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#Romances#Literatura Brasileira

Ressurreição

Por Machado de Assis (1872)

A descoberta fê-lo sorrir. Seria aquilo a razão da mudança que notara nela? Nesse caso sabia já da afeição que o ligava à viúva, talvez do projetado casamento. Era possível também que a volta dela à casa de seus pais não tivesse outro motivo. Por mais isento que seja o espírito de um homem, é raro que o não lisonjeie uma afeição assim, medrosa e silenciosa, nascida e vivida na soledade da alma. Félix sentiu primeiro essa impressão de egoísmo. Veio depois outro sentimento melhor, o de uma respeitosa admiração. Seu pensamento entrou a conjeturar a data daquele singular amor; à proporção que se internava nos dias do passado, ia combinando uma série de episódios esparsos, aparentemente vagos, agora significativos e eloqüentes. Não era recente a afeição dela; era talvez anterior à sua enfermidade.

Chegara o sábado, véspera da partida de Raquel. Era de noite. Félix estava em casa da viúva, e ambos, e Raquel, e até Viana todos pareciam preocupados e tristes. O médico olhava para a filha do Coronel, sem reparar que os olhos de Lívia seguiam os seus e como que buscavam ler por eles os sentimentos do coração.

Raquel esquivava-se às atenções do médico. Em certa ocasião, porém, - achando-se Félix mais afastado, - aproximou-se dele com um livro.

— Já leu este romance? perguntou ela.

— Deixe ver disse Félix, convidando-a com um gesto a sentar-se.

Raquel não se sentou; estendeu-lhe o livro, e olhou com insistência para o médico. Félix pegou no livro e consultou a primeira página; ia voltar distraidamente a segunda, quando lhe caiu nos joelhos um papelinho dobrado. Raquel voltou assustada a cabeça para lado de Lívia, que de pé, junto do piano, tirava notas soltas do teclado, sem olhar para o grupo. Raquel fez ao médico um sinal de silêncio e afastou-se dele. Félix guardou o papel no bolso.

"Quase uma criança!" ia ele pensando quando se retirava para casa depois do chá. Quando ali chegou não se deu ao trabalho de tirar o chapéu. Abriu a carta logo na sala. Dizia a carta:

"Pela memória de sua mãe, não seja cruel! Lívia ama-o muito. Não a faça morrer, que seria um pecado!"

Félix esfregou os olhos e releu o bilhete.

Não havia negá-lo; a letra era de Raquel e o conteúdo era uma súplica a favor da rival. Não sorria o médico, estava atônito. A verdade, tão inverossímil desta vez, metia-se-lhe pelos olhos, singela eloqüente, espontânea. Espontânea seria? Félix fez essa pergunta a si mesmo, e afirmativamente lhe respondeu, não atribuía à viúva tamanha influência, nem à donzela tamanha submissão, que uma inspirasse e a outra escrevesse aquela carta. A cousa pareceu-lhe o que realmente era: um sacrifício de Raquel.

Félix não era homem de grandes expansões; mas, se Raquel estivesse diante dele naquela ocasião, era capaz de cair-lhe aos pés. Abafar uma afeição silenciosa, a primeira talvez, para pedir a felicidade de outra mulher, era abnegação rara, que o surpreendia. A ação de Raquel fez-lhe esquecer por algum tempo a viúva, objeto da carta que acabava de ler. Raquel não afirmaria tão claramente os sentimentos da amiga, se não tivesse plena certeza deles. Como conciliaria, entretanto, a afirmação de hoje como a suspeita de ontem? A mesma Raquel lhe insinuara diversa inclinação da viúva. Naturalmente reconhecera o contrário. A idéia da reabilitação de Lívia para logo dominou o espírito de Félix. Seu amor existia no mesmo estado de força e viço; fácil de desmaiar, não era menos fácil de se restabelecer. No dia seguinte parecia desfeita a nuvem que por alguns dias o abafara.

Foi à casa da viúva; era uma hora da tarde. Tinha curiosidade de encarar a filha do coronel. Achou-a tão alegre e travessa como era dantes. Era assim aparentemente- os olhos estranhos não viam a mágoa interior e encoberta que lhe roía o coração. Seu infortúnio tinha pudor.

Ao médico era impossível encobrir esse estado. A tocante generosidade da moca fez-lhe bem ao coração. Teve ele a delicadeza de não tratar a viúva por modo que magoasse a donzela; mas, tão outro se mostrava do que fora até então, que a viúva não pôde resistir lhe, e aquele dia foi muito menos triste que os outros.

As travessuras de Luís faziam coro com as de Raquel. A porta da sala estava aberta. Luís desceu os degraus que comunicavam da sala com o jardim, na ocasião em que Lívia fechava uma pulseira de Raquel. Quando a viúva deu por falta do filho, correu à porta. O menino corria na direção da porta da rua. A mãe desceu atrás dele.

Raquel ia descer também; Félix pegou-lhe na mão. A moça estremeceu toda; afoguearam-se-lhe as faces, e ela balbuciou:

— Leu a minha carta?

— Li, respondeu Félix cravando nela um olhar que era a um tempo de simpatia e de pena. Li, e não sei se deva crer o que lá me diz.

— É a verdade.

— Mas então supõe!...

— Que ela o ama, afirmo-lho.

— E que eu a amo também? perguntou com hesitação.

— Isso... creio, assentiu Raquel, abaixando os olhos.

Félix calou-se. Decorreram dous ou três minutos de silêncio. Raquel continha com dificuldade os movimentos do coração. Preferia estar a cem léguas dali, mas lembrava-se da outra e isso lhe dava ânimo.

O médico foi o primeiro que falou:

—Como sabe que ela me ama?

— Sei, respondeu Raquel sorrindo com afetação, e é quanto basta. Demais, nenhuma moça escreveria semelhante carta a um homem se não tivesse certeza do que afirmava. Só lhe peço uma cousa: destrua essa carta. Nada vale, mas eu não quisera que a conservasse.

(continua...)

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