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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

De súbito, Otávio sentiu nas costas uma dor aguda e soltou um grito involuntário. Antes de cair, o malfeitor apunhalara-o pelas costas. O menino levou a mão à ferida e arrancou a arma, que os dedos de um morto já não seguravam.

Em seguida, horrorizado pela idéia de ter sobre si um cadáver, moveu-se bruscamente e fez rolar para um lado o peso que o oprimia.

Nesse momento, um brado pungente veio perturbar o silêncio da noite. Uma voz de criança gritou ao longe:

— Otávio! Otávio!

— É ela! É ela! exclamou o menino em francês.

O chefe da quadrilha fugia pelo mato com Rosalina ás costas. Otávio quis levantar-se para socorrer a quem o chamava. O infeliz não teve forças. Erguendose, por um instante, caiu prostrado.

— Meu Deus!... disse, apenas, e rompeu em soluços.

— Otávio! Otávio! repetiu mais longe a voz de criança. — Ai! gemeu com desespero o menino.

Por um esforço inaudito, pôs-se de pé, mas não conseguiu dar um passo sequer... Caiu de novo... Ficou sem movimento no chão... Balbuciou:

— Meu pai, está satisfeito?

E morreu...

— Otávio! Otávio!

Estes gritos lancinantes partiram ainda uma vez do âmago das trevas, mas já fracos... imperceptíveis quase.

Depois, mais nada... a noute a ciciar um cântico sobre a hecatombe.

Alta noute, no mesmo teatro das cenas de sangue que acabamos de narrar, passou-se uma cousa indescritível.

Um homem apareceu correndo do meio da escuridão dos bosques. Trazia nos braços uma carga, que não parecia pesar-lhe.

Inesperadamente ele parou. Tropeçara em um objeto.

— Mais outro?! murmurou ele, em francês.

E abaixou-se para ver em que esbarrara.

Nessa ocasião o minguante da lua, levantando-se, mostrou-se no céu e difundiu alguma luz pelo campo.

Então, como se essa luz viesse queimá-lo, o desconhecido deixou partir dos seus lábios um som apenas comparável ao uivo derradeiro do cão a morrer.

— Morto! disse depois.

O objeto em que tropeçara era o cadáver de Otávio.

Depôs então o seu fardo em terra e ajoelhou-se ao lado do menino morto.

Aquele fardo era o corpo de Rosalina. O desconhecido o encontrara na floresta, despido e sacrilegamente maltratado, e o trouxera envolto no seu capote.

Com dous estertores pronunciou dous nomes e chorando debruçou-se para os cadáveres.

— Meus pobres filhos! exclamou ele.

Em tom de desespero acrescentou: — Meu Deus! Meu Deus! Ambos assassinados!

E, abatido pela dor, estirou-se ao lado dos dous cadáveres.

Fim

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