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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Não há política, não se escreve, não se inventa, não se intriga. O bem e o mal estão em férias. Londres está absolutamente deserta, isto é, dos seus quatro milhões de habitantes, apenas lhe restam três milhões novecentos e cinquenta mil. Mas justamente os cinquenta mil que faltam é que são Londres; são os políticos, os estadistas, os romancistas, os pintores, os filósofos, os inventores, os elegantes, os cantores, as cocotes e os lordes. O que resta é a vil e escura multidão, que redemoinha na City labutando e traficando. Não conta. Os palácios estão fechados, o parlamento cerrado, as óperas mudas, as galerias desertas, os ateliers abandonados, os clubes solitários, as escolas em férias, a imprensa ociosa, os parques lúgubres, a vida dispersa. Não tenho por isso nenhum livro a criticar, nenhum escândalo a contar, nenhuma obra de arte a celebrar. Nada, nada, nada!

É nesta ociosidade e nesta melancólica escassez que às vezes me entretenho a seguir o novo divertimento que tem por nome os casos difíceis. Este exercício do intelecto, que é feito por meio dos jornais, não os grandes jornais políticos e literários mas os pequenos jornais de escândalo, de mexerico, de pilhéria, ou de curiosidade, este divertimento, digo, consiste no seguinte: o jornal propõe aos seus leitores a solução de um caso difícil da vida e na semana seguinte publica a resposta obtida. É muito interessante ler estas opiniões, que formam positivamente um guia social nas dificuldades humanas. Assim, por exemplo, há dias um destes, o Vanity, propunha o seguinte caso:

Miss A. recebe no mesmo dia duas propostas de casamento: uma de João, que ela ama e que é pobre, outra de Paulo, que ela não ama e que é muito rico, bastante agradável e simpático, e por quem ela tem uma estima completa. Que deve fazer Miss A.?

Vamos lá, qual é a opinião dos leitores da Actualidade? Hem?

Querem saber a opinião em Inglaterra?

O jornal fez a pergunta a semana passada, sábado. Pois bem: imediatamente, de todos os pontos de Inglaterra, das vilas e das cidades, de nobres e de plebeus, pelo telégrafo e pelo correio, vieram centenares, milhares, dezenas de milhares de respostas! E todas a mesma. Qual? Esta:

«Que case com Paulo e que se arranje depois com João!»

O Diabo, no inferno, deu uivos de prazer com esta decisão tão unânime.

Outro jornal apresentava há dias um caso difícil, que eu proponho igualmente aos leitores da Actualidade, pedindo que enviem ao jornal as suas respostas e suplicando à redacção que as publique integralmente.

É um caso interessante, que nos pode acontecer a todos, e de uma solução difícil. Eu modifico-o um pouco, porque tal como aparece no jornal inglês não seria bem compreendido em Portugal. Ei-lo:

A. convida para jantar na sua casa de rapaz solteiro o amigo João e o amigo Pedro, para as seis horas. As seis horas menos um quarto o amigo João chega e conta a A. que nessa manhã teve uma questão seriíssima com o amigo Pedro, que a honra não lhes permite uma reconciliação e que, se se encontrarem, é para se dilacerarem. Neste momento dão seis horas e entra o amigo Pedro. Que deve fazer o infeliz A.?

P. S. – Um amigo meu que se interessa vivamente pelos casos difíceis corre, neste momento, todo alvoroçado, a comunicar-me uma resposta, uma nova solução dada ao caso de Miss A.

É tão profunda, tão profundamente moderna, que a transcrevo integralmente:

«Se Miss A. ama João, que é pobre, e é amada por Paulo, que é rico (reparem bem!) – case com João e entenda-se depois com Paulo!»

Esta resposta, que vem num jornal muito elegante de Londres, é das coisas mais hábeis que tenho lido nos meus tenros anos! Sobretudo se se reparar na observação que a acompanha, e que reza assim:

«Porque aconselhar Miss A. a que case com Paulo e que se arranje com João é completamente pueril.» Pueril, é sublime!

VIII

Londres, 18 de Outubro de 1877

Peço aos meus leitores (se tenho dois) ou ao meu leitor (se tenho um) que não atribuam o meu silêncio de algumas semanas a uma suspensão absoluta de acontecimentos em Inglaterra e no universo. Não. O mundo tem continuado a rolar com uma tolerável regularidade e os homens, sobre ele, a fornecerem assunto a localistas e a correspondentes.

Os motivos do meu recolhimento são todos particulares. Assim, por exemplo, só a França que matéria não tem dado, nestas últimas semanas, a uma pena de boa vontade! Manifestos de sensação, tiranias de Governo, eleições impressionadoras, ameaças de golpe de estado – tudo essa boa França, que não gosta de deixar o mundo sem objecto de conversação, tem prodigalizado com a sua fecundidade de país de génio.

(continua...)

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