Por Coelho Neto (1890)
Era um sombrio prédio entre velhíssimas árvores copadas, cujos ramos altos faziam uma abóbada impenetrável ao sol. As paredes, pintadas de um verde amarelado, pareciam cobertas de limo. Os canteiros esquecidos estavam invadidos pelo mato, as aléias eram úmidas e tinham placas lutulentas, de um aveludado fino.
Velho negros, encolhidos pelos cantos, cochilavam preguiçosamente e, dia e noite, como em Scylla, era um uivar dolorido e longo, porque o visconde, grande amador de montarias, quando descia da sua fazenda, em Pinheiros, para passar no Rio os curtos invernos, trazia as suas trelas famosas que davam trabalho a dois negros e a um veterinário, sempre bêbedo e armado de lanceta, contra o qual os animais investiam, apavorados, quando o viam aparecer cambaleando.
Dois cavalos de sangue, altos e esgalgados, passeavam pelas aléias levados por um moço de estrebaria que os preparava, havia anos, para disputarem o grande prêmio, posto que o fidalgo já estivesse resolvido a metê-los nos varais do carro.
Nesse casarão, que tinha a gravidade claustral de um mosteiro antigo, dormindo um sono pacato à sombra quieta do arvoredo, vivia o visconde durante os meses chamados de inverno. Casto e sóbrio desde que, na Alemanha, ganhara certo mal que o trazia constantemente pelos consultórios e sempre a bradar contra as mulheres, observava rigorosa dieta, não indo além da canja, do frango e de um regrado copo de Bourgogne. Era um asceta elegante.
Para que o não vencesse a sedução demoníaca, atordoava-se à mesa, que era lauta e franca. Não queria ouvir rumor de saias; as próprias negras, que passavam como fugitivas sombras pelos imensos corredores reboantes, colhiam cuidadosamente os vestidos para que nem roçassem nas tábuas enceradas. O fidalgo detestava a mulher, tinha horror ao feminino, à sua mesa só homens apareciam e tantos que, dois expeditos copeiros, alípedes e solícitos, eram constantemente reclamados de um extremo a outro e acudiam com as imensas travessas e com as terrinas incomensuráveis. Não raro um conviva desconhecido fartava-se e saía sem ter trocado uma palavra, sem mesmo saber a qual daqueles homens, que chalravam e devoravam, devia a fineza de tão delicado almoço e o visconde, achando aquilo patriarcal, ficava satisfeito, ria, chupando, com ares saciados, a asa loura do frango.
Ah achava Ruy Vaz conforto e fartura. Entrava de fronte alta e os convivas acatavam-no, porque o visconde o considerava, não o dispensando à mesa, querendo-o sempre perto para as tremendas discussões.
O visconde era lido em Cantu e discutia, com ardor, a história, tendo grande simpatia pelos tiranos. Luiz XI era o seu homem. À mesa a sua opinião era como um oráculo. Luiz XI era o homem da mesa e como, entre os comensais, havia um dotado de excelente voz de barítono, não raro o nome do rei carola era retumbantemente apregoado em uma ária escrita expressamente por um músico misterioso para o possante cantor. Só Ruy Vaz condenava o companheiro fiel de mestre Jacques Coictier. O visconde rugia, espumava; o casarão retumbava e os criados, tremendo, juntavam-se à porta, curiosos daquela desusada cena.
Purpúreo, brandindo a carcaça do frango, o fidalgo citava opiniões e Ruy Vaz invocava autores. Às vezes tornava-se necessária a intervenção de amigos para que os dois homens chegassem a um acordo, ficando, porém, o visconde na sua frase: que Luiz XI era o seu homem e insistindo Ruy Vaz em dizer que ele não passava de um grandíssimo patife.
E o visconde adorava o romancista, justamente porque nele encontrava um adversário. Sucedia-lhe com as opiniões o que a Polícrates sucedia com a fortuna — nunca era contrariado, como o tirano nunca teve desejo que não fosse satisfeito. E o fidalgo revoltava-se, tinha cóleras surdas, não podia sacudir a poeira que pousado sobre a sua erudição, tinha de roer em silêncio o seu frango.
— Homero foi uma besta! — exclamava o visconde; e a mesa em coro: "Uma veneranda besta!"
— Shakespeare foi um plagiário! — e o uníssono dos quarenta talheres: "Foi sim, senhor!"
Era horrível. Ruy Vaz indignava-se:
— Besta! Homero...? Besta é quem o chama. E travava-se a rezinga, mas o visconde sentia-se aliviado, aquilo fazia-lhe bem. Ruy Vaz era um homem bem diferente do barítono. Ah! O barítono...! Certa vez, depois do jantar, sentindo-se o visconde indisposto, chamou-o e disse-lhe:
— Ó coisa, dá umas voltas aí pelo parque, correndo, para ver se faço a minha digestão, que está hoje morosa. Contava o fidalgo com um protesto enérgico, mas desiludiu-se vendo o cantor atirar-se, pelo parque, às pernadas, como um gamo, bufando, perseguido pelos cães. E o visconde, triste quando o viu roxo e gotejando como um chuveiro, chamou-o:
— Obrigado, meu amigo. Sempre me fez bem essa corrida. Hás de fazer agora o mesmo todos os dias depois das refeições. Os médicos recomendaram-me exercícios. E o barítono, esfalfado, ofereceu-se para fazer mais algumas voltas se S. Exa. quisesse.
Ruy Vaz, não — era um amigo leal e um adversário teimoso como convinha.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.