Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

Fui à missa a São Gonçalo,
e nunca fora à tal missa,
que uma custa dous tostões,
e esta há de custar-me a vida.
Estava eu fora esperando,
que o Clérigo se revista,
quando pela igreja entrou
o sol numa serpentina.
Uma mulher, uma flor,
um Anjo, uma Paraninfa,
sol disfarçado em mulher,
e flor em Anjo mentida.
Fui ver a metamorfósis,
vi uma moça divina
ocasionada da cara,
quando arriscada de vista.
Onde tal risco se corre,
ou onde tanto se arrisca,
que menos se há de perder,
que a liberdade, e a vida.
Desde então fui seu cativo,
seu morto daquele dia,
e dentre ambos quis Amor,
que só o cativo Ihe sirva.
Serve o cativo talvez,
mortos não têm serventia,
e se tiver de matar-me
vanglória, o terei por dita.
Por entre a nuvem do manto,
que a luz própria então vencia,
às claras estive vendo
aquela estrela divina:
Aquele sol soberano,
que pela elítica via
de seu rosto anda fazendo
um solstício a cada vista.
Acabou-se a missa logo,
e foi a primeira missa,
que por breve me enfadou,
pois toda a vida a ouvira.
Foi-se para sua casa,
e eu a segui a uma vista,
passou o rio, e cobrou-se,
cheguei ao rio, e perdi-a.
Vi-a no monte, e Ihe fiz
co chapéu as despedidas,
e Ihe inculquei meu amor
por meio da cortesia.
Não tornei a São Gonçalo,
nem tornarei em meus dias,
que entre beleza, e adorno
todo o home ali periga.

APPLICA O POETA O CASO SEGUINTE A IGNACIO PISSARRO SENDO APANHADO
COM HUA MOÇA POR SEUS IRMÃOS.

MOTE

Maria mais o Moleiro,
tiveram certas razões,
Maria caiu-lhe a saia,
e ao Moleiro os calções.

Maria todos os dias
levava a moer o trigo:
vem o Moleiro inimigo
rapa-lho todo em maquias.
Tiveram certas porfias
andaram aos empuxões,
Maria caiu-lhe a saia,
e ao Moleiro os calções.
Maria escapou da briga,
mas logo no outro dia,
eis o Moleiro, e Maria
qual de cu, qual de barriga:
qual de baixo, qual de riba
jogaram os repelões,
Maria caiu-lhe a saia,
e ao Moleiro os calções.

Com tão grandes travessuras
Maria tanto esbofou,
que a candeia se apagou,
e ficaram às escuras:
ela cruzou logo as curvas,
e ele deu-lhe uns bofetões;
Maria caiu-lhe a saia
e o Moleiro os calções.

Em aperto tão urgente
tanto o Moleiro suou,
que a fralda em suor molhou,
não sei se é assim, ou se mente:
ela afirma que ele mente,
que era caldo dos culhões:
Maria caiu-lhe a saia,
e ao Moleiro os calções.

Mas por lograr a ocasião
quis o triste do Moleiro
levar a praça a dinheiro,
não à força do canhão:
puxou pelo seu bolsão,
e dando-lhe dous tostões
Maria caiu-lhe a saia
e ao Moleiro os calções.

Maria inda que cansada
gritava com tal pujança,
que acudiu a vizinhança
vendo tanta matinada:
mas vendo a luz apagada
cuidaram, que eram ladrões:
Maria caiu-lhe a saia
e ao Moleiro os calções.

Veio a luz num castiçal,
e sem temer maus agouros,
acham a Maria em couros,
ao Moleiro outro que tal:
ela a contar o seu mal
e ele a dar suas razões,
Maria caiu-lhe a saia
e ao Moleiro os calções.

DESCREVE METHAFORICAMENTE AS PERFEYÇÕES DE HUMA DAMA PELOS
NAYPES DA BARALHA.

Pelos naipes da baralha
vos faço, Nise, um retrato,
levantai, que eu dou as cartas.
Saiu de ouros. Vou trunfando.
Ouro é o vosso cabelo,
e de preço, e valor tanto,
que desse pêlo as manilhas
eu co'a espadilha não ganho.
A testa é de outro metal,
que na baralha não acho,
que muito, que me ganheis,
se jogais com naipes falsos.
Não acho em toda a baralha
o naipe de prata, salvo
copas: são copas de prata,
que à vossa testa comparo.
Os olhos são matadores,
verbi gratia, sota, e basto
com que me dais os capotes,
e com que vaza não faço.
Em vosso rosto o nariz
grande, nem pequeno o acho,
que isso é carta, que não joga,
e diz, se joga, eu me ganho.
Boca, e dentes são espadas
pelo risco, e pelo estrago,
que vão às almas fazendo,
se os ides desembainhando.
Os dous peitos, e a garganta
é um jogo soberano
de sota, cavalo, rei,
e garatusa com ganhos.
As mãos vós todas ganhais,
porque nas cartas pegando
todos os trunfos vos tocam,
e as minhas pintais em branco.
Para ser o vosso pé
não acho em todo o baralho
mais que o ás, que val um ponto,
como tem vosso sapato.
Porém a carta coberta,
que metem assaz picado,
eu vo-la direi depois,
que inda vou bruxuleado.

A D. MARTHA SOBRAL QUE SENDOLHE PEDIDA DO POETA HUMA ARROBA DE
CARNE DE HUMA REZ, QUE MATÁRA, RESPONDEO, QUE LHA FOSSE TIRAR DO
OLHO DO CU.

Ó tu, ó mil vezes tu,
que se uma arroba de vaca
te pedia, és tão velhaca,
que me ofreces do teu cu:
essa carne a Berzabu
a devias dar em pó,
a mim não, porque em meu pró
não me atrevo a escolher
nem teu cu pelo feder,
nem pelo podre o teu có.

A HUM CABRA DA INDIA QUE SE AGARRAVA À ESTA MARTHA VIVENDO DE
ENGANAR POR FEYTICEYRO À SUAS ESCRAVAS, E A OUTRAS.

Veio da infernal masmorra
um cabra, que tudo cura,
às Mulatas dá ventura,
aos homens aumenta a porra:
acudiu toda a cachorra
e tratar do seu conchego,
e o cabra pelo pespego,
tanto a todos melhorou,
que aos amigos lhes deixou
as porras com seu refego.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2930313233...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →