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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Pouca gente alcança os limites do desarranjo que estes envenenadores impunes causam nos costumes e na transmissão da espécie.

Estas mulheres desassisadas, que se imolam aos caprichos duma literatura, por não terem coisa séria em que empreguem a imensa energia do seu espírito, quando tornam a si, e se correm da sua inépcia, tarde vem o arrependimento, que, nos melhores anos, deram cabo das melhores forças. Obrigadas a viverem nos limites da razão, casam-se, e curam de reconstruir o edifício desconjuntado da saúde, comendo e bebendo e dormindo regularmente; mas as molas digestivas já têm então perdido as suas forças; os glóbulos cruóricos do sangue não se retingem jamais; as pulsações batem frouxas; o ar filtra ao pulmão por canais obstruídos; e não há contrapor à segunda natureza, formada por molestos artifícios, cuidados medicinais, que vinguem a antiga compleição deteriorada. Que frutos quereis que desentranhem estas árvores meladas e desmeduladas? Frutos pecos e outoniços, filhos enervados, e como flores mimosas fenecidas ao autor do sol, que lhes cai a prumo em plena vida.

Estas meninas de quinze anos, que eu hoje conheço no Porto, são as filhas das robustas donzelas, que me enchiam de satisfação os olhos na minha mocidade. Que degeneração! Vê-las numa sala é ver as virgens lagrimosas e lívidas, que se pintam nas criptas dos mosteiros góticos. Que tristeza de olhar e que dengoso fastio no falar! Quando se reclinam nas almofadas dum sofá parece que desmaiam narcotizadas; quando polcam, e se deixam ir arrebatadas nos braços dos parceiros, afigura-se-me que de sua parte não há mais acção nem movimento que o das asas, do ar que lhe agita a orla do vestido, volátil e vaporoso como éter. Que degeneração!

Ó mulheres do Porto, ó virgens saudosas da minha mocidade, ó santas da natureza como Deus as fizera, que é feito de vós, que fizeram de vós os romances, e o vinagre, e a Lua, e o pó de telha, e as barbas do colete, e os jejuns, e a ausência completa do boi cozido, que vossas mães antepuseram às mais legítimas e respeitáveis inclinações do coração?!

III

Naquele tempo, as minhas cogitações eram todas dirigidas por cálculos e raciocínios. O meu alvo mais remoto era ser ministro da coroa. Estavam as minhas faculdades regidas pela cabeça. As cabeças de alguns ministros, quando não tivessem outro préstimo, nem provassem outra coisa, muito puderam, convencendo-me da minha aptidão para os cargos superiores da república. Eu conhecia na intimidade uns homens de inteligência espalmada e cabeça escura como o cano duma bota; homens sem ciência nem consciência; rebotalhos da humanidade, arremessados à margem pela torrente caudal das transformações sociais; espíritos tolhidos de gota, sem saudades, sem crenças, nem aspirações; entulhos de má morte, que atravancavam todo o progresso e escarneciam com gosmento sorriso as expansões atrevidas da geração nova que a cada passo queria arvorar um marco de adiantamento. Conheci estes homens, e conheci-os ministros da coroa, sopesando debaixo dos pés chumbados à terra, que ameaçava engoli-los, a explosão das ideias e o peito da mocidade que se afrontava com o possante atleta da rotina.

Comecei a publicar uma série de artigos contra os velhos, e disse mesmo que era necessário matá-los, como na Índia os filhos faziam aos pais inválidos para o trabalho. Estes artigos criaram os meus créditos de estadista, e muitas simpatias. Escrevi o panegírico da geração nova, se bem que a geração nova não tinha feito coisa nenhuma. Disse que a mocidade estava a rebentar de cometimentos grandiosos em serviço dos interesses materiais do País. Todos os meus artigos falavam em cometimentos grandiosos e interesses materiais do País.

Naquele tempo fui convidado a alistar-me na maçonaria, e, depois de prestar os juramentos terríveis sobre uma bainha de espada, único objeto do ritual que então apareceu, fui proposto para orador da loja, e aí fiz os meus ensaios de eloquência sanguinária, pedindo diferentes cabeças, como quem pede confeitos pela Semana Santa. Os meus irmãos ouvintes, que tinham que tinham todos uns nomes de guerra medonhos, tais como Átila, Gengiscão e Alarico, tomaram-me tamanho medo que me foram denunciar à polícia como demagogo e me exautoraram das funções da palavra.

Assanhado pelos estorvos, que me embargavam o passo, escrevi contra a estupidez da geração nova, que não valia mais que a velha, e chamei os povos às armas. O ministério público deu querela por abuso de liberdade de imprensa contra o jornal, cujo redactor principal era eu. O jornal foi condenado e os assinantes não pagaram no fim do segundo trimestre.

(continua...)

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