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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Bem! então logo conversamos ao almoço, Gracinha! Agora lavar, mudar de roupa, que nãoparo com estas infames comichões...

Barrolo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais espaçosos e alegres do Palacete, forrado de cretones cor de canário com uma varanda para o jardim, e duas janelas de peitoril sobre a rua das Tecedeiras e os velhos arvoredos do convento das Mônicas. Gonçalo impaciente despiu logo o casaco, sacudiu para longe o colete:

- Pois tu estás esplêndido, Barrolo! Deves ter perdido três ou quatro quilos. São naturalmente osquilos que Gracinha ganhou... Vocês, se assim se equilibram, ficam perfeitos.

Diante do espelho Barrolo acariciava a cinta, com um risinho deleado:

- Realmente, parece que adelgacei... Até sinto nas calças...

Gonçalo abrira o gavetão da rica cômoda de ferragens douradas, onde conservava sempre roupa (até duas casacas), para evitar o transporte de malas entre os Cunhais e a Torre. E ria, aconselhava o bom Barrolo a "adelgaçar" sem descanso, para beleza da futura raça Barrólica quando embaixo, na silenciosa rua das Tecedeiras, as patas de um cavalo de luxo feriram as lajes em cadência lenta.

Logo desconfiado, Gonçalo correu à janela, ainda com a camisa que desdobrava. E era ele! Era o André Cavaleiro, que descia ladeando, sopeando a rédea, para escarvar com garbo e fragor a rampa mal empedrada. Gonçalo virou para o Barrolo a face chamejante de furor:

- Isto é uma provocação! Se este descarado deste Cavaleiro passa outra vez na maldita pileca,por debaixo das janelas, apanha comum balde d'água suja!...

Barrolo, inquieto, espreitou:

- Naturalmente vai para casa das Lousadas... Anda agora muito íntimo das Lousadas... Semprepor aqui o vejo... E é para as Lousadas.

- Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, não há outro caminho para casa dasLousadas? Duas vezes em meia hora! Grande insolente! Tem uma chapada d'água de sabão, pela grenha e pela bigodeira, tão certo como eu ser Ramires, filho de meu pai Ramires!

Barrolo beliscava a pele do pescoço, constrangido ante aqueles rancores ruidosos que desmanchavam o seu sossego. Já, por imposição de Gonçalo, rompera desconsoladamente com o Cavaleiro. E agora antevia sempre uma bulha, um escândalo que o indisporia com os amigos do Cavaleiro, lhe vedaria o Club e as doçuras da Arcada, lhe tornaria Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da Ribeirinha ou da Murtosa, solidões detestadas. Não se conteve, arriscou o costumado reparo:

- Ó Gonçalinho, olha que também todo esse espalhafato só por causa da Política...

Gonçalo quase quebrou o jarro, na fúria com que o pousou sobre o mármore do lavatório:

- Política! Aí vens tu com a Política! Por Política não se atira água suja aos Governadores Civis.Que ele não é Político, é só malandro! Além disso...

Mas terminou por encolher os ombros, emudecer, diante do pobre bacoco de bochechas pasmadas, que, naquelas rondas do Cavaleiro pelos Cunhais, só notava o "lindo cavalo" ou "o caminho mais curto para as Lousadas!..."

- Bem! - resumiu. - Agora larga, que me quero vestir... Do bigodeira me encarrego eu.

- Então, até logo... Mas se ele passar nada de asneiras, bem?

- Só justiça, aos baldes!

E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrolo, que, pelo corredor, suspirando, lamentava o assomado gênio do Gonçalinho, as cóleras desproporcionadas em que o lançava

"a Política".

Enquanto se ensaboava com veemência, depois se vestia numa pressa irada, Gonçalo ruminou aquele intolerável escândalo. Fatalmente, apenas se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande guedelha, caracolando por sob as janelas do palacete, na pileca de grandes clinas! E o que o desolava era perceber no coração de Gracinha, pobre coração meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz de ternura pelo Cavaleiro, bem enterrada, ainda vivaz, fácil de reflorir... E nenhum outro sentimento forte que a defendesse, naquela ociosidade de Oliveira nem superioridade do marido, nem encanto dum filho no seu berço. Só a amparava o orgulho, certo respeito religioso pelo nome de Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira e mexeriqueira. A sua salvação seria o abandono da cidade, o encerrado retiro numa das quintas do Barrolo, a Ribeirinha, sobretudo a Murtosa, com a linda mata, os musgosos muros de convento, a aldeia em redor para ela se ocupar como castelã benéfica. Mas quê! Nunca o Barrolo consentiria em perder o seu voltarete no Club, e a cavaqueira da tabacaria "Elegante", e as chalaças do major Ribas!

Afogueado pelo calor, pela emoção, Gonçalo abriu a varanda. Embaixo, no curto terraço ladrilhado, orlado de vasos de louça, precedendo o jardim, Gracinha, ainda soltos os cabelos por cima do penteador, conversava com outra senhora, muito alta, muito magra, de chapéu marujo enfeitado de papoulas, que segurava entre os braços um repolhudo molho de rosas.

(continua...)

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