Por Bernardo Guimarães (1869)
— Nada receies, Oriçanga, sobre a sorte dos dois jovens passeadores. Sem dúvida procurando abrigar-se da tormenta, que os acolheu longe daqui, asilaram-se no seio de alguma gruta, ou no côncavo de algum velho tronco, e aí esperando que a tormenta amainasse, surpreendidos pela noite adormeceram no sono descuidado da inocência, como duas aves errantes, que ao cair das trevas pousam à sombra do primeiro tronco que encontram em seu caminho. Tranqüilizate; Guaraciaba e Itajiba te amam e te veneram muito para te fugirem traiçoeiramente. Eles se amam e Tupá vela sobre eles.
Enfim um murmúrio surdo começou a levantar-se na extremidade das habitações, e brandões acesos ondearam através da escuridão da noite. Um grupo de guerreiros avança pela frente das tabas ao longo da margem do rio. No meio deles marchavam Guaraciaba e Itajiba opressos de fadiga, mas com rosto tranqüilo e sereno. Atrás do séquito um vulto silencioso e isolado seguia com ar sinistro; era Inimá. Pelo caminho o séquito se engrossava cada vez mais e agitava-se soltando grandes clamores. Estes clamores eram em grande parte aclamações de alegria pelo feliz reaparecimento de Guaraciaba; muitos deles porém eram também gritos ameaçadores e imprecações contra aquele que eles julgavam ter desencaminhado e pretendido roubar deslealmente a filha do cacique. Já os ânimos se amotinavam, e muitos guerreiros, ignorando as circunstâncias daquele fatal sucesso, com gestos ameaçadores estavam prestes a se lançarem sobre Itajiba. Felizmente chegaram sem incidente algum à taba do velho cacique. Guaraciaba saltou ao colo de seu pai, que a esperava à porta com os braços estendidos e chorou de alegria apertando-a contra o peito. Oriçanga ordenou que se retirasse a turba que se apinhava tumultuosa à porta de sua cabana, e ficou com Guaraciaba e Itajiba.
— Querida filha, exclama ele, que mau espírito te desencaminhou por essas selvas, e ia-te desgarrando da sombra da taba paterna?... Ah! quantas angústias, quantos frios sustos não embebeste no coração de teu velho pai, demorando-te assim até as horas mortas da noite entre os perigos da floresta tenebrosa!... Esse estrangeiro, que te acompanha, por que não te guiou ele mais cedo às nossas tabas? Oh! minha Guaraciaba, por Tupá eu te peço, dize-me, não seria ele acaso quem de propósito transviou-te procurando roubar vil e traiçoeiramente a minha filha, único bem que o céu ainda me conserva, a Inimá a esposa que eu lhe tinha prometido, e à tribo o último ramo de um antigo e ilustre tronco de heróis já quase extinto?... Ai dele se tal era seu louco intento! por enorme e cruel que seja não haverá castigo que seja excessivo para punir tão nefanda traição.
— Tranqüiliza-te, meu pai, atalhou Guaraciaba, nem eu nem Itajiba cometemos crime algum, nem praticamos ação de que possamos nos envergonhar diante de ti. Eu vou contar-te fielmente a história dos acontecimentos que nos detiveram na floresta até estas horas, e se ainda me acreditas, meu pai, verás que somos inocentes e nos perdoarás.
Então Guaraciaba, com a franqueza e ingenuidade de uma alma pura, referiu-lhe por miúdo o seu descaminho, a tempestade que os assaltou e os obrigou a procurarem refúgio dentro de uma furna; pinta-lhe com calor e vivacidade, como quem se achava ainda sob a impressão dos acontecimentos, as terríveis cenas que ali tiveram lugar, e por fim em tom grave e triste acrescentou estas palavras:
— Agora, pai querido, forçoso é revelar-te um sentimento, que não devo ocultar-te por mais tempo; ah! e quanto me custa fazê-lo, pois sei que vou magoar-te o coração.
— Filha, se para repouso de teu coração é preciso que me faças essa revelação, fala, que estou pronto a ouvir-te, embora isso deva doer-me como uma seta envenenada.
— Perdoa-me, meu pai, se vou de encontro às tuas vistas a meu respeito; mas devo hoje declarar-te com franqueza, eu não devo jamais ser esposa de Inimá.
— Que dizes, filha? pois queres que eu falte a minhas sagradas promessas?
— Mas, meu pai, se esse que destinais para meu companheiro e que deve substituir-te no comando da tribo, tornar-se por suas ações indigno dessa hora, se procede como um vil e vai deslustrar teu nome e tua geração, desde esse momento estás desligado de tuas promessas. Desde o berço ouço falar que sou destinada a Inimá, mas posto que não lhe tivesse repugnância, contudo nunca ao seu nome palpitou-me o coração, nem suspirou por essa união. Hoje, porém, tudo mudou-se; sua presença me importuna, seu amor me atormenta, e essa união, com que me acenam, tornou-se para mim uma ameaça de morte. Se é a sucessão no governo da tribo que ele ambiciona, dá-lha, meu pai, mas dá-lha sem mim, que de bom grado a ela renuncio, e nem aspiro a outra felicidade senão a que é dada pelo amor.
— Pelo amor! e acaso amas tu alguém, que não seja Inimá?
— Ah! meu pai! desde que meus olhos viram Itajiba, meu coração voou para ele.
— Oh! sim! meu coração parece-me que já tinha adivinhado esse fatal desvio de tuas afeições... e não te envergonhas de amar um estrangeiro foragido, que o acaso arrojou em nossas praias?
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.