Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Tendo feito boa colheita de esmolas em São Paulo, achava-se um dia o irmão Joaquim à beira da estrada em sitio deserto dessa capitania, descansando sentado à sombra de frondosa árvore, e de lápis e papel nas mãos traçava, improvisado arquiteto, grosseiro desenho de seminário, que ia em breve criar, quando alguns soldados e caipiras que passavam foram a ele, julgaram-no suspeito, reputaram o desenho do seminário talvez plano de marcha de algum exército invasor em riscos topográficos, e em suma prenderam e amarrado conduziram para o Rio de Janeiro o venerando irmão Joaquim, como espião e agente de Bonaparte!...
No Rio de Janeiro, Paulo Fernandes, o Intendente Geral da Polícia, ou ficou surpreendido, ou nadou em alegria ao anunciarem-lhe a prisão e chegada do espião francês, e ordenando logo que lhe apresentassem, ao ver entrar na sala o esperado criminoso, saltou da cadeira, exclamando:
- O irmão Joaquim!...
E com suas mãos ajudou a desatar as cordas que arrochavam os pulsos da inocente vítima, e sem perder tempo em interrogatórios inúteis chamou a esposa e a família e entregou aos seus cuidados amigos, aos bons ofícios da veneração mais justificada o mártir do erro mais grosseiro, o irmão Joaquim, o homem santo, o S. Francisco de Assis brasileiro.
Assim pois de 1808 até o fim da guerra geral da Europa, ou até ser encadeado aos rochedos de Santa Helena o novo Prometeu que se chamou Napoleão Bonaparte, falar em franceses no Brasil era o mesmo que hoje em dia anunciar febre amarela.
Mas estava escrito que a Rua do Ouvidor; que aliás já contava boas casas comerciais portuguesas e inglesas, somente havia de florescer e primar na cidade do Rio de Janeiro depois de tornar-se rua francesa.
Sabem todos que de 1808 a 1818 correu decênio quase todo de festas oficiais e populares: chegada da família real, aniversários natalícios da rainha e do príncipe regente, nascimentos e casamentos de príncipes, notícias de vitórias alcançadas na Europa sobre os franceses, tudo era motivo para festas mais ou menos brilhantes.
Nas Memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos, a paciência do leitor é posta em longa prova nas descrições, circunstanciadas e miúdas dos festejos e iluminações, sendo indicadas as ruas e ainda mesmo as casas, que mais distintas se mostravam em festiva ostentação, e a Rua do Ouvidor apenas uma vez é lembrada, mas como se vai ver, foi festeira de pouca despesa.
No dia 16 de dezembro de 1815 (aniversário natalício da Rainha D. Maria I) foi por carta de lei erigido o Principado do Brasil à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarve.
O povo entusiasmou-se no Rio de Janeiro com o grau de nobreza a que fora elevado o Brasil, e o Senado da Câmara em janeiro de 1816 fez celebrar em ação de graças na Igreja de S. Francisco de Paula solene Te-Deum, ao qual, convidados, foram com aparatoso estado o Príncipe Regente D. João e os Príncipes seus filhos D. Pedro e D. Miguel.
O Padre Luís Gonçalves dá conta dessa festa com as minúcias do seu costume em tais assuntos; mas o que importa para a Rua do Ouvidor é que depois de dizer como o príncipe regente e seus filhos, o príncipe da Beira D. Pedro de Alcântara e o infante D. Miguel, precedidos por etc., e seguidos por etc., (nos et coetera fica toda a descrição de grandioso estado) saíram do paço da cidade no magnífico coche real e pelas ruas Direita e do Ouvidor se fizeram levar para a Igreja de S. Francisco de Paula, em trânsito que foi triunfal, ostentando as portas e janelas de todas as casas uma muito brilhante decoração e encantadora vista: tudo estava coberto de sedas de diferentes e matizadas cores, e as senhoras vestidas e tocadas com riqueza e gosto realçavam das janelas esta bela perspectiva!... De todas as janelas, especialmente da Rua do Ouvidor; caíam sobre o real coche inumeráveis flores que o cobriram e juncaram a rua, etc.
Nesta informação eu noto (mas sem malícia alguma) o zeloso cuidado com que observou os vestidos, os toucados e o realce das senhoras o reverendo Padre Luís Gonçalves, que tão severo, rabujento e furente preconizador do celibato clerical se pronunciou anos depois, atacando o Padre Feijó.
Em todo caso ai ficou em janeiro de 1816 a Rua do Ouvidor dignamente representada por senhoras e por flores na festa popular em honra da elevação do Brasil a Reino Unido aos de Portugal e Algarve.
Senhoras e flores!... que representantes legítimas de predestinado fulgor!... mas a representação por senhoras que se vestiam e toucavam sem vestidos nem toucados procedentes da Rua do Ouvidor e por flores que ainda então se obtinham gratuitamente, porque não havia jardins de exploração industrial, deu à rua hoje tão rica e famosa apenas brilho emprestado que bem poucas meias-moedas lhe custou.
Dois anos depois, em 1818, a Rua do Ouvidor fez muda, mas patente a confissão de exiguidade de recursos, não se tornando distinta, nem mencionada nos extraordinários espetáculos e festejos dados em honra da coroação do Rei D. João VI e de propósito demorados para o ensejo do casamento do Príncipe D. Pedro no mesmo ano celebrado.
As festas duraram três dias, e além do mais que houve, e que foi muito, produziu singular efeito, o espetáculo dos imensos e estupendos carros que se ostentaram no circo preparado no Campo de Santana, atual Praça da Aclamação.
O corpo do comércio apresentou o soberbo carro de Triunfo à Romana.
Os latoeiros e caldeireiros disputaram primazia com o seu pomposo carro da América.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.