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#Romances#Literatura Brasileira

Memorial de Aires

Por Machado de Assis (1908)

Assim é o destino dos namorados sem ventura; os próprios amigos, como Aguiar parece que é de Osório, tratam logo de outra coisa. Eles que se fiquem consigo. Nós passamos a tratar de algumas notícias de sociedade e das últimas notícias novelescas de Paris. Neste capítulo D. Carmo sabe mais que eu, e muito mais que o marido, que não sabe nada; mas Aguiar acompanhou a conversação como se soubesse alguma coisa. Ele compra-lhe os livros, que ela lê e resume para ele ouvir. Como a memória dele é grande, cita também as narrações escritas, com a diferença que ela, tendo impressão direta, a análise que faz é mais viva e interessante. Ouvi-lhe dizer de alguns nomes contemporâneos muita coisa fina e própria. É claro que, se o marido escrevesse também, achá-lo-ia melhor que ninguém, porque ela o ama deveras, tanto ou mais que no primeiro dia; é a impressão que ainda hoje me deixou.

Eu, para lhes ser agradável, — e um pouco a mim mesmo, porque os queria gozar também, — voltei ao assunto principal para ambos, que não seria Fidélia só, nem só Tristão, mas os dois juntos.

— Digam-me, se eles fossem irmãos e seus filhos, não seria melhor que apenas amigos e estranhos um ao outro?

Era a primeira vez que lhes dizia uma coisa destas, e o interesse foi tamanho que eles pegaram do assunto para dizer coisas interessantíssimas. Não as escrevo por ser tarde, mas cá me ficam de memória. Digo só que, quando saí, D. Carmo, apesar do joelho doente, e por mais que eu quisesse detê-la, veio comigo à porta da sala. Aguiar acompanhou-me até à porta do jardim, enquanto ela veio à janela, donde se despedia ainda uma vez.

— Olhe o sereno, boa-noite, disse-lhe eu cá de baixo.

— Boa-noite.

D. Carmo entrou. Aguiar e eu apertamos a mão um do outro. Indo a sair, lembrou-me falar do cão ali sepultado. Não lhe falei logo, dei três ou quatro investidas, mas tão rápidas que, se gastei um minuto, foi o mais; nem tanto. Aguiar ouviu-me espantado e constrangido.

— Quem lhe contou isso?

— O Dr. Tristão.

Não lhe quis citar o Campos, que também me falou do animal. Aguiar confessou calando, depois falando, mas não falou muito. Confirmou que tiveram muita amizade ao bicho. e referiu-me os padecimentos que a doença e a morte deste produziram na mulher. Não disse os seus, mas também os tivera; olhou uma vez para o lado da parede, e depois de uma pausa:

— Tristão riu-se naturalmente do nosso carinho?

— Ao contrário, falou-me com muito louvor; tem bom coração aquele rapaz.

— Muito bom.

Apesar de não ser dado a melancolias, nem achar que o ofício de banqueiro vá com tais lástimas, separei-me dele com simpatia. Vim pela Rua da Princesa, pensando nele e nela, sem me dar de um cão que, ouvindo os meus passos na rua, latia de dentro de uma chácara. Não faltam cães atrás da gente, uns feios, outros bonitos, e todos impertinentes. Perto da Rua do Catete, o latido ia diminuindo, e então pareceu-me que me mandava este recado: "Meu amigo, não lhe importe saber o motivo que me inspira este discurso; late-se como se morre, tudo é ofício de cães, e o cão do casal Aguiar latia também outrora; agora esquece, que é ofício de defunto".

Pareceu-me este dizer tão sutil e tão espevitado que preferi atribuí-lo a algum cão que latisse dentro do meu próprio cérebro. Quando eu era moço e andava pela Europa ouvi dizer de certa cantora que era um elefante que engolira um rouxinol. Creio que falavam da Alboni, grande e grossa de corpo, e voz deliciosa. Pois eu terei engolido um cão filósofo, e o mérito do discurso será todo dele. Quem sabe lá o que me haverá dado algum dia o meu cozinheiro? Nem era novo para mim este comparar de vozes vivas com vozes defuntas.

20 de setembro

Aquele dia 18 de setembro (anteontem) há de ficar-me na memória, mais fixo e mais claro que outros, por causa da noite que passamos os três velhos. Talvez não escrevesse tudo nem tão bem; mas bastou-me relê-lo ontem e hoje para sentir que o escrito me acordou lembranças vivas e interessantes, a boa velha, o bom velho, a lembrança dos dois filhos postiços... Continuo a dar-lhes este nome, por não achar melhor... Principalmente aquela felicidade média ou turva de pessoas que vão perder um de dois bens do céu, essa expressão que vi em D. Carmo mais forte ainda que no Aguiar...

21 de setembro

Ao sair hoje de casa, vi passar na rua, do lado oposto, a irmã do corretor Miranda, D. Cesária, tão risonha que parecia falar mal de mim, mas não falava, ia só,—ou falava de mim consigo; mas só consigo não teria tanto prazer. Cumprimentamo-nos e seguimos.

22 de setembro

...encantadora Fidélia! Não escrevo isto porque a deseje, mas porque é assim mesmo: encantadora! Pois não é que esta criatura de Deus, encontrando-se comigo de manhã, veio agradecer-me a companhia que fiz aos seus amigos do Flamengo, na noite de 18?

— Não tive merecimento nisso; fui lá, achei-os sós, passei a noite.

— Isso mesmo, D. Carmo disse-me que, se não foi uma noite cheia, foi só por lhe faltarmos o Dr. Tristão e eu, mas que, ainda assim, o senhor teve o dom de nos fazer esquecer.

(continua...)

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