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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Enquanto Crebillon procurava a sonhada casa de aparência, em bairro nobre, a vida foi um suplício no segundo andar. Nem a vassoura, ao menos. Dona Ana mandava para sacudir a poeira do soalho e, como a bolsa não tinia, todo um longo dia escoou sem que os três fizessem passar alguma coisa pela boca, a não ser o fumo dos cigarros. Só o esqueleto, livre da contingência da fome, não suspirava. O próprio João de Deus, não farejando almoço pediu licença para ir fazer uns carretos que havia tratado e saiu.

— Ah! Não torna mais! — suspirou Anselmo quando viu o negro desaparecer, com a rodilha e uma fome de náufrago; mas enganou-se porque, à noite, cedo, lá estava ele, farto e fiel.

Para que não desconfiasse da abstinência Ruy Vaz levou-o ao mirante e, misteriosamente, fez uma preleção religiosa, explicando-lhe as razões secretas daquele sistema:

"Observavam um rito antigo, de muita severidade, que impunha, como principal sacrifício, o jejum, de quando em quando, para moderar os ímpetos da carne." E o romancista, com argumentos sutis, mostrou ao negro como a carne (sobretudo a fresca) conduz ao pecado e ao crime quando não é sofreada prudentemente. Falou dos ascetas, citou Gringoire e Santo Antão, Murger e S. Paulo, o eremita Elias e o Dr. Tanner e o negro, convencido, admirava aquelas almas temperadas de fé e de resignação que resistiam, com tanto fervor, às exigências da matéria. Anselmo tinha surdas revoltas vendo que, em todas as casas, as chaminés fumegavam.

— Mas que tens tu com o fumo dos lares? — perguntou Ruy Vaz.

— Detesto-o!

— És o único. Os poetas celebram a espiral que sobe dos telhados como uma prece demandando a altura.

— Sim, os poetas celebram quando têm o estômago saciado. Põe-me aqui um poeta faminto a olhar todos esses tubos que falam de ensopados, de omeletes, de frituras e de bifes com batatas, e hei de ver a estrofe que lhe sai dos lábios. Há de sair uma invectiva... Isso tantalisa! Saber a gente que em todas essas casas come-se, que em todas elas há almoço e jantar...

— E dores e remorsos e angústias.

— Ora! Infamíssima criatura! — murmurou entre dentes, pensando em Dona

Ana. À noite, porém, já desanimados, dispunham-se a fazer uma desgraça quando o Toledo apareceu com um embrulhinho oloroso, oferecendo timidamente aos companheiros.

— Que é? — perguntou Ruy Vaz lançando um olhar de desprezo ao presente.

— Fígado frito.

— Ora! Fígado frito... Sem pão, aposto?

— Com farinha.

— A farinha faz mal, está provado. Enfim... Queres, Anselmo?

— Eu não sei se o fígado me faz bem: tenho uma hepatite...

— Ora, dentada de cão cura-se com o pêlo do mesmo cão.

— Similia similibus curantur, ajuntou o Toledo.

— É exato. E empanturraram-se. Tarde, João de Deus apareceu estafado e abarrotado: lavara uma casa na vizinhança e comera uma feijoada completa. Teve horríveis pesadelos no corredor — sonhou com um esqueleto, fardado e de mitra, equilibrando-se em uma bola que ia e vinha, pesada e ansiante, sobre o seu estômago. Acordou arquejando e o Toledo diagnosticou um ameaço de congestão, fazendo com que o negro saísse ao mirante com um dedo na goela para aliviar-se. João de Deus urrava e, de manhã, com uma enxaqueca feroz, teve de levar uma carta de Anselmo a um fabricante de águas gasosas que respondeu com muita lamúria, referindo-se às dificuldades da vida e à concorrência das águas estrangeiras que inundavam o mercado, comprometendo-lhe a fonte de renda. Estava a liquidar, concluía, desejando venturas ao estudante. Todas as venturas e nem uma xícara de café ao menos! Foi então que decidiu sair atrás do Acaso. Mas era domingo, o Acaso não aparecia e, se o Toledo, sempre cuidadoso, não houvesse recorrido a um primo, homem que tinha cozinha em casa, levando um bom pedaço de assado e quatro almôndegas num papel pardo, esse triste dia talvez houvesse sido último da vida de Anselmo, que já se dispusera a estourar o crânio, se tivesse um revólver... a estourar o crânio, talvez não, mas a vender o revólver com certeza.

CAPÍTULO VI

E assim passaram lentas duas semanas avaras. Todos os dias, como oração matinal, injuriavam Crebillon que lhes havia mentido e pediam a cólera dos céus para Dona Ana, a inflexível, depois reuniam-se em conselho discutindo meios de conseguir almoço e, como era mais difícil arranjá-lo para todos, tomava cada qual o seu destino, despedindo-se à porta da rua, com tremuras na voz e os olhos úmidos. Toledo, porque tinha o primo, dirigia-se logo para Santa Teresa subindo a montanha penosamente, ao sol, certo, porém, de que ia regalar o estômago com os acepipes do parente, que tinha orgulho em possuir um cozinheiro perito e magníficos charutos. Ruy Vaz seguia a pé para as Laranjeiras e, tonificado pelo bom ar da manhã, saudável e aperitivo, empurrava o pesadíssimo portão do palacete do visconde de Montenegro.

(continua...)

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