Por Camilo Castelo Branco (1864)
Aos vinte e dois anos, aceitar longo tempo e voluntariamente um jugo de vida assim é virtude imaginária. Para outras civilizações, lá estava o deserto do anacoreta e a Palestina do cruzado: um e outro se deixavam devorar das angústias do ermo, ou cortar do ferro islamita; e lá iam encontrar-se no Céu, a cobrarem o seu património de alegrias infindas, ganho a troco de uma hora de orgulho satisfeito - que mais não é o contentamento desta breve fugida do ventre à sepultura. Nestes tempos, porém, a tanta luz, a tanto estrondo, em tamanho desentranhar-se a terra em novos enfeites de si própria, agora, que o céu se deixa contemplar, já não como paragem de futuras vidas, senão como estrelado envoltório deste globo cujas delicias nos foram dadas em desconto do breve tempo que as saboreamos; agora, em suma, que o viver sem gozar é um triste, se não estúpido, prelúdio da morte, em redor da sepultura, que loucura é esta de Afonso de Teive que não rompe mundo dentro, com seis mil cruzados de renda, vinte e dois anos, bizarria de fidalgo e fisionomia dotada de graças atractivas de todos os
- É certo - respondeu Afonso, quase envergonhado da confissão.
- Ó pobre José! ó malograda Hiêmpsal! Conheces bem a Hiêmpsal... a esposa do ministro de Faraó! Quantas capas tencionas assim deixar em lindas mãos!... Ai de ti, Afonso de Teive, que, afinal, saíras do inundo sem capa e coberto de lama!... Tu não sabes que estás em 1850 e que tens de alijar a carga de dois séculos, se não quiseres ir a pique, varar no ridículo inexorável com os homens da tua fortuna e da tua figura.
Origeneses fictícios, que nem sequer ressalvam com o estudo dos atributos divinos a sua ignorância dos atributos humanos... Pobre Teodora... a formosa mulher, que se rojava a teus pés, quando tu, por brio mesmo de tua vaidade ferida, devias ter ido beijarlhe os cabelos, e não arrancar-lhos. Pobre menina, casada com um homem chamado Eleutério... que mais?
- Eleutério Romão dos Santos - disse Afonso, sorrindo no tom imitante do dizer.galhofeiro do amigo.
- Eleutério Romão!... Eu não sei - prosseguiu D. José - se amaria a esposa de um homem chamado Eleutério!... Mas, nas condições de cara e estilo em que está Teodora, amaria, quer-me parecer que amaria, Afonso, obrigando-a a promover o crisma do cônjuge... Falemos sérios, sérios como rapazes, que têm o estrito dever de não serem palermas, do contrário seremos vitimas de todos os Eleutérios. É necessário que escrevas a essa mulher; isso não te priva de escreveres a outras muitas, visto que estás aqui a ares e tens a balda de escrever meditações... Que ratão és tu, Afonso! Eu, em Coimbra, achava-te uma graça! Quando tu publicavas no Trovador umas lamúrias lamartinianas. que davam ideia de seres um desgraçado, que vivias das brisas do claro Mondego, e tu, meu patarata, enquanto fazias chorar as meninas com os versos, emborcavas torrentes de conhaque por uma catadupa esponjosa que muitas vezes receei que me apeasses do meu pedestal... Patusco!... Falemos agora sério. Escreve à Teodora, se tens algum resto de pudor... Não me digas que estás sofrendo por ela, que deixastes por ela tua mãe, que renunciaste ao amor de um anjo, por causa dela... Não me digas tal, que eu nem posso admirar-te a virtude nem a parvoíce. A virtude seria medir o espaço que separa a tua alma do coração atraiçoado de Teodora e interpor nesse espaço trinta mulheres, contanto que te não privasses da companhia de tua mãe, nem lhe desses desgostos muito menores que este. Devias adorar tua prima porque era um anjo e devias desejar a outra porque era um demónio. Que fizeste tu quando ela casou? Choraste, e com tamanho agravo dos teus brios que consentiste que o mundo te visse chorar, a ti, rapaz de vinte anos, gentil, rico! Pondera bem nesta vilipendiosa calamidade, meu caro Afonso. Salta sobre dez anos de tua existência para diante e diz-me que nojo te há-de fazer este Afonso, quando o Afonso de 1860 achar que tem o mesmo nome e quase a mesma figura!...
E continuou por largo espaço neste sentido.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.