Por Eça de Queirós (1925)
ton a intimidade entre ambos. Aquelle applauso tornou-se-lhe então necessario. Rabecaz era o seu publico; julgava-o intelligente, de gosto muito certo, desde que elle admirava os seus versos ; leu-lhe successivamente todas as poesias dos Esmaltes e Joias e para o lisonjear nas suas antipathias clericaes — espirito effeminado, já adulava servilmente os instinctos do seu publico—compôz uma satyra contra os padres, a quem chamava «negros serventes d'um esterü dogma O seu cerebro pareceu degelar ao sopro quente d'aquella admiração grosseira; f.ez sonetos; e o que escrevia agora era sob a preoccupagão «do que diria o Rabecaz todavia era sempre a mesma a formula critica do Rabecaz : escutava com os braços cruzados, nobilitando a sua attitude na presença das rimas: se a poesia era lyrica e amorosa, tinha um riso mudo que lhe enchia a face de rugas, lhe mostrava a dentuça negra, e arrastando a. voz com deleite :
— Está catita !
Se era « uma peça philosophica», arregalava o olho, o nariz alongava-se-lhe, erriçava-se-lhe o bigode e rosnava cavamente :
— Está d'arromba !
E terminava por exclamap, com uma palmada no joelho :
— Caramba, Arthur, você deve ir p'ra Lisboa !
Você vae a ministro I
Arthur suspirava. A certeza que o Rabecaz lhe dava da celebridade em Lisboa — elle que a conhecia tão completamente — inflammara-lhe o desejo de lá. viver e ser uma das suas personalidades essenciaes. Lisboa era agora a sua necessidade, o seu ideal, a sua mania. Pensava que lá, na Capital, as suas faculdades se desenvolveriam prodigiosamente, como certas plantas raras que só medram em terrenos ricos ; ahj_ encontraria de certo as glorias do coração em amores aristocraticos, e, discutido nos folhetins, recitado nos theatros, muito alto na hierarchia das letras, poderia tafrez extrahil' uma fortuna dos cofres dos editores !
Tudo o que o cercava e o retinha, a casa das tias, a pharmacia do Vasco, lhe parecia então mais odioso ; tud.o na Villa lhe dava uma sensação de obscuridade que o abafava —as ruas que se lhe afiguravam estreitas como as idéas, as fachadas que eram inexpressivas como os rostos ; detestava aquella gente que nunca leria os seus versos, e que de certo o desprezava: o fiel de feitos que ao meio-dia passava na praça, com o seu saeco de lustrina cheio d'autos e o Carneiro (Ilie, de robc-dechambre, a face prospera e farta, fumava o seu cha- ruto á varanda ,
E trabalhava n'um ardor contínuo, forçando a imaginação diffieil, avido da terminação dos Esmaltes e Joias, como se elles fossem o fim de todas as suas desesperanças. As tias, o Vasco, achavamlhe uma c cara de desenterrado» e as pessoas que moravam na praga, olhavam quasi com compaixão aquelle moço triste, que passava de manhã e á tarde, d'olhos baixos, cabello muito comprido, encolhido no seu paletot côr de pinhão.
Andava, n'um desabafo, compondo uma Epistola em quadras, dedicada ao poeta que disse :
Eu nunca vi Lisboa e tenho pena
Arthur, sem o conhecer, tratando-o de tu, n'uma familiaridade de Parnaso, commungava na mesma ambição. E nas manhãs em que não havia trabalho na pharmaeia, era pelo seu quarto um passear desordenado, declamando :
Tambem eu nunca vi Lisboa, amigo,
Profunda Babylonia junto ao mar I
Oh t que me fosse dado ir iá comtigo
E ao lado, do peitoril da janella, estendendo o braço agaloado d'ouro, o Albuquerquezinho berrava n'um accesso :
— Orça a barlavento ! Cerra os traquetes da gavea ! Fogo !
Um sopro de loucura parecia correr n'aquelle andar da casa, emquanto em baixo, na sala, as tias faziam a sua meia e o gato branco dormia, n'uma restea pallida do sol de Novembro.
Foi por esse tempo que Arthur recebeu do Porto, do seu padrinho, o rico Guedes Craveiro, uma carta estranha, em que lamentava, ainda depois de dous annos, a morte fatal do meu nunca de mais chorado amigo Manuel Corvello fanava mysteriosamente d'um desgosto cruel com que a Providencia o visitara o mez passado » e prodigalisava phrases devotas, pedindo a Arthur que o não esquecesse nas suas orações.
Em post-scriptum, dizia que passaria em Ovar no sabbado, em viagem para Lisboa e seria uma alegria para o seu coração, poder apertn nos bracos e conhecer seu estremecido afilhado
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.