Por Eça de Queirós (1912)
Por que não descia do seu trono de ouro? Uma carícia da sua mão direita daria aos pobres a abundância, os frutos, as tulhas cheias de pão; e os bandos negros dos senhores cruéis desapareceriam como nuvens que o Sol desfaz, ao mover sua mão esquerda... Por que não vinha o Senhor?
As terras que Cristóvão atravessava estavam desoladas, até que, penetrando numa região mais amável e fértil, com pradarias, aldeias, viu ao longe longos fumos esguios que se elevavam para o céu. Um grupo de soldados derrubava árvores. E bem depressa viu as barracas de um acampamento. Era uma companhia de tunos. As tendas estavam alinhadas sem ordem, ao acaso. todos procurando a maior proximidade do rio. E como era à hora do rancho, viam-se os soldados, de bruços, mergulharem nas águas as grossas panelas de ferro. Por toda a parte, sobre as fogueiras acesas, suspensos de varas de ferro ensarilhadas, ferviam os caldeirões: - e junto aos carros, onde vinham as barricas de vinho roubadas nos casais e nos mosteiros, os homens juntavam-se com os seus pichéis na mão. Dois carniceiros esfolavam um boi estirado no chão: - e o trabalho era feito num rumor incessante de pragas e cantos.
Todos os homens, de barbas incultas, grandes cicatrizes nos rostos, imundos, tinham um curto saio de malha de ferro: e como estavam num país vencido, sem receio de surpresas, os morriões e os broquéis pendiam à entrada das tendas rotas, umas de lona, outras de peles de carneiro; sobre um cômoro era a dos chefes, com bandeiras flutuando. Por todo o acampamento circulavam mulheres, que seguiam os soldados, umas roubadas nos assaltos das aldeias, outras que acompanhavam, por deboche, o bando dos homens; todas tinham o ar cansado dos grandes furores que suportavam. Aqui e além, um monge descalço, com uma adaga na corda do hábito, o olhar ardente, ia de tenda em tenda. Alguns homens jogavam os dados. Outros limpavam as armas.
Os falcões gritavam sobre os seus poleiros, feitos de lanças.
Serenamente, na sua simplicidade, Cristóvão atravessou o acampamento.
Como os bandos cada dia recrutavam novos tunos, ou aprisionavam servos, ninguém estranhava a sua presença. “A quem pertences?” perguntavam-lhe. Ele atirava um gesto vago para as tendas. E julgando-o idiota, como todos os gigantes, deixavam-no ir, ou aproveitavam a sua força para mover os pipos, rachar lenhas, descarregar dos machos os grandes fardos amarrados com cordas. Tendo trabalhado, Cristóvão comeu e bebeu. A noite caiu: as estrelas luziram. Por toda a parte se acenderam fogos. Em torno deles os homens bebiam, jogavam os dados, ou escutavam um monge contando histórias do Diabo. Por vezes um grito de mulher espancada cortava o ar. As canções imundas abafavam o grito das sentinelas. E da colina, onde acampavam os chefes, vinha uma música doce de pífanos e atabales.
Cristóvão, no entanto, ia através das tendas. Se via um tuno ferido que punha pano nas chagas agachava-se para ajudar. Aos cavalos presos,que relinchavam voltando o focinho para água, ia buscar uma dorna cheia. E aliviava as mulheres dos fardos de lenha que os homens as obrigavam a acarretar. Ms aquela gente era má, queimava as aldeias, arrombava os sacrários, espancava duramente os animais, deixava as crianças morrendo à mingua nos silvados do caminho - e Cristóvão, alta noite, saiu do acampamento, pensando na sua simplicidade, que Jesus, seu amor, não o quereria entre aqueles corações duros.
Três dias e três noites caminhou, e penetrou por fim numa região de grande penúria. A terra seca, gretada, abandonada, nem produzia cardos. Toda a flor secara nas árvores. A cada instante, ossos de animais branquejavam nos caminhos. As gentes dos campos, que ele encontrava, não tinham mais que ossos sob os trapos que os cobriam, e os seus olhos brilhavam como os das feras. Por vezes, à beira de um riacho, viam-se mulheres, crianças maceradas, arrastando-se, devorando as raízes das árvores. Nas terras mais nuas, era a terra mesma que eles comiam às mãos cheias, entre lágrimas que lhes caíam nos dedos. Uma noite, passando junto de um cemitério, viu figuras sombrias, que, tendo desenterrado um morto, o talhavam em postas junto de uma fogueira. Depois foi um mendigo que lhe pediu para o proteger, porque a gente daqueles sítios atacavam os pobres mais fracos, para ter carne humana. Todo um dia Cristóvão caminhou com o mendigo às costas. E, batendo os dentes de horror, o mendigo contava de pais que comiam os filhos pequenos, de outros que atraíam os viajantes para os matar. Ao fim do dia, tendo posto o pobre coxo no chão para descansar, viu-o suspirar e morrer. De noite, por toda a parte luziam os olhos dos lobos, esfaimados também, correndo a roer os cadáveres. Negros bandos de abutres torneavam o ar.
E a dor de Cristóvão era tão grande que erguia os braços ao Céu, e gritava pelo Senhor. Ele decerto não escutava; À porta das ermidas, debalde o povo se apinhava, implorando misericórdia: os santos não desciam dos seus altares; as relíquias dos mártires pareciam ter perdido a força; e, desiludida do Céu, essa gente apedrejava os sacrários.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.