Por Gregório de Matos (1696)
Tanto cada qual se estira
nos refegos, que trazia,
que nos canos parecia
óculo de longa mira:
porém a mim não me admira,
que esta, e aquela putinha
desse a saia, e a vasquinha
pela cura, e pelo enredo,
senão que rompa o segredo
para perder a mezinha.
O Cura soube da cura,
e ao céu levantando as palmas
disse, que em curar as almas
ele somente era o Cura:
e porque de acusar jura
ao cabra das pataratas,
e em conseqüência às Mulatas,
elas ao Cura temeram,
e como a cura perderam,
ficaram muito malatas.
Sobre isto houve matinadas,
fostes vós, e não fui eu,
o cabra a vida perdeu,
e elas estão mal curadas:
as porras acrescentadas
estão na sua medida,
a meizinha está perdida,
o dinheiro se gastou,
e porque Chica falou,
anda de medo fugida.
Houve grande desafio
do sítio para a Catala,
na Antonica não se fala,
que enfim foi Moça de brio:
viu-se pendente de um fio
quase a Cajaíba toda,
e o que a mim mais me acomoda,
é, que vão durando as rinhas,
e arranhem-se as Mulatinhas
sobre a questão de uma foda.
A Custódia, e Antonica
se matam, porque se invejam,
sobre mais, ou menos pica:
o que a medicina aplica
ao mal da fodengaria
é, que a cada uma o seu dia
se dê para pespegar,
porque saibam conjugar
tu fodias, e eu fodia.
MORTO O CABRA LHE FAZ O POETA O TESTAMENTO NA MANEYRA SEGUINTE.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.