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#Romances#Literatura Brasileira

Ressurreição

Por Machado de Assis (1872)

Lívia não disse palavra. Se das comoções da sua alma algum vestígio lhe subiu ao rosto, disfarçou-lho a noite as vistas de Raquel. Ambas ficaram pensativas algum tempo. Uma forte rajada fê-las estremecer. Era sinal de chuva próxima; nuvens negras começavam a povoar o céu. As duas recolheram-se a casa.

— Vales mais do que eu, dizia a viúva entrando com Raquel na sala. Eu sou apenas egoísta; egoísta e nada mais. Guarda essas flores evangélicas do sacrifício, do perdão e do amor. São raras; e por isso e que és um anjo. Foi diferente a noite que ambas passaram.

Raquel estava mais tranqüila depois da conversa no jardim mas que destino teria a flor de sua alma, lírio transformado em goivo, vivido de lágrimas, medrado no silêncio? Não lhe apeteciam lutas. Faltavam-lhe as armas de combate: - a astúcia ou a energia; faltava-lhe principalmente o desejo de despertar um coração que sabia não ser seu.

Mas esse coração possuía-o acaso Lívia? Parecia-lhe que não; o mistério, porém, a reticência, a indecisão das palavras da rival, tudo se lhe afigurava cobrir um drama que ela não compreendia nem conjeturava.

No ânimo de Lívia outras foram as preocupações. Para ela, a situação era mais clara. Sentia desvanecer-se o amor de Félix, e via surgir uma rival perigosa. Tinha medo da ignorância de Raquel; receava que a inocência dessa alma ainda em flor pudesse dominar o espírito rebelde de Félix; e tal seria a catástrofe das suas esperanças.

E quando todas essas sombras lhe povoavam o espírito, e o coração lhe pulsava com mais força, perguntava-lhe a consciência se lhe era lícito opor algum obstáculo à felicidade da donzela, dado que esta vencesse o coração do seu noivo. Lívia não dormiu a noite toda. No dia seguinte, apenas a claridade da manhã lhe entrou no quarto, a viúva levantou-se, vestiu à pressa um roupão, e foi ao quarto de Raquel. A filha do coronel dormia profundamente. Repousava de suas longas reflexões. Lívia abriu o cortinado muito ao de leve, contemplou-lhe o rosto sereno e risonho, os olhos cerrados, e os lábios semi-abertos como se em sonhos murmurasse palavras de amor. Os cabelos esparsos lhe serviam de resplendor à sua cabeça angélica. "Não! pensava Lívia, o amor não dorme assim tranqüilo em dias de infortúnio e desespero. Criança inconsciente que te supões alar às regiões do sol, que sabes tu dos precipícios da viagem, que conheces tu das voragens do coração?"

— Ah! estava aqui! exclamou Raquel acordando; ainda bem!

— Por quê?

— Sonhei que morria, e que era recebida no Céu. Fora bom morrer assim; mas eu sempre tinha pena de deixar a Terra. Acordou hoje muito cedo.

— Queria dar um passeio, disse Lívia indo abrir a janela, mas a manha já está quente. Raquel olhou para ela; viu-lhe os olhos pisados e o rosto desfeito. Compreendeu que não havia dormido, e que chorara.

"Ama-o então muito?" perguntou ela a si mesma.

CAPÍTULO XVII / SACRIFÍCIO

A SITUAÇÃO das duas moças demandava um termo. Raquel foi a primeira que resolveu deixar completamente o campo; tinha no seu restabelecimento uma excelente razão para regressar a casa.

Lívia compreendeu a intenção da amiga quando esta lhe comunicou a sua resolução. Era tão simples e tocante o sacrifício, que a viúva não resistiu a um impulso generoso. Respondeu-lhe com um beijo. O beijo era de admiração; Raquel acreditou fosse de agradecimento, e sorriu com tristeza.

Ficou assentado que Raquel iria no domingo próximo, e nesse sentido foi avisado o coronel.

Estavam ainda no dia seguinte ao do episódio do menino. Nenhuma das suas circunstancias esquecera ao médico. A esquivança de Raquel continuava a preocupar-lhe o espírito, não menos que a infundada suspeita que nutria a respeito da viúva. Era meado do mês de dezembro. A data do casamento estava próxima. Tudo exigia um desenlace a tempo.

Não tardou que o médico descobrisse os sentimentos que a filha do coronel nutria a seu respeito. Surpreendeu-a perto de uma janela interior, a beijar uma página de um álbum de retratos. Aproximou-se cauteloso, lançou os olhos à página e viu nela o seu próprio retrato.

(continua...)

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