Por Lima Barreto (1921)
Lendo as obras do senhor Felino observa-se a sua tendência para fotógrafo ao qual, talvez, por essa sua vocação sopeada, atribui gênio; mas o interessante, e que se conclui do trecho acima, é que pretenda fotografar os seus clientes de fronte para o Céu!
Naturalmente, penso eu, é vocação para fotógrafo de necrotério.
Temos ainda: a única omissão que aí noto é a ‘origem genealógica”...
Risum teneatis, amici!
E saibam que a tal “origem genealógica” consta unicamente dos nomes do respeitável pai e da augusta mãe do biografado!
Aprenderam?
Agora esta “amostrazinha”:
“O doutor Amaro tem a tez morena e olhar cintilante dos filhos do Norte. (Ex.:
os da família Accióli). Dicção correta e voz metálica. E amigo leal e dedicado. Fala francês. Monta cavalo.
“Habitamos, algum tempo, a mesma casa (Notável detalhe). Fez-me lembrar, muitas vezes, os solitários da Tebaida. (Coitado!). Pagava as visitas que lhe faziam.
Toma banho frio todos os dias. Parece que tinha lido o conde de Camors. “Quando estava comigo queixava-se da solidão. (Pudera!).” Puro estilo telegrama – não há dúvida!
Temos mais:
“As suas ações (as do doutor Amaro) nada têm de heróicas.”
“O meu herói distinguiu-se em outro cenário diverso; na vasta e tempestuosa
arena da luta pela existência.”
Extraordinário esse senhor Pelino! Descobre aquele “paradoxo”: “a biografia”, etc. Depois tem “um herói” sem “ações heróicas”, que se distingue – não na guerra, não nas artes, não na ciência – mas onde, Santo Deus? – na arena da luta pela existência!
Acredita com certeza que possa haver quem se celebrize na arena da luta... pela morte!
Macabra idéia!
“Sei, diz o doutor Pelino, que escrevo esta obra para escola.” Com toda certeza para “sua” Escola Nacional do Caráter...
“O doutor Amaro é a personificação da luta pela existência.”
Esta “história” de luta pela existência atrapalha a inteligência “paradoxal” do senhor Pelino. “Personificação da luta pela existência!” É demais!
Outrazinha:
“O trabalho e o estudo simbolizam para o doutor Amaro a sua – Delenda Carthago.
Símbolo extraordinário! Vai tal símbolo, naturalmente com vistas aos nossos simbolistas.
Simbolizam delenda Carthago!
Sem comentários. Safa!
Terminando diz o Calinópedes: “Se a intenção foi pura e a obra não sai perfeita, a culpa não é do autor.”
Nem minha, senhor Pelino.
Enfim, a obra do senhor Pelino é sem dúvida das mais curiosas e dignas de leitura que conheço. Nela, se não fossem os documentos que possuo da existência do senhor Pelino e outros motivos que saltam aos olhos de todos, poder-se-ia afirmar que haviam colaborado Calino, La Palisse , Acácio , Pacheco, Prudhomme e mais outros de igual jaez. Feliz país que possui um Pelino!
Adolfo von Schulze.
Da Universidade de Freiburg.
Tradução de Lima Barreto. A.B.C., Rio, 23-2-1918.
OS MATADORES DE MULHERES
Preocupações de outras ordens, não me têm permitido escrever sobre coisas diárias; mas este caso de Niterói, caso do Filadelfo Rocha, fez-me voltar de novo à imprensa quotidiana.
Eu não me cansarei nunca de protestar e de acusar esses vagabundos matadores de mulheres, sobretudo, como no caso presente, quando não têm nem a coragem do seu crime.
Eu conheço este Filadelfo desde tenente. Sou funcionário da Secretaria da Guerra há quinze anos. Ele nunca passou de um tarimbeiro147 vulgar, feito pelo Floriano oficial. De bajulação em bajulação, foi subindo, até que, com a sua máxima bajulação ao senhor Hermes da Fonseca foi levado a ser comandante da polícia de Niterói.
Ele é quase analfabeto, sem nenhuma inteligência, nunca fez o mínimo esforço mental; entretanto, agora, coberto pelo opróbrio de um assassinato, insinua que o fez porque o seu rival era um simples funileiro. Mas onde foi Filadelfo encontrar superioridade suficiente para julgar-se mais do que o tal bombeiro? Este Filadelfo ignorante, bajulador, que eu via pelo corredores de Ministério da Guerra a pegar na casaca deste ou daquele graúdo, para não comandar as suas praças, é, por acaso, alguma coisa?
Com essa tatuagem de galões, eles querem fazer das suas, matando as mulheres a torto e a direito. Eu me refiro simplesmente a semelhantes sujeitos. E digo isso, não por covardia, mas em atenção a verdade.
Por exemplo: este senhor Faceiro que, ontem ou anteontem, matou a mulher, porque teve a franca, a franca franqueza orgulhosa de dizer que a sua gravidez era do seu amor e não dele, não me merece a mínima piedade; mas há tantos outros que eu estimo... Adiante.
A mulher não é propriedade nossa e ela está no seu pleno direito de dizer donde lhe vêm os filhos.
Mas a questão não é esta. Eu falava do Filadelfo, do pequenino Filadelfo, a quem eu queria dizer simplesmente que nem ao menos ele teve ou tem coragem do seu crime. Espécie de Mendes Tavares! Basta.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.