarse a um homem que lhe rasgue os horizontes de um destino esplêndido!? Venha a cana!

- A carta! a carta! - exclamaram todos, empunhando os copos.

- Um brinde à formosa das montanhas! - bradou D. José.

- Depois de lida a epístola! -emendou um comensal.

- Antes e depois!-redargiu o proponente do brinde, e ajuntou: -Â saúde de Teodora, bela e espirituosa, amada e amantíssima, pura quanto pode sê-lo a mulher que nos braços de um marido reserva para o homem amado a virgindade do coração!

- A saúde de Teodora! -conclamaram todos, exceptuando Afonso, cujo aspecto arguia tristeza.

Seguiu-se um brinde entusiástico ao ditoso Afonso, que sobrepunha a formosa minhota a quantas lisboetas de tez e olhos árabes lhe tinham oferecido a alma num sorriso. Afonso agradeceu, com um gesto de mal dissimulado dissabor. Reiteraram os convivas o pedido da carta. Afonso hesitava ainda. O mais ébrio daquela mocidade patrícia, representante dos mais ilustres apelidos da época heróica de Portugal, ousou tomar a carta de sobre a mesa e abri-la com estrondosos aplausos dos. outros. Afonso de Teive estendeu impetuosamente o braço e tirou a carta da mão do hóspede.

- Isto é um insulto a todos! - exclamou D. José de Noronha.

- Não é insulto - replicou o de Ruivães -, é preito a todas as mulheres, e com especialidade às desgraçadas.

Disse e incendiou o papel na chama do castiçal em que acendiam os charutos. O tom amargo daquelas palavras comoveu os convivas, que, por bom acerto, se encontraram todos de índole sentimental, quando as vaporações alcoólicas lhes enublavam a porção intelectual, que era neles diminuta, como de direito heráldico. D. José, compondo o rosto de uns vislumbres de rectidão e bom discurso, perorou acerca da probidade de Afonso e, em nome dos comuns amigos, agradeceu a lição e levantou novo brinde ao hospedeiro moço que tão digno era da estima dos homens como da confiança das mulheres.

(continua...)

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