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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Também fizera uma promessa a São Gonçalo da Serra dos Cocos e a outros patronos celestiais, não menos afamados pelo prestígio de sarar enfermos, desesperados da saúde. Estava em verdadeiro apuro para dar conta de todas elas; mas, o padre Antônio Fialho, ouvindo-a em confissão, lhas comutara em leve penitência, impondo-lhe a obrigação de rezar algumas coroas, terços e o ofício de Nossa Senhora, hino mirífico, que, quando é cantado na terra, os anjos se ajoelham no céu. Nas horas de alívio, ela se penitenciava debulhando, entre vagos fulgores de esperança, as contas luzidias de um rosário bento pelo santo missionário frei Vidal.

— Não sinto quase o puxado, minhas filhas, e aquele entalo, que me sufocava, também desapareceu. Dormi, que nem um passarinho, louvado Deus.

— Eu bem lhe dizia, tia Zefinha, que o remédio, abaixo de Deus, havia de ser a sua salvação.

— Agora – observou Luzia – é continuar com ele: estamos de viagem.

— E tu a dar-lhe, filha. Espera mais um pouco. Estou tão afeita a sofrer que, se não fosse falta de fé, desconfiava ser isso visita da saúde...

— Qual, vosmecê vai arribar mesmo – afirmou Teresinha, com muita convicção.

A velha sentou-se, acariciada pela filha, que lhe endireitou as dobras da saia e o lenço da cabeça, enquanto Teresinha preparava o chá de erva-cidreira, que ela tomava todas as manhãs.

— Agora, disse a velha, com um suspiro de alívio – vocês podem cuidar do trabalho, que ficarei tomando conta da casa. Se não fosse esta pobreza, tomaria uma menina para fazer-me companhia, varrer o terreiro, dar-me um caneco d'água, enquanto estivessem fora labutando... Já passei, aqui, dias e dias sem ver vivalma, até que a Luzia voltasse da obra... Que dias compridos!...

— Dias que não voltarão, tia Zefa, porque aqui estou eu, que a não largo mais...

— Se houvesse por aí – continuou a velha – uma pasta de algodão, fiaria um novelo para não estar banzando sem fazer nada... e só pensando na moléstia ...

Às nove horas Luzia, ansiosa por saber o que lhe começara a contar Alexandre, a revelação interrompida pela sobrevinda insolente de Crapiúna, partia com o almoço para o desconsolado preso, que, mal terminada a refeição, lhe perguntou se sabia alguma coisa de novo; e, pois lhe a rapariga respondesse com simples gesto negativo, disse, à puridade, suspeitar da interferência maligna de algum interessado em desgraçá-lo.

— Sabe o que me fizeram – continuou, amargurado - Levantaram-me uma calúnia... Você conhece a Gabrina, aquela moça morena, que perdeu a mãe, há pouco tempo?... Pois não inventaram que eu lhe havia dado dinheiro e dois cortes de vestido?...

— O quê?!... – exclamou Luzia, franzindo os sobrolhos, e encarando no moço.

— Eu que nunca alevantei meus olhos para semelhante criatura senão para salvá-la, quando nos encontrávamos no trabalho.

— Quem disse isso?

— Há gente para tudo, até para levantar falsos contra os seus semelhantes.

— Mas... quem inventou esse aleive?... Ela?!... É possível que uma rapariga tão moça tenha maldade para tanto?...

— Disse que eu andava há muito tempo atrás dela, seduzindo-a com promessas de casamento e que, sozinha no mundo, sem ter quem se doesse dela, não se lhe dera de consentir... Veja que mulherzinha mais desalmada... E eu, disse ela, lhe dera os mimos para que ela saísse logo de casa comigo...

— E você jura que isso é mentira?...

— Eu?... Eu não preciso jurar; basta, Luzia, que lhe afirme...

— Por certo... Demais, que tenho eu com os seus particulares?... Você não tem necessidade de negar... Mentira ou verdade, é livre, desimpedido, senhor da sua vontade para empregar o bem-querer em quem for do seu agrado. Isto não é da minha conta...

— Mas... queria explicar...

— Para quê? São desnecessárias para mim essas explicações. Deve dá-las ao Delegado...

— Luzia – continuou Alexandre, fitando-lhe uns olhos pisados de mágoa – Você tem sido, abaixo de Deus, minha protetora, meu anjo da guarda nesta desgraça, que me apanhou. Não tenho outra pessoa que puna por mim... se me abandonar...

— Abandonar!... Não penso em semelhante ingratidão. Além disso, é obrigação fazer o que tenho feito pelo senhor e ainda mais, se necessário for, muito embora, depois de solto, satisfaça o capricho do seu coração. Serei sempre a mesma, somente não estou para levar fama sem proveito, como já me tem acontecido...

— Sei quanto tem sofrido por minha causa...

— Não vale a pena. Fui eu quem lhe trouxe caiporismo. Mas, só peço a Deus que me ajude a tirá-lo desta cadeia. Depois, o senhor toma o seu rumo e eu o meu. Será melhor assim para ambos...

Houve prolongada pausa. Alexandre, conturbado àquelas palavras secas e cruéis, contemplava, num misto de espanto e mágoa, a figura da moça, enteada, e de olhos cerrados, quase absorta em torturantes pensamentos. Rompeu ele, a custo, o oprimente silêncio.

(continua...)

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