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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Os ourives celebraram-se com o carro Triunfo do Rio de Janeiro.

Os marceneiros, carpinteiros e pedreiros distinguiram-se com seu muito aplaudido carro Emblemático.

Os alfaiates e sapateiros excederam a expectativa geral com o seu descomunal carro da Barra do Rio de Janeiro.

Ora, esses carros assinalavam (pelo menos alguns) ruas distintas; por exemplo: o dos ourives a rua do mesmo nome: o dos latoeiros e caldeireiros as dos Latoeiros, da Alfândega, etc.

E a Rua do Ouvidor ainda era tão pobre ou tão bisonha, que não fez farofa nas festas de 1818, e nem mesmo consta que fosse a elas em sege de aluguel!..

Mas era tempo!...

A carta de lei de 16 de dezembro de 1816, elevando o Brasil a reino, foi considerada de tanta importância política, que o príncipe regente D. João a fez solenemente comunicar aos governos das grandes potências da Europa, recebendo em resposta felicitações e aplausos.

Na cidade do Rio de Janeiro o corpo do comércio lembrou-se, bem inspiradamente, de festejar a elevação do Brasil a reino, oferecendo ao príncipe regente o produto de espontânea e avultada subscrição pecuniária para se fundar um instituto de artes e ciências na capital do novo reino e então da monarquia portuguesa.

O príncipe regente aceitou o oferecimento e determinou a fundação de uma escola real de ciências, artes e ofícios na cidade do Rio de Janeiro.

Escala de ciências, artes e ofícios era universo a criar; mas ainda bem que, embora as ciências e os ofícios ficassem de lado, vingaram as artes, pois que a subscrição do comércio e a deliberação do príncipe regente teceram o abençoado berço da nossa já gloriosa Academia das Belas-Artes, mãe de Porto Alegre, de Vitor Meireles, de Pedro Américo e de outras justificadíssimas ufanias do Brasil.

Mas em 1815 firmara-se no congresso diplomático de Viena a paz geral da Europa, e a França de Luís XVIII, tornada potência amiga, teve também abertos os portos do Brasil para o seu comércio.

Entretanto os franceses ainda abatidos pela guerra, pela opressão dos vitoriosos invasores do seu opulento e arruinado país, e pelos trabalhos de sua regeneração econômica, nem se lembravam talvez do Brasil.

Todavia tratando-se no Rio de Janeiro do Instituto das Artes, como a França gozasse fama de florescente em Belas-Artes, o Príncipe Regente, e logo Rei D. João VI, mandou engajar escolhidos mestres franceses, pequena que foi grande colônia de artistas pelo merecimento real e provado de alguns deles.

A 26 de março de 1816 chegaram esses artistas ao Rio de Janeiro, sendo os primeiros franceses que vieram estabelecer-se no Brasil depois da paz geral da Europa e dos tratados de Viena d'Áustria em 181S.

Os franceses entraram pois com o pé direito e três vezes com o pé direito no Rio de Janeiro.

Entraram pelas portas da paz.

Entraram trazendo por vanguarda célebre colônia dos artistas enobrecidos pelo seu merecimento.

Entraram amigos quando ainda fervia o entusiasmo pela elevação do Principado do Brasil à categoria de Reino.

Entraram, portanto, em regra, e três vezes com o pé direito.

Todavia a Rua do Ouvidor ainda teve de esperar cerca de cinco ou seis anos o começo de sua época de florescimento e de glória, e para mim a razão é muito simples.

Não foi de francesas, foi de franceses a colônia artística que chegou ao Rio de Janeiro a 26 de março de 1816, e não era a palheta do pintor, nem o buril do estatuário, era somente a tesoura das modistas que havia de levantar o monumento da Rua do Ouvidor.

Também não me consta que algum daqueles artistas fosse morar à Rua do Ouvidor; e que nela se estabelecessem alguns franceses negociantes que quase logo os seguiram, e que abriram de preferência na Rua Direita lojas de louça fina, de ornamentos de salas e de objetos de fantasia.

Eu ia fazer ponto final, quando lembrei que escrevi todo histórico e positivo este capítulo IX das Memórias da Rua do Ouvidor; e tão positivo e tão sério que me parece que ficou medonho.

Pois bem, vou pôr-lhe um ligeiro apêndice embora estranho à Rua do Ouvidor; dando, porém, notícia (hoje de poucos sabidas) da primeira francesa que teve certa nomeada na cidade do Rio de Janeiro.

Em 1818, calculando talvez com as festas da coroação do rei e do casamento do príncipe, e precisando afastar-se da França, onde se arreceava das disposições menos benignas do governo de Luís XVIII, aportou à cidade do Rio de Janeiro e nela estabeleceu-se, vendendo ricos vasos ornamentais de salões e de mesas de banquete, porcelanas finíssimas e outros objetos de luxo, Mr. F. B. que acompanhara o Imperador Napoleão em suas últimas campanhas como oficial não sei de que patente, mas de confiança privada.

(continua...)

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